Das duas, uma. Ou nenhuma, e vida que segue Literatura

A corrupção descarada dos políticos, além de esvaziar os cofres destinados a obras públicas e a atender serviços essenciais à educação e à saúde da população, é a principal responsável por males cardíacos dos cidadãos indignados, que acompanham o noticiário envolvendo os escândalos.

A conclusão foi extraída de palestras proferidas pelo cardiologista Cláudio Tinoco da Silva e pelo psiquiatra norte-americano Redford Williams, em recente congresso promovido pelo Hospital Pró-cardíaco no Rio de Janeiro.

Eles concordam que tão importante quanto controlar os níveis de gordura no sangue, é saber também controlar o estresse emocional, pois são insofismáveis as influências que o sistema nervoso exerce sobre o coração.

Mas como se consegue isso na prática? Como um cidadão razoavelmente informado sobre os acontecimentos recentes consegue se manter normal durante a leitura de jornal ou ao longo do noticiário de TV, com as denúncias, uma atrás da outra, de ladroagens de dinheiro público, e as explicações cínicas dos ladrões para se livrar das acusações óbvias, palpáveis, incontestáveis, clamando inocência com o testemunho de Deus?

A minha reação – e suspeito que seja a mesma de milhões de outros cidadãos honestos –, é de ira, inconformismo e de impotência diante do quadro de decadência moral e de falência da honestidade a que assistimos diariamente. Ira, inconformismo e impotência são sentimentos que quando penetram nos nossos cérebros, individualmente, agridem o sistema nervoso com a mesma potência que o golpe de um boxeador provoca na mandíbula do adversário.

Agora, imagine os três envolvidos em um só recipiente. Como conseqüência, o nível do batimento cardíaco se acelera ao dobro. E, aí, haja coração para suportar a aceleração.

O psiquiatra afirma que a fórmula para se livrar dos estresses em geral é primeiro identificar a situação que os acarreta e, em seguida, reagir a ela, anulando-a.

Bem, no caso da revolta contra a gatunagem política a coisa se aplica assim: na primeira hipótese, você vai até os corruptos (missão impossível: eu sei que são milhares), algeme-os e encaminhe todos a uma prisão de segurança extrema, no meio da selva amazônica, tranque-os em celas individuais, feche o portão principal da penitenciária, e jogue a chave num pântano de crocodilos. Esta é a minha fórmula, pois sou bastante condescendente com os gatunos, em relação a centenas de cidadãos que enviam seus comentários publicados ao pé das matérias sobre corrupção nos sites noticiosos. Os mais furiosos pregam fuzilamento sumário.

Segunda hipótese: ignore-os, evite todas as formas tomar conhecimento da existência deles. Nesse caso, só há um caminho a seguir: torne-se um ermitão, vá viver num local sem jornais, rádio, internet ou televisão, única forma possível de se distanciar das hipocrisias teatrais que se desenrolam nos ambientes de trabalho deles (congresso federal, assembléias estaduais, câmaras municipais). De quebra, sua vida não dependerá mais de projetos de lei ou medidas provisórias, geralmente para tomar-lhe mais dinheiro através de impostos e taxas, com altas percentagens destinadas ao bolso dos corruptos.

Como essa hipótese nem em sonho me passa pela cabeça, por absurdamente irreal, resta-me partir para a terceira e única alternativa: vida que segue, tendo sempre à mão o número do celular do meu cardiologista, enquanto compulsoriamente continuarei sendo submetido ao teste imposto pelo festival de hipocrisia que se desenrola em todos os níveis da política – da vereança à presidência da República.

Apesar de tudo, ainda tenho fé de que um dia os brasileiros aprenderão a votar – calculo que lá pelo fim do século 21, sem interrupção do processo democrático de eleições livres, batendo cabeça, errando, mas sempre acreditando que na próxima eleição tudo será diferente.

Infelizmente, nenhum de nós – o locutor que vos fala e os leitores que lêem estas mal traçadas – estaremos mais aí para conhecer a vida, vendo nossa cidade e o país sob a liderança de políticos responsáveis e competentes que cumprem o juramento de praxe nas solenidades de posse. Aí, serão todos felizes, e os índices dos males cardíacos terão desabados vertiginosamente.

A propósito, uma sugestão aos leitores que estejam dispostos a um teste cardíaco: dêem um pulinho até a Vara da Fazenda Pública Municipal e peçam para examinar o processo 014596010356-5, distribuído em 15 de março de 1996, até hoje por conta de despachos, pareceres, encaminhamentos, vistas e estas coisas todas que a Justiça faculta aos que desejam prolongar indefinidamente o veredito que se impõe ao caso. Foi quando tomei conhecimento do conteúdo dele é que comecei a planejar a penitenciária no interior da selva amazônica, descrita acima.

Colunista
Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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