Curso Superior de Música em Juiz de Fora Música

Já foi anunciada por seu reitor e devidamente comentada e tratada pela imprensa local a criação do curso de música na UFJF. Os principais comentários que se escutam são de louvor à idéia, especialmente entre os envolvidos mais diretamente com música na cidade.

Mas como sói acontecer nestes casos, os que nada sabem muito dizem e os que sabem algo quase nada falam publicamente, mantendo assim a criação do curso mais no nível do louvor e elogio que do debate que deveria anteceder o mesmo.

São vários os argumentos favoráveis à criação do curso. Trato de alguns deles mais detalhadamente, porém, reservando-me o direito de fazer algumas perguntas, para provocar alguma reflexão em torno disso. De antemão já gostaria de afirmar que apoio categoricamente a criação deste curso pela universidade, porém, repito, creio ser necessário alguma reflexão pública com relação ao mesmo.

Argumento 1

Há muitos jovens que saem da cidade para cursar música em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, e algumas vezes até mais longe, e não voltam depois de sua formação, criando assim uma defasagem de músicos na cidade. Com o curso aqui não seria necessário que fossem para outros centros para dar continuidade á formação aqui iniciada.

De fato isso ocorre. Juiz de Fora já exportou muitos jovens talentosos que deixaram a cidade para seguir nos estudos e não retornaram. A pergunta é: retornar para quê? Como empregar-se como músico na cidade? Que alternativas profissionais Juiz de Fora oferece a músicos recém formados? Há uma orquestra que contrate e pague seus músicos? Ou têm os músicos que conviver com a incerta, aborrecida e desgastante realidade de tocar em casamentos e afins para "ganhar uns trocados"?

Depois de haver cursado quatro anos ou mais em um grande centro, ter tido a oportunidade de tocar um repertório razoável e significativo para sua formação musical, ter conseguido, ainda que por cachês, ganhar algum dinheiro com seu trabalho e com isso ter adquirido alguma visibilidade profissional, o que levaria um jovem a retornar a Juiz de Fora?

Qual instituição seja pública ou privada paga cachê a músicos em Juiz de Fora? E vejam bem, cachês dignos, não migalhas humilhantes, arremedos de pagamentos que não pagam o encordamento de um violino.

Os músicos que saem para estudar em outras cidades não voltam simplesmente porque não encontram aqui perspectivas profissionais dignas.

Antes de um curso superior de música, seria urgente e necessária uma formação de consciência pública e privada acerca do músico como profissional. Tocar em uma orquestra não pode ser visto apenas como um hobby de fim de semana, mas ser encarado como uma profissão. O músico que estuda para tal não é um extravagante que resolveu seguir seu sonho contra tudo e contra todos, mas um profissional que buscou o aperfeiçoamento superior naquilo que lhe parece sua vocação, que o realiza no trabalho e na vida.

Este profissional não é alguém que "mexe com música", mas estuda, pratica, aprimora-se e para isso precisa de um trabalho que o reconheça como tal, que o pague dignamente, para que ele possa, não apenas sobreviver (ter onde dormir e o que comer) mas também investir em sua profissão. Um instrumento de qualidade custa caro e o músico precisa do seu, como o dentista de seu consultório, também caro.

O músico precisa viajar para ouvir outros músicos e assim aperfeiçoar sua percepção de música, interpretação e técnica. Precisa ainda comprar partituras, também caras, (o leitor sabe quantas editoras musicais de qualidade há no Brasil? Se imaginou quase nenhuma chegou próximo da realidade. O músico em geral têm que importar partituras ou praticar o velho e difundido delito da fotocópia).

Formando músicos em nível superior em Juiz de Fora, que opções profissionais daremos a eles?

Seguirei neste tema no mês seguinte.

Colunista
João Sebastião Ribeiro é músico.
Arquivo
Outros artigos da agenda

Av. Barão do Rio Branco, 2390 - Centro - 36.016-310 - Juiz de Fora - MG - Fone: (32)2101-2000 | (32)3691-7000