Esopo - O Fabulista Fabuloso Literatura

Esopo, eis o homem de nome singular, cujas fábulas sobreviveram aos séculos até se tornar parte do linguajar moderno. Exemplo: dizemos "as uvas estão verdes" (ou "podres", segundo a versão original de "A raposa e as uvas") quando percebemos a impossibilidade de alcançar certos objetivos ou coisas.

Sobre sua vida há diferentes versões:

1) Viveu na Grécia, há cerca de 2.600 anos, local de nascimento incerto: Etiópia, Atenas, Trícia, Frigia são cidades que disputam a honraria de ser o berço de seu nascimento. Suas historietas eram narradas ao povo, que se encarregava de repeti-las e assim se multiplicando a sua divulgação. Somente muito tempo depois, uns 300 anos desde a sua morte, é que um historiador de nome Demetrio de Falera as registrou por escrito, e dessa forma as salvou para a posteridade.

2) Uma biografia egípcia, do Século 1, conta que era um escravo, que teria vivido há 3 mil anos, e que foi adquirido e libertado por um filósofo grego, impressionado com o seu talento. O ex-escravo passou a ser recebido com honrarias em ambientes nobres onde divertia e ensinava normas de condutas com suas fábulas em que animais e seres humanos conviviam e dialogavam entre si em um mundo peculiar.

3) Era corcunda, gago, mas de rara inteligência, admirado tanto por ouvintes de castas superiores como pelos mais humildes.

Sobre a sua morte também há lendas, uma delas, a mais trágica, a de que teria sido lançado de um precipício, acusado de blasfêmia contra os deuses gregos, muitos deles personagens de seus pequenos contos.

São atribuídas a ele 357 fábulas, todas se encerrando com lições de moral, inteligência, sagacidade e justiça. Sua inspiração era a cultura popular e o caráter realista e irônico, apesar de os animais, quase sempre, serem os protagonistas das tramas.

As fábulas aqui reunidas ganharam forma literária num exercício de texto a que me dediquei recentemente. Pretendo reuni-las em um livro infanto-juvenil, semelhante a um que me foi dado ler aos dez anos de idade e que me marcou como uma das primeiras leituras a mexer com meus neurônios.

A coletânea é pequena, mas bastante expressiva como mostra da criatividade de Esopo. Ao pé de cada uma, as reflexões que poderão servir aos leitores para compará-las com as suas próprias.

Aqui seguem onze das 21 reescritas por mim para serem editadas em livro, a começar pela mais célebre.

A raposa e as uvas

Uma raposa vagueava à procura de alimentos. Na medida em que a fome apertava, mais atenta se fazia, quando viu uma videira repleta de cachos de uvas negras e maduras, cada um mais apetitoso que o outro. Salivando e umedecendo os lábios com a língua, apressou o passo, alcançou as grades que sustentavam as uvas, e verificou que estavam altas demais, difíceis de serem alcançadas.

Pulou uma vez, outras mais, inutilmente. Tomou distância e tentou um impulso até onde suas forças permitiam. Nada. A cada tentativa, o cansaço se acentuava. Por fim, desistiu, no limite do fôlego Virou as costas e começou a se afastar. Já distante, deu uma última olhada para trás e concluiu:

"Ora, vendo assim à distância, é que percebo que as uvas estavam podres, e não maduras como pensei."

E seguiu em frente, resignada.

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A pessoa vaidosa não reconhece as próprias limitações, abrindo assim caminho para as desventuras

A formiga e a pomba

Era um dia calorento e a formiga foi à margem do rio matar a sede. Distraída, não percebeu uma ondulação na água que a carregou para o meio da correnteza.

Uma pomba que descansava no ninho armado sobre o galho de uma árvore, assistiu o acidente e a agonia da formiga para não se afogar. Imediatamente, arrancou com o bico uma folha e a fez cair na água perto da formiga. Nos limites da resistência, a formiga se agarrou à folha, subiu nela, e flutuou em segurança até a margem. Sã e salva, ela olhou para cima e num aceno de cabeça agradeceu à pomba pelo gesto solidário.

Passado um tempo, um homem, que andava à caça de pássaros, preparou uma armadilha no galho justamente onde a pomba habitava.

Pouco depois, a pomba retorna de um giro pelas redondezas, sem perceber o perigo. O caçador se prepara para aprisioná-la.

Ao pé da árvore, a formiga, que acompanhou aflita o alçapão sendo preparado, descobre um buraquinho na bota do caçador e dá-lhe uma ferroada no pé. Surpreendido, o homem deixou escapar um grito, desequilibrou-se e a armadilha se desfez

E assim a pomba conseguiu escapar para alegria da formiga.

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A gratidão do coração sempre encontrará oportunidades para se manifestar.

