A proibição da biografia de Roberto Carlos... Literatura

...transportou a circulação do livro para a Internet

"Roberto Carlos em detalhes", escrito pelo jornalista e professor universitário Paulo Cesar Araújo, teve vida curta nas estantes das livrarias: apenas seis meses. Logo após o lançamento, em dezembro de 2006, o cantor acionou a Justiça e conseguiu, há poucos dias (escrevo esta em 29 de maio), que a obra fosse impedida de circular, alegando invasão de privacidade.

A Editora Planeta, que investiu pesado na edição, entregou os pontos logo no primeiro round, e Roberto Carlos recebeu de bandeja os onze mil exemplares estocados, prontos para serem distribuídos, atendendo encomenda das livrarias que queriam mais.

O livro teve boa aceitação do público, maior ainda entre os fãs de carteirinha de RC. Quanto à crítica, os aplausos foram mais comedidos ao belo trabalho de reportagem, recheado de boas informações, embora em estilo literário meio claudicante, o que em momento nenhum desmerece a obra, resultado de mais de 15 anos de pesquisas e cerca de 200 entrevistas.

Agora, logo após a proibição, o texto passou a circular ao alcance de todos pelo território livre da Internet. Foi lá - ou melhor, foi aqui, diante da telinha do meu computador, que li o livro, ao longo de 619 telas, absorto em cada linha, cada revelação. Recebi o arquivo de um amigo, que o enviou também a outras pessoas de seu relacionamento, via e-mail. Calculo que pela Internet, o livro já esteja circulando centenas de vezes mais do que os exemplares vendidos, e continuará em trajetória ascendente, numa corrente de multiplicação, mil vezes maior do que se permanecesse sendo vendido.

Nesse caso, o tiro saiu pela culatra, pois Roberto Carlos ajudou a divulgá- lo mais com a sua vitória na Justiça do que se tivesse deixado que ele seguisse a trajetória de outros livros biográficos que logo se esgotam - se é que a intenção do cantor fosse a de não ver revelada a sua intimidade, como se isso fosse possível aos superastros.

Foi assim que comecei a sua leitura, mais atraído pela notícia da proibição (que lembrou os tempos sombrios da ditadura), do que propriamente pelo interesse em saber que novidades mais o livro reservaria aos que, como eu, julgavam conhecer a vida de Roberto Carlos o suficiente para não incomodá-lo pessoalmente, caso houvesse oportunidade, em saber, por exemplo, como foi o acidente numa manhã de domingo, aos seis anos de idade, em 1947, na sua cidade natal, Cachoeiro do Itapemirim, quando perdeu parte da perna direita esmagada pelas rodas de um trem, em manobra no centro da cidade.

Este capítulo trágico da vida de RC foi revelado em O Dia, em 1992, quando eu era o editor de Arte do popular jornal carioca. Portanto, eu, e os 400 mil leitores de O Dia - na época o maior jornal em circulação no Brasil -, já sabíamos de como ocorrera o acidente - até então, um tema-tabu na imprensa brasileira, que O Dia ousou ignorar.

O autor da reportagem foi o próprio dono do jornal, Ari Carvalho, que entregou ao editor-chefe, Eucimar Oliveira, o texto que havia preparado para, supostamente, homenagear o grande ídolo dele (Ari Carvalho era também compositor, nas horas vagas, cujo sonho maior era ter uma música sua gravada por RC). Ele revelava os detalhes do acidente, até então inédito na imprensa brasileira. Havia um evidente tom sensacionalista na abordagem do fato (característico do matutino), narrado em linguagem piegas para mascarar o sensacionalismo, mas sem se afastar da realidade.

Coube a mim a edição das páginas, em três capítulos, com direito a um infográfico onde se reproduzia o acidente, passo a passo. A reação de Roberto Carlos, entre quatro paredes, diante das revelações, foi a de desejar ao suposto amigo Ari Carvalho, que ele e tudo o mais que o rodeasse fosse para o inferno... Mas o episódio se encerrou ali, sem nenhuma manifestação pública do homenageado, para não estimular mais ainda o jornal a prosseguir na exploração de seu nome.

Sobre a carreira artística, propriamente dita, também julgava conhecê-la, não em detalhes, mas o suficiente para admirá-lo, sem me incluir na galeria de fãs incondicionais da sua obra. Apreciador que sempre fui da bossa-nova e do jazz, era de bom tom à nossa turma manter-se distante da tal Jovem Guarda, adepta do rock'n'roll, linha Elvis Presley e Little Richard. Nós, os não quadrados, admirávamos também os roqueiros americanos: além dos dois citados, Bill Halley e seus Cometas e Gene Vincent eram também fantásticos aos nossos ouvidos adolescentes. Mas detestávamos quem ousasse imitá-los em território nacional. Aconteceu, tempos depois, também com os Beatles: custamos a aceitá-los, o que acabou acontecendo, mas aí de quem, entre nós, resolvesse imitá-los...

Em nosso terreiro, só admitíamos os bossa-novistas e suas variações jazzísticas como músicos sérios e competentes. Aos nossos ouvidos, os sons daqueles caras chamados Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléia, Renato e seus Blue Caps, Demétrius, Sérgio Murilo e outros, soavam como heresia, autores de coisas insignificantes, quadradas.

Só muitos anos depois, é que canções como "Curvas da estrada de Santos" começaram a merecer mais atenção de nossa parte. E a aceitação foi crescendo até o reconhecimento de méritos na dupla Roberto e Erasmo Carlos - uma delas, através das reverências que nós hoje fazemos à parte da obra deles, não toda - há muitas músicas que ainda confirmam a nossa implicância com eles -, mas o suficiente para que nos penitenciemos de críticas equivocadas nas horas erradas.

Somente em 1970 - portanto cerca de sete anos após os primeiros sucessos radiofônicos da dupla -, fui admitir o erro de julgamento, quando assisti ao show "Roberto Carlos a 300 km", no Canecão. Escrevi no semanário "Jornal Sete", que circulava em JF nessa época, que ouvira o maior cantor do Brasil (ignorando os clássicos ainda em atividade, como Orlando Silva, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, sem esquecer João Gilberto) e recomendava a todos que fossem ao Rio não perder o espetáculo.

Há um capítulo no livro de Paulo Cesar Araújo que fala desse show, a primeira apresentação de RC numa casa de espetáculos no Rio, quando eu revivi esse momento lindo, ao lado de uma jovem... (mas isso é outro papo, mora!).

Bem, aí está - ou estava - "Roberto Carlos em Detalhes" para ensinar que, como artista, ele é merecedor de todas as homenagens, e que nada justifica a atitude antipática e intolerante que foi a proibição do livro, sobretudo desrespeitosa a um trabalho jornalístico sério.

Uma pena para ambos - o escritor e o biografado.

Colunista
Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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