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| As bandas de música e seus amadores | Música | ![]() |
No Brasil, costumo ler muita coisa sobre projetos de recuperação da memória,
da importância do resgate da história, do valor das tradições e também
lamentações pelo descaso com a memória, com a história e com as tradições.
Em outras palavras, todos notam que o descuido é grande, muitos fazem
projetos de "restauração e conservação" e ainda assim, a cada dia as
tradições vão se esmorecendo.
Neste último mês, isso chamou-me particularmente a atenção no que diz respeito a uma das mais importantes e antigas tradições musicais do Brasil: as bandas de música. Sabe-se que sua origem está ligada à música militar, dos corpos de músicos milicianos que proviam os toques e marchas da tropa, no caso do Brasil, das de Infantaria e Cavalaria. Em muitos países do mundo, muito prontamente estas bandas também estenderam-se ao domínio civil e várias corporações musicais surgiram com a mesma formação das bandas militares e passaram a exercer um papel social imenso, tocando em todas as circunstâncias imagináveis.
No Brasil, esta difusão das bandas ocorreu já em inícios do século XIX e,
desde então, participaram de forma notável na vida musical do país. É bom
lembrar que grandes nomes da música brasileira tiveram nas bandas de música
o primeiro contato com a arte, dentre estes podemos citar Carlos
Gomes, cujo pai era mestre de banda, Francisco Braga, Eleazar
de Carvalho (tocava tuba na Banda do Corpo de Bombeiros).
Mesmo com tamanha relevância, o que se vem notando no Brasil é um diminuir acentuado da prática da música de banda e mesmo uma desvalorização social das mesmas e de seus músicos. Conheci exímios instrumentistas e arranjadores nas bandas de música que estão perdendo sua arte, ou melhor, perdendo espaço para sua arte. Mas parece-me que, com as bandas de música, acontecerá o mesmo que com a maioria das artes no Brasil. Vamos esperar para que reste apenas um vestígio para então darmos conta de que perdemos.
Disse que este tema me ocorreu este mês passado, pois tivemos a oportunidade de assistir a um Encontro de Bandas Militares no Cine Theatro Central, nos dias 27 e 28, promovido pela Brigada do Exército em comemoração ao dia do soldado. Fiquei impressionadíssimo com o profissionalismo deste pessoal no que diz respeito à música e, também, à criatividade na apresentação (que algumas vezes passou um pouco dos limites, a meu ver). Quem foi, pôde ouvir um repertório variadíssimo, com dobrados e marchas militares empolgantes até canções do cancioneiro popular arranjadas para banda, mostrando, com isso, a abrangência destes grupos de militares.
Isso entre os militares, mas e entre os civis? Onde estão as bandas civis de
Juiz de Fora? Sei que há uma no bairro Monte Castelo que bravamente
sobrevive aos tempos de Funk e Rap e continua a educar musicalmente jovens e
crianças, reúne bons músicos, que não ganham salários e são chamados de
amadores, fazendo-nos lembrar a etimologia desta palavra. São verdadeiros
amadores da música, dedicando o amor exigente desta arte, quase que
silenciados, mas bravos em nos fornecer música. Não são do estado, nem do
município, nem de nenhuma instituição forte, são apenas amadores, amadores
da música. Espécime cada vez mais rara.
Sei que há outras bandas na cidade que infelizmente não tive ainda a alegria de ouvir (não há um encontro de bandas civis?). A estes mestres de música que não sei o nome, a esses músicos anônimos, profissionais de tantas áreas, a esses aprendizes animados, meu mais louvável cumprimento e carinho.
Na esperança de ouvir outra vez, no domingo, a banda no coreto (ainda existem coretos?) do jardim.
Boas retretas.
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