O decibelímetro ou... Literatura

De como as autoridades incentivam os imbecis possuidores de carros aparelhados com sons azucrinantes a infernizar a cidade

Autoridades administrativa e policial legitimaram a postura dos imbecis que instalam em seus carros aparelhos de sons com potência assustadora, que azucrinam a cidade, especialmente à noite e de madrugada, quando o policiamento é quase zero.

Em reportagem na Tribuna de Minas (6/4), a primeira justifica sua omissão na repressão aos abusos jogando a responsabilidade para a PM; esta alega não possuir "aparelho de medição de som para detectar a irregularidade", como se fosse necessária uma engenhoca para lhe informar o desconforto que ruídos excessivos provocam no organismo humano.

Está lá na reportagem essa pérola de insensibilidade:

"A alegação da Gettran e da Polícia Militar é de que somente com o decibelímetro, aparelho capaz de medir o nível dos decibéis, poderia provar e autuar os motoristas que desrespeitam a resolução."

É ou não é uma forma de tirar o deles da reta para justificar a omissão do dever que lhes é atribuído de impedir um crime previsto em códigos e leis que protegem os cidadãos de comportamentos bizarros e inconvenientes na via pública, onde deve imperar o respeito ao próximo.

Mais adiante lá está escrito que a chefe do setor de fiscalização, Rita de Cássia Guedes, prevê que "com o decibelímetro funcionando será mais fácil aos agentes de trânsito atuar, multando os infratores."

Significa que a Prefeitura aumentará sua arrecadação com as multas, mas não impedirá que a agressão sonora continue se espalhando qual praga pela cidade.

É de esmurrar a mesa de raiva, tanto dos marginais ao volante de seus carros sonoros quanto da complacência absurda de dona Rita para com eles. Somente um cérebro desprovido de células cinzentas é capaz de admitir que o risco de multas os fará se sentir receosos de abrir os sons de seus aparelhos quando e onde bem entenderem.

O exibicionismo barato deles demonstra que são elementos (vá lá o jargão policial, que eles bem merecem) dotados de agressividade latente. Não passam de provocadores boçais, que gastam uma fortuna para aparelhar seus carros, e jamais se preocuparão com uma eventual multa que lhes poderá ser aplicada - se um dia for aplicada. Numa adjetivação mais suave, são mal-educados, reflexo de um ambiente familiar em que são naturais discussões em altas vozes, sons de rádio e de televisão a todo volume, pouco se lixando para os vizinhos.

Mas voltemos ao tal decibelímetro: quando ele chegar e entrar em funcionamento, como será a sua atuação? Dona Rita disse que a PM aguarda a chegada de "um aparelho." Unzinho! Vejamos, então, o decibelímetro na prática, em ação, numa noite/madrugada de sábado, por exemplo, quando há dezenas de motoristas babacas espalhando ruídos ensurdecedores por onde passam ou estacionam.

Você, incomodado por um desses deles, liga para o 190 e pede providências.

Ouvirá: "Lamento, mas o decibelímetro está no Bairro Santo Antônio, atendendo uma ocorrência".

Aí, você dirá: "Mas todo o quarteirão onde moro (dá o nome da rua e o bairro) está em polvorosa por causa de um carro com o som aberto a todo volume. Eu estou com pessoa doente em casa, que precisa repousar..."

A voz: "Infelizmente, nada posso fazer, a não ser que o senhor espere. Mas posso adiantar que há outros quatro na fila para o decibelímetro atender: no Bairro de Lourdes, no Bom Pastor, no Ipiranga e em São Mateus".

Você sugere pacientemente: "E se mandarem uma viatura, mesmo sem o aparelho, pois o ouvido dos policiais que vierem será capaz de perceber que uma altura dessas não pode ser permitido. Trata-se de uma agressão ostensiva, que penetra em minha casa, incontrolavelmente..."

A voz: "Infelizmente, não há viaturas disponíveis. Mesmo assim, sem o decibelímetro, a polícia não pode atender esse tipo de ocorrência."

Você insiste: "E o que devo fazer? Aturar, impotente, essa estupidez? Por favor, é obrigação da polícia..."

A voz começa a revelar incômodo: "Olha, está registrada a sua queixa, e assim que o decibelímetro estiver liberado..."

Você reprime o nervosismo no limite da explosão: "Mas são duas da madrugada, e não é possível que um idiota ande por aí, impune, divulgando à toda altura uma "música", ao ritmo de um bate-estaca, incentivando o estupro!"

A voz: "Isso é normal, hoje em dia. Desculpe, senhor, mas vou ter de desligar, para atender outros chamados. Afinal, não é só o senhor..."

