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Da mesma forma que se canta que um dia o sertão vai virar mar, Juiz de Fora virou Ubá...

Assim foi num suplemento caça-níqueis que o Jornal do Brasil circulou domingo, 25 de setembro, cujo tema era "Juiz de Fora -- Terra de oportunidades".

Na capa do tablóide, os leitores se depararam com uma estranha foto panorâmica da cidade, de um ângulo que ninguém conhecia - até que se descobriu que aquilo era Ubá e não JF - um erro tão grosseiro como o do New York Times ilustrar uma reportagem sobre o Rio de Janeiro com uma foto de Cabo Frio.

No expediente, quem assume a responsabilidade pela coisa é um tal Departamento de Projetos Especiais, e não um editor-jornalista, como se espera de um veículo com informações jornalísticas.

Leitores do JB - os poucos que ainda se mantém fiel àquele que um dia foi a referência nacional de jornalismo ético, atraente, inovador, desde fins dos anos 50 até meados dos 70 - muitos deles manifestaram seu espanto e protesto por e-mails enviados ao jornal, exigindo uma retificação. Nenhum deles mereceu um retorno, ainda que formal. Outros tentaram registrar seu protesto pelo telefone. Atendidos por uma central de atendimento ao leitor, a ligação era repassada para o Departamento de Projetos Especiais. Mas após uma espera irritante, desistiam. (Aí vai ele para quem quiser checar: 21-xx-2101-4364).

O professor Adilson Zappa, um dos introdutores do curso de Comunicação na UFJF, detectou, além do absurdo na troca das fotos, uma série de erros primários de redação: "Os textos pareciam de ginasianos, sem nenhuma noção de notícia, e ainda por cima, com dados apurados por telefone, e não pessoalmente, como se exige de uma boa apuração de reportagem."

Zappa tanto insistiu em ser ouvido por alguém responsável pela edição, que acabou sendo atendido por uma burocrata do tal departamento. Entre outras barbaridades para justificar o injustificável, ficou sabendo que a foto de Ubá é de 1997, e que ela estava arquivada na pasta de fotos de Juiz de Fora. Daí, o "engano" da diagramação. E mais: para sanar um pouquinho o mal estar, o jornal está agendando uma entrevista com o prefeito Bejani... e que nada mais poderá ser feito.

Dos anunciantes que foram induzidos a anunciar no tablóide-exaltação (a Prefeitura Municipal, que ocupou a página central e, em páginas inteiras, UFJF, Belgo Mineira, Unipac, Pangea, Villa Empreendimentos, Cofercil, Cave, e mais de uma dezena de empresas em espaços menores) espera-se que se unam na exigência de uma reedição do tablóide com a correção e as desculpas de praxe. Ou que paguem a fatura, sem chiar, tornando-se coniventes com a gafe jornalística (gafe é um eufemismo bastante delicado para classificar o erro).

E que eles, os anunciantes, fiquem sabendo: no próximo ano, novamente, o tal Departamento de Projetos Especiais do JB voltará a bater em suas portas prometendo mais um tablóide (de circulação regional, no máximo uns dois mil exemplares, e olhe lá, e não nacional, como apregoam, no máximo uns 60 mil). A pauta será a mesma, os textos requentados, e nenhuma novidade em relação aos anteriores - exceto que terão mais cuidado em selecionar a foto da cidade em questão, sobre isso, não há dúvida. Em troca, levarão daqui uma boa grana, que deveria ser mais bem empregada em iniciativas e projetos culturais locais. Ao invés disso, irá estimular o JB na sua luta inglória contra o rebaixamento a jornal de segunda categoria.

Na verdade, o objetivo do JB era mesmo faturar um por fora de seu padrão diário. No velho jargão das redações, uma bela picaretagem. Só que desta vez, mal sucedida, explicitamente na capa, onde a simpática e vizinha Ubá tornou-se Juiz de Fora - a "terra das oportunidades" para os camelôs, por exemplo, que vêm da Baixada Fluminense para explorar seus negócios em bancas que armam no Centro da cidade, oferecendo aos incautos artigos piratas como sendo verdadeiros.

Foi o que o JB fez com os anunciantes que tornaram realidade o tablóide: camelotagem jornalística...

(*) O autor trabalhou por 20 anos no Jornal do Brasil, participou das evoluções que o elevaram à grande escola do jornalismo brasileiro nas décadas de 60 e 70, e se desligou da empresa, em 1982, quando o declínio da empresa já era visível e seu futuro se prenunciava de decadência irreversível.


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Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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