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| Pobre Rua Halfeld, vulgo Calçadão | Literatura | ![]() |
Volto a um tema, do qual jamais me afastarei, enquanto ele estiver ao alcance
do meu olhar - do meu e de toda a população de JF: a indesculpável, irracional
e absurda poluição visual da Rua Halfeld, vulgo Calçadão, provocada pelos letreiros
comerciais instalados por comerciantes sem caráter, pois desprovidos de um
mínimo espírito de coletividade e de respeito ao próximo.
Sou nascido em Juiz de Fora, mais precisamente numa casa na Avenida dos Andradas, quase em frente à Igreja de São Roque, onde hoje há um hotel. Portanto, sou membro nato de uma lenda chamada Turma do São Roque, sobre a qual, escrevi um livro, em parceria com Maurício Gama, intitulado "O Espírito do São Roque".
Quando criança, ir à Rua Halfeld, pelas mãos de meus pais, significava vestir a melhor roupa para um dia de festa, pois o destino seria ou uma matinê nos cinemas Central, Pálace ou Glória, ou um lanche nas Lojas Americanas ou, melhor ainda, as duas coisas. Fazia parte, também, da festa, admirar as vitrines elegantes das lojas comerciais, e as das multicoloridas bomboniéres que davam água na boca só de olhar o seu interior: Kopenhagen e Casa Suissa (assim mesmo, com dois esses).
Mais crescido, fazia ponto no Bar e Café Salvaterra, em estilo parisiense, esquina da Praça João Pessoa (em frente ao Central), referência para outra turma de jovens, e posto de observação privilegiado sobre o movimento que se desenrolava na rua - tantos dos transeuntes quanto dos carrões que desciam. Nos domingos à noite era o sobe e desce dos footings - uma diversão em forma de passeio, cujo pretexto maior era flertar e arranjar namorada(o).
Meu primeiro emprego foi no semanário Binômio, de cuja redação, no 5º andar do Edifício do Clube Juiz de Fora, admirava o movimento da Halfeld, do início, aos pés do Morro do Cristo, ao fim, na Praça da Estação.
Lembro-me da Halfeld como palco de grandes concentrações e acontecimentos, como nos dias de carnaval, quando milhares de pessoas se espremiam no trecho compreendido entre a Rio Branco e a Batista de Oliveira, para desfilar seus blocos, fantasias e alegrias ou admirá-los e aplaudi-los.
Eu me lembro... e felizes recordações dos bons tempos da Halfeld é que não faltam. Algumas me serviram, como escritor, ao desenrolar de episódios, em dois livros: "A noite em que Jane Russell morreu" (Record/1990) e "Uma noite no Raffa's" (Templo Editora/2003).
Destaco um trecho no primeiro livro, para descrever a Halfeld dos anos 60:
"Era esse o clima no primeiro domingo de agosto deste ano de 1961 e, apesar do frio dos diabos e da chuva enjoada que despencava do céu cinza-chumbo, havia na rua principal um movimento que não se via desde o início das férias de julho. Contrastando com o cenário nevoento, destacava-se um colorido elegante e alegre nas pessoas, protegidas por agasalhos e capas de chuva, se esbarrando sob as marquises. Os carros circulavam com os faróis acesos, embora ainda não fossem quatro horas da tarde. O reflexo das lanternas riscando o asfalto molhado misturava-se ao dos letreiros néon das lojas comerciais. Se há uma coisa bonita em dia de chuva é esse efeito de cores no espelho em que se transforma o asfalto. Eu pelo menos acho."
Volto à realidade dos dias atuais, e lanço um desafio literário aos leitores: ganha um doce quem conseguir descrever um clima romântico na Halfeld atual, vulgo Calçadão, com o mesmo charme do trecho acima, modéstia à parte...
Penso ser uma missão impossível, por mais criativo que o autor seja, encontrar palavras suaves e poéticas na composição do panorama, sem citar os horrendos globos que fornecem a iluminação noturna, imundos e irregulares, suas hastes descascadas e enferrujadas, misturados aos agressivos letreiros comerciais se encavalando uns sobre os outros, em espaços além do permitido por lei, compondo um cenário de uma feiúra extrema.
Odeio-os, e me aflora esse sentimento cáustico cada vez que subo a Halfeld, e
observo que a antiga sede da Prefeitura, na esquina da Rio Branco, ou mais
além, o Morro do Cristo, estão ocultos por gigantescos letreiros comerciais de
duas lojas, na área próxima do Edifício do Clube Juiz de Fora, que avançam no
sentido horizontal pelo Calçadão.
A indignação jamais se calará em mim, mesmo sob a pecha de repetitivo. Esta deve ser a décima vez que abordo o tema, seja em artigos ou em palestras que vez ou outra faço em colégios, ou em roda de amigos. É possível que algum leitor já tenha se familiarizado até com o próprio título desta crônica, "Pobre Rua Halfeld, vulgo Calçadão", utilizado em outra ocasião. Se novamente lanço mão dele, é porque resume bem minhas idéias sobre o tema.
Assim sendo, volto a indagar: como é que as autoridades (ir)responsáveis pelos órgãos da prefeitura, pagas com o meu, o seu, o nosso dinheiro para fiscalizar e impedir o absurdo, deixaram que o panorama da outrora nobre Rua Halfeld fosse tão violentado. Afinal, o atentado é cometido contra um dos símbolos mais sagrados da História da cidade, assim como o Morro do Cristo, o Rio Paraibuna ou o Museu Mariano Procópio.
Já estou saturado de ouvi-los falar que o "novo Código de Posturas vai resolver o problema..."
A ladainha data do século passado (dá bem a extensão do tempo), e é entoada por um coral desafinado, cada grupo num tom de voz mais tímido que o outro, composto pelos (ir)responsáveis servidores municipais, tendo como segunda voz os representantes do Clube dos Diretores Lojistas, da Associação Comercial e do Sindicato do Comércio Varejista.
A eles, pela incompetência, irresponsabilidade ou omissão no enfrentamento do problema, o meu desprezo.
Aos lojistas conscientes das irregularidades, o que os torna ainda mais culpados pelo festival de horrores, o meu boicote às suas mercadorias, a única arma que disponho para externar a minha reação, além das palavras, é claro.
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Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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