A moça e a vasilha de leite

Era dia de feira, e a moça equilibrou a vasilha cheia na cabeça para ir vender leite, como sempre fazia. Só que dessa vez seus pensamentos estavam todos voltados para calcular os ganhos que teria com o negócio, embora muito pequeno para a realização de seus sonhos.

Ela pensava:

"Dessa vez, vou investir todo o lucro na compra de ovos. Dos que estiverem bons, sairão pintinhos, e levarei alguns para vender na próxima feira, e farei mais dinheiro. Aí, comprarei mais ovos e vou crescendo a criação de pintinhos, que se tornarão galinhas, que me darão mais ovos, que tornarei a pôr a chocar, e mais pintinhos e galinhas, e mais ovos, e mais lucro, e mais pintinhos, e mais galinhas, e mais ovos, e mais dinheiro. E aí, estarei rica, terei os vestidos mais lindos que o dinheiro poderá comprar. E poderei escolher o namorado que quiser e com ele me casarei. E as jóias? Ah, as jóias que comprarei... E minhas amigas morrerão de inveja. Serei a mulher mais bonita e invejada do lugar, e também..."

E de tanto pensar, a cabeça nas nuvens, perdida nos devaneios, ela caminhava sem perceber que o leite ia se derramando, pouco a pouco. Quando os projetos atingiram a fase mais mirabolante, um gesto estabanado desequilibrou a vasilha da cabeça, que caiu derramando ao chão o que ainda restava de leite.

Foi então que, sem alternativa, ela retornou para casa de mãos vazias e para a realidade que a cercava.

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Não se deve contar com o ovo quando ele ainda está dentro da galinha.

A raposa e o corvo

Lá vinha a raposa estrada afora, cabisbaixa, desmotivada e, sobretudo, faminta. De repente, um agradável aroma de alimento despertou-lhe ainda mais o apetite. Aspirou mais profundamente o ar e palpitou ser de um queijo.

Na medida em que avançava, o aroma se fazia mais forte e era isso que guiava o seu rumo. Até que deteve os passos diante de uma frondosa árvore e olhou para cima. Lá estava um corvo com um pedaço de queijo preso ao bico, pronto para ser digerido.

Espertamente, planejou uma estratégia para se apoderar do queijo antes que ele fosse engolido:

"Mas que lindo pássaro eu vejo. Há muito tempo não me deparo com uma ave tão bela."

O corvo inclinou a cabeça de um lado para o outro e estreitou o olhar em atenção aos elogios. A raposa continuou:

"Não há nada mais atraente nessas redondezas do que você. Puxa, que plumagem! E que voz maravilhosa deve ter!"

E, então, o corvo, vaidosamente, abriu o bico para dizer "ora, nem tanto assim...", numa falsa demonstração de modéstia. Resultado: o queijo despencou de seu bico direto para a bocarra da raposa que fugiu em disparada, deixando atrás de si um corvo perplexo e envergonhado por ter caído no ardil das palavras.

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Diante de elogios em demasia, com mais razão deves cuidar de teus bens.

O asno em pele de leão

Um asno vagava pela floresta quando se deparou com uma pele de leão jogada ao chão, certamente esquecida por um caçador, que após abater o animal, pretendia negociá-la. Ocorreu ao asno vestir-se com a pele e se divertir assustando os que encontrasse pelo caminho. E assim fez com os pequenos animaizinhos, como o coelho, a tartaruga e o esquilo.

Mais à frente, percebeu que uma raposa se aproximava e decidiu que ela seria sua próxima vítima. Para amedrontá-la, tentou imitar o berro do leão. Mas a raposa nem se mexeu e ignorou a ameaça, mesmo quando o "leão" se revelou por trás de um arbusto. O asno então se despiu da pele e perguntou-lhe por que não sentiu medo.

E a raposa respondeu:

"Provavelmente eu teria me assustado se tivesse ouvido o rugido de um leão, e não o ridículo zurro de um asno..."

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Um tolo pode impressionar pelas belas roupas, mas ao abrir a boca, suas palavras revelarão a todos quem na verdade é.

O cachorro e a sua sombra

Um cachorro cruzava uma ponte sobre um riacho, levando preso na boca um pedaço de carne, que lhe serviria de almoço em instantes. No meio da travessia, ele olha para o espelho d'água e vê a sua imagem refletida. Pensa ser outro animal e tem a impressão que ele carrega uma carne maior do que a sua.

Por um momento, permanece imóvel mirando a imagem. Súbito, larga o seu almoço e se atira ferozmente na água disposto a se apoderar do outro pedaço.

Ao mergulhar na água quase se afoga e, frustrado, vê perdida a sua carne, levada pela correnteza, e também a "outra" desfeita na água.