Não há nenhuma ficção nessa encenação aparentemente absurda. Trata-se da reprodução fiel (exceto as referências ao tal decibelímetro) de um diálogo mantido entre um cidadão, morador da Rua Padre Café, próximo a um posto de gasolina, com loja de conveniência, e uma voz feminina do outro lado da linha 190, falando em nome da Polícia Militar.

Vejamos outro trecho da reportagem na Tribuna, que dá bem a dimensão do sentimento de desproteção dos cidadãos em JF quando apelam para a sua Polícia e o pouco caso desta em relação às necessidades deles:

"No Ladeira, um casal de idosos sempre deixa a residência na sexta-feira, trocando o barulho pelo sossego da área rural. O mesmo faz a psicóloga Marisa Dias Pereira Nunes, 43 anos. 'É horrível, irritante, me sinto desrespeitada e frustrada, com uma imensa sensação de impotência. Além disso, existe o desamparo por conta dos órgãos públicos. Quando acionamos a polícia temos que descer para assinar o boletim de ocorrência. Como fazer isso? Já desisti. Quando estou no apartamento, chego na janela e fico acompanhando tudo, desde brigas a xingamentos. Ficamos acuados. Outra solução que tenho encontrado é ir para o sítio. Mas, ser obrigada a sair de casa para conseguir dormir chega a ser agressivo', lamenta. 'Está na hora de os órgãos públicos agirem."

Mais um depoimento:

"Chamamos a polícia sempre, mas a viatura vem até o local, e os militares pedem aos proprietários dos carros para baixar o som. Entretanto, ao virar a esquina, a música volta à potência máxima. Além disso, sempre somos ameaçados e intimidados pelos donos dos carros", comentou outro morador da Rua Maria Perpétua, que preferiu não se identificar. Ele disse, ainda, que uma prateleira do seu quarto chegou a cair com a trepidação em função da música alta.

Outro:

"O estudante Felipe Curzi, 26 anos, conta que, além do Ministério Público, moradores já procuraram a Prefeitura. 'Tenho inúmeros protocolos de pedidos de fiscalização para a região. Não dormimos na madrugada de sábado. Em função do show que acontece nas proximidades, muitos jovens vêm para cá com caminhonetes e carros e abrem os porta-malas, realizando até mesmo disputa do som mais alto. É um inferno."

Diante do exposto nos desabafos, resta, então, apelar para a Justiça, já que não há uma quarta alternativa. Mas vejamos o que diz o Ministério Público na reportagem:

"O promotor de Justiça do Meio Ambiente e Urbanismo, Júlio César da Silva, informa que instaurou inquéritos civis para apurar os casos. 'Instauramos os inquéritos, mas a fiscalização, não cabe ao Ministério Público. Essa função é das polícias Civil e Militar e da Prefeitura. O morador que se sentir lesado deve anotar a placa do carro e encaminhar a queixa aos órgãos."

Viram como é mais fácil? Anotar a placa do carro ou dos carros, e levar no dia seguinte à repartição adequada, dar entrada, protocolo, essas coisas, e aguardar ser chamado para dizer exatamente o que aconteceu naquela noite em que sua casa virou um inferno por causa de um débil mental, possuidor de um carro adaptado com um potente som etc etc... E aguardar sete meses para a primeira audiência, mais outros tantos para depoimento de testemunhas, e mais...

Há na reportagem da Tribuna mais exemplos de cidadãos amaldiçoando a praga e lamentando a maneira como as autoridades reagem diante dela. Depoimentos é que não faltarão pela cidade para condenar os marginais que se aboletam em seus carros sonoros para desfilar sua vaidade babaca e divulgar o que eles chamam de música, mas que geralmente não passa de grito de guerra pela voz de funkeiros, como o que fala em "estupra... estupra...", que faz parte do repertório deles.

Bem, à essa altura, se está passando pela sua cabeça comprar uma bazuca, armá-la com granadas, na varanda de sua casa, à espera do primeiro carro de som azucrinante, para disparar certeiramente contra o motorista, você é uma pessoa normal. Apenas a dona Rita, da Gettran, e seus superiores até o prefeito, a Polícia Militar e o juiz de Direito, que o julgará, o condenarão como um terrorista.

Saiba, entretanto, que você será um herói para a esmagadora maioria da população, constituída por cidadãos pacatos, fartos da violência, em todos os níveis e de todas as espécies, como as praticadas pelos donos dos carros e seus aparelhos de som azucrinantes. Vá em frente. Quem sabe, na primeira explosão da bazuca, eles, as autoridades, despertarão para a realidade e começarão a cumprir com o seu dever de combater este mal e não incentivá-lo com a omissão.

Colunista
Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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