A Música Colonial Brasileira Música

Neste mês teremos outro Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga em Juiz de Fora. O Festival já se configura uma tradição para Juiz de Fora e para o Brasil.

Graças a ele os públicos juizforano e brasileiro puderam ouvir e ver grandes nomes da música antiga e ter acesso a um repertório que pouco se ouve em nossas casas de espetáculo.

Como todos os eventos deste porte, o Festival tem seus altos e baixos. Já os houve com concertos memoráveis e outros com uma tendência à mediocridade. No balanço, porém, ficamos, enquanto público, na vantagem.

Desde que a Orquestra Barroca do Festival passou a ocupar-se do CD do mesmo e do concerto de abertura, vemos uma melhora significativa no trato da dita música colonial brasileira.

Os festivais anteriores a esta orquestra tinham como mérito resgatar esta música, porém a qualidade das execuções era tão desesperadora que dava uma má impressão da obra.

O cuidado mais profissional atual nos revela algumas pérolas descuidadas e ocultas. Pérolas brutas algumas vezes, mas pérolas.

A música colonial brasileira (sigo utilizando este termo na falta de algum conceito estético mais específico para esta obra) é uma dessas coisas brasileiras sui generis que segue alegrando e incomodando.

A redescoberta deste repertório já tão celebrado continua causando uma certa estranheza. Um pouco barroca, já quase clássica, mas não galante, o certo é que combina bem com a sociedade na qual foi produzida e da qual foi expressão, uma sociedade desigual, pretensamente européia, mas engolida pelo trópico e assimilada pelo africano.

Obediente à harmonia e ao discurso tradicional, no entanto rústica em certos momentos. Religiosa em sua quase totalidade, mas profana em sua expressividade. Melhor expressão do santa e pecadora. Outra vez, como a católica sociedade colonial.

Talvez precisássemos de interpretações mais coloniais brasileiras e menos européias. De que maneira isso? Talvez se buscassemos entender mais o universo do Brasil colônia em vez de querermos imitar as maneiras européias de execução desta mesma época, faríamos com que nossa música nos revelasse mais deste período, seus sentimentos e pensamentos.

Neste ano já temos anunciado a apresentação e gravação das aberturas do Pe. José Maurício Nunes Garcia. Como já bem ressaltou o diretor da Orquestra Barroca do Festival em recente entrevista para a imprensa local, o Pe. José Maurício foi profundamente influenciado pela música de seu contemporâneo europeu, Joseph Haydn, que será o contraponto europeu no concerto da orquestra.

Resta lembrar que Pe. José Maurício era negro em uma sociedade escravocrata, músico feito sem acesso às fontes tradicionais de Haydn, enfim, era brasileiro em um momento em que, graças a Napoleão, o Brasil tornou-se um lugar digno de se ir, depois da vinda da corte portuguesa.

Não esperemos de José Maurício o mesmo que se espera de Haydn. Sua qualidade não está em ser parecido, mas em ser diferente.

Bons concertos.

Colunista
João Sebastião Ribeiro é músico.
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