Um pouco de jazz Música

Neste mês de agosto houve mais uma edição do Festival de Jazz do Pró-Música com muitos bons espetáculos. Casa cheia quase todos os dias e platéia interessada e entusiasmada. Além da orquestra de Jazz do Pró-Música, algumas estrelas ajudaram a brilhar o festival, como a presença de Leila Pinheiro, que realmente é uma diva em seu gênero.

A mim, me sobra a pergunta, o que é jazz hoje? O termo virou uma daquelas palavras guarda-chuva da música. Quando a gente não sabe como categorizar algo, diz que é "meio jazzístico" e tudo bem. Brasileiros em especial, têm uma tendência ao "meio qualquer coisa" e assim leva-se a música. Não que isso seja um problema, mas que é preciso separa o joio do trigo, isso é inegável.

Conheci pouca coisa de jazz efetivamente neste Brasil, que tende, em geral, a chamar qualquer improvisação de jazz, deixando o público, outra vez com uma falsa impressão do que é isso. Neste caso, palmas para o Festival de Jazz de Ibitipoca (não sei qual seu nome oficial, mas o leitor saberá do que se trata). Os nomes e os resultados musicais do Festival mostram um grupo excelente que faz jus ao nome que tem.

Entre eles, gostaria de citar dois em particular, que partilham o mesmo prenome. Dudu Lima e Dudu Viana. O primeiro, contrabaixista, o segundo pianista. Ouço suas músicas há algum tempo e a cada nova ocasião me admiro mais. Em ambos mais maturidade composicional e improvisativa; mais identidade, sem perder com isso a criatividade. Uma certa inocência melódica que por isso mesmo ousada e surpreendente.

Um dia após o Festival de Jazz do Pró-Música, um outro concerto muitíssimo interessante por sua proposta passou quase desapercebido, dado a pouca presença de público. A Camerata Jovem do Pró-Música tocou com Dudu Viana um de suas composições e também executou com um violonista alemão de nome impronunciável, Jürgen Schwenkglenks, as "Quatro Estações Portenhas" de Piazzolla.

A música de Dudu Viana é de uma graça romântica que há muito não se vê. Isso porém não a torna fraca ou aborrecida, mas extremamente apreciável. Não sei se o compositor têm outras obras para orquestra e piano. Se as tem, deve executá-las mais, se não as tem deve compor com mais freqüência para esta formação.

Piazzolla, bom sobre este não há o que dizer com relação à sua obra. É genial. E a orquestra, ainda que um pouco tímida a princípio, soube destacar o fundamental destas quatro estações. O uso de poesia entremeando cada estação deu um vigor interpretativo que ajudou a construir o quadro simbólico das estações. Bonita realização de um grupo bastante jovem, mas que soube mostrar ousadia e preocupação com uma verdadeira interpretação. Não nos passou desapercebida a ausência de vibratos na quase totalidade do trato orquestral.

Isso por vezes escapou em deslizes de afinação, mas ao mesmo tempo deu uma imensa clareza harmônica para a peça. Ali ninguém era estrela, talvez por isso pouco público, mas muito mais agradável o concerto que muitos do Festival que o antecedeu. E sem o inconveniente de nos fazer madrugar para ter um ingresso.

Aos Dudus, Lima e Viana, sigam com sua música, e nos presenteiem com algo para uma boa Big Band, que mostre um jazz de verdade.

Bons concertos.

Colunista
João Sebastião Ribeiro é músico.
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