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Quem troca o certo pelo duvidoso é um tolo imprudente

O cervo doente

Um cervo adoeceu e no centro de um pasto verdejante e fresco fez o seu leito de repouso e recuperação. Improvisou um reservatório de água de chuva acumulada numa casca de tronco de árvore, suficiente para saciar-lhe a sede provocada pela febre.

Seus companheiros foram visitá-lo e como em toda visita a enfermos, as conversas foram se estendendo, cada qual com um caso a contar, enquanto todos se serviam à vontade da grama e da água.

Ao crepúsculo, começaram as despedidas. Um após outro, retornaram aos seus lares, deixando atrás de si o amigo doente, um terreno árido, sem pasto, e o reservatório seco.

E assim, o pobre cervo morreu por falta de alimento e de sede.

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As más companhias trazem mais infortúnios que alegrias.

O galo de briga e a águia

Dois galos de briga se envolveram numa briga feroz pelo direito de comandar o galinheiro. Por fim, o vencedor se impôs e o derrotado foi se recolher envergonhado num canto, longe do olhar complacente dos assistentes e desafiador do oponente.

Exultante e presunçoso, o vencedor agitou as asas e cantou com as forças que sua garganta dispunha.

Uma águia que sobrevoava o local da luta teve a atenção voltada para o alvoroço do galo vitorioso. Com um bote certeiro, avançou sobre ele e levou-o preso entre suas garras.

O perdedor pode então sair de seu canto, e daí em diante reinou absoluto, mas comedido em suas decisões, de modo a não atrair a inveja ou a ira de outros.

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O orgulho, a arrogância, o exibicionismo e a vaidade servem de pavimento ao caminho mais curto para a ruína.

O lobo e o cordeiro

Um cordeiro matava a sede em um riacho. Um lobo se deteve ao vê-lo e imaginou um pretexto para devorá-lo. Aproximou-se da margem e também começou a beber água, sem que o cordeiro se alarmasse, pois o fazia a certa distância.

"Hei, você está turvando a água que estou bebendo" - o lobo falou com implicância.

O cordeiro respondeu educadamente:

"Como posso fazer isso se você está acima de mim e a água escorre daí para cá?"

Sem entregar os pontos, o lobo tratou de mudar de assunto:

"Ah, agora me lembro, no ano passado você ofendeu meus pais."

O cordeiro, sem perder a calma:

"Impossível. Você está me confundindo com outro, pois no ano passado eu nem havia nascido".

"Ah, então, foi teu irmão."

"Errou novamente. Eu não tenho irmão."

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O mau caráter terá sempre um argumento para legitimar seus atos.

O lobo e a ovelha

Após ter escapado de uma briga com cães de caça, um lobo repousava sob uma árvore, ferido e incapaz de se levantar até um riacho onde pudesse matar a sede e lavar as feridas.

Uma ovelha passava por perto e ouviu o chamado do lobo.

"Olá, eu necessito de água. Se você me fizer esse favor, terei forças para caminhar em busca de alimentos, pois minha fome também é grande."

A ovelha, muito desconfiada, respondeu:

"Se eu trouxer água e você se reanimar, na certa eu serei parte desse alimento que você necessita. Desculpe, mas estou com pressa..."

E afastou-se, dividida entre o remorso por não atender um real necessitado, mas aliviada por salvar a própria pele.

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As palavras de um hipócrita, por mais sinceras que sejam, serão sempre postas em dúvida.

O menino que mentia

Um jovem pastor tinha como tarefa diária levar as ovelhas para se alimentar nas redondezas da aldeia. Um dia, para espantar a monotonia, inventou uma peça nos vizinhos, cada qual às voltas com seus afazeres. E passou a gritar:

"Socorro! Um lobo! Ele vai comer minhas ovelhas! Socorro!"

E todos na aldeia se alvoroçaram: as mães fecharam os filhos menores em casa, os mais velhos correram atrás do abrigo mais próximo. Os homens largaram seus trabalhos, se armaram e foram em socorro do jovem que, às gargalhadas, revelou não haver lobo nenhum.

Passado um tempo, o jovem caçoou de todos novamente ao repetir a brincadeira, provocando toda a encenação de pânico.

Até que um dia, foi despertado do cochilo ao pé da árvore pelo nervosismo das ovelhas diante da aproximação de um lobo. Morrendo de medo, ele saiu correndo em direção à aldeia aos berros:

"Socorro! Um lobo! Por favor, me ajudem! Desta vez, é sério!"

Mas, os vizinhos acostumados às caçoadas do jovem pastor, não lhe deram confiança. E o lobo devorou todo o seu rebanho.

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Ninguém crê no mentiroso, mesmo quando ele fala a verdade.

Colunista
Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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