Varanda indiscreta Literatura

Um dos melhores exemplares da filmografia de suspense de Alfred Hitchcock é "Janela indiscreta", de 1954, com James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey e Raymond Burr. Sinopse: um fotógrafo confinado a uma cadeira de rodas, com a perna fraturada imobilizada por gesso, passa o tempo observando o movimento na vizinhança, no Greenwich Village (NY), a olho nu ou pelas lentes de sua teleobjetiva.

Certo dia, sua atenção se detém em uma movimentação estranha num apartamento em frente, e conclui que houve ali um assassinato. Mas a namorada, o amigo policial ou a enfermeira descrêem dele e atribuem suas conclusões ao efeito dos remédios e à monotonia da inatividade que o faz "ver coisas". Interpretam as cenas como naturais e não seqüências de um crime. Mas ele insiste e ao fim da história, após muitos sustos, provará que tinha razão. Hitchcock traz o espectador a ser cúmplice no voyeurismo do protagonista e dessa maneira prende a atenção do início ao fim do filme.

Por uma incrível coincidência, devo dizer que estou qual James Stewart em "Janela indiscreta", e que vivi situação semelhante recentemente. O lado esquerdo do meu corpo está imobilizado por duas fraturas - uma na perna e outra na clavícula, adquiridas um acidente doméstico bobo, nos jardins da casa de uma amiga. Numa fração de segundos, o mundo escapou de meus pés, e uma hora depois, radiografado da cabeça aos pés, fiquei sabendo da gravidade da coisa no hospital. A sentença: por seis semanas, estarei confinado em meu apartamento, no 9º andar, com vista aberta para um amplo panorama da cidade, onde se destaca um longo trecho da avenida Independência, próximo da Rio Branco.

Dividido entre dois sentimentos antagônicos, de inconformação (oh, Deus, por que essa provação?) e de resignação (ok, já que é inevitável, relaxe e aproveite...), deixo a vida me levar diante da leitura de livros, da televisão, em tempo quase integral, devidamente municiado de filmes em DVD ("Janela indiscreta" é um deles), e do computador.

Madrugada dessas, por volta das cinco e pouco, quando a onda de calor atingiu os limites do suportável, mergulhado numa insônia terrível, fui em busca de ar fresco na minha pequena varanda, arrastando-me na cadeira que me serve à mesa de trabalho e que desliza sobre quatro rodinhas, dentro de casa, com mais desembaraço do que a hospitalar. Com o pé são dá para controlá-la na direção desejada, com a desenvoltura que fui adquirindo dia após dia.

Pus-me a meditar como a cidade vazia chega a ser bonita e romântica, sob uma lua cheia esplendorosa, sem correrias de pessoas e dos irritantes roncos, buzinadas e freadas dos veículos. Ah, se fosse sempre assim! A vida de seus habitantes se prolongaria muito além dos anos projetados pelos cientistas que estudam as neuroses urbanas e os efeitos delas sobre a saúde mental e física.

Súbito, os devaneios foram interrompidos pelo ruído de um carro avançando em alta velocidade, no sentido da Rio Branco em direção à praça Antônio Carlos, e freou bruscamente diante de meu posto de observação.

A porta do carona se abriu, uma mulher desceu, como se escapasse de algo, e se postou no passeio com as mãos escondendo o rosto, clamando num tom que atingiu claramente os meus ouvidos, e creio os de quem estivesse, como eu, presenciando a cena inesperada a uns cem metros de distância: "Não! Não! Você não vai fazer isso!" Ela andava três passos de um lado ao outro, sem se afastar, enquanto o carro permanecia parado, motor funcionando, os faróis acesos.

De dentro, alguém, voz de homem, provavelmente o motorista, disse qualquer coisa, que não deu para registrar, exceto o tom ríspido de uma ordem. Ela respondeu com a voz alterada pelo choro convulsivo: "Não! Eu não vou deixar você fazer isso!" A frase ficou no ar por uns segundos, até que a porta do carona se fechou, acionada por dentro, e o carro saiu em disparada, rangendo os pneus. Sempre com o rosto e o pranto escondidos entre as mãos, a mulher sentou-se no pequeno espaço da mureta de sustentação de um gradil de ferro, e assim permaneceu imóvel.

O único movimento no cenário era o dos insetos que rodeavam a luminária do poste sobre ela. Corri os olhos pela fachada do meu prédio e de outros dois próximos, à espera de alguma luz que se acendesse e revelasse outros espectadores despertados pela rumorosa encenação. Nada. Éramos somente eu, o luar e os insetos por testemunhas.

Meu coração dobrou a aceleração diante da certeza de estar diante de algo prenunciando tragédia. O celular, onde está meu celular? E o binóculo para aproximar-me mais dos personagens daquela trama frenética? Seria bom tê-los à mão para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Dirigi-me ao interior do apartamento, em busca do aparelho que ficara na mesinha de cabeceira.

O trecho entre a varanda e o quarto, que normalmente eu cobriria sobre duas pernas sãs em quinze segundos, levou longos dois a três minutos, arrastando a cadeira impulsionada pelo pé. No meio do caminho, me apoderei do velho binóculo, presente de meu avô, que guardo desde os doze anos, com pouca utilidade, exceto a bisbilhotice indiscreta de adolescente dirigida a janelas com silhuetas femininas. Pela primeira vez, eu o empunhava como um instrumento de grande valia, assim como um almirante na proa do navio descortinando o horizonte pesado de neblina.

Retornei ofegante ao posto de observação. Ajustei o foco do binóculo e detalhei a figura: trajava calça jeans e uma blusa vermelha; os cabelos eram pretos, lisos, compridos, desalinhados sobre os ombros; calçava tênis no mesmo tom da blusa. Qualquer idade entre 20 e 30 anos - arrisquei coluna do meio: 25.

No jargão de roteirista, a cena ficou congelada por uns cinco minutos, diante de minha aflição em tentar adivinhar a seqüência do enredo. Decidido a ficar ali até o desfecho, percebi a imprudência de ter deixado a luz da varanda acesa e quase fui ao chão ao virar o corpo bruscamente na direção do interruptor, atrás de mim, de modo a permanecer testemunha oculta pela escuridão, e não despertar suspeitas. Ocorreu a paranóia de que a qualquer momento a campainha da porta iria soar. Um calafrio de medo percorreu-me a espinha.

Então, a mulher ergueu-se numa postura mais disposta. Com os dedos, ajeitou os cabelos e limpou a face. Pela primeira vez deu para ver sua expressão, bastante agradável, embora fechada, angustiada. Reafirmei o palpite dos 25 anos. Procurou nos bolsos por algo que não encontrou e repetiu a operação com gestos mais nervosos.

Foi quando o carro que a deixara ali, uns 15 minutos antes, retornou, velozmente, e freou diante dela. Desceram o motorista e mais um homem. Rapidamente a envolveram, impedindo-a de escapar, usando a força, enquanto ela se debatia, e gritava: "Me soltem, seus filhos da p...! Eu vou revelar tudo! Vocês estão f...!" Ignorando as ameaças, eles a jogaram dentro do carro, as portas se fecharam e logo o cenário se tornara novamente deserto e silencioso. O único movimento continuava sendo o dos insetos rodeando a luz do poste. Muito além, os primeiros sinais da aurora se anunciavam avermelhados por trás das montanhas.

O que fazer? Ligar para a polícia para relatar uma cena de violência, que configurara um rapto? Bem, isso vai significar policiais entrando e saindo de meu apartamento ao longo dia. Os vizinhos haverão de pensar o que? Uma das hipóteses que martelavam minhas células cinzentas (como dizia o esperto detetive Hercule Poirot), dizia que tudo pode ter sido motivado por briga entre namorados (namorados apaixonados e ciumentos são capazes de tudo...). Optei por manter a incolumidade de meu refúgio solitário, decidido a esperar pelo noticiário dos próximos dias. Caso tomasse conhecimento de alguma notícia que pudesse ter ligação com o que testemunhei, aí sim, procuraria a polícia.

Permaneci aturdido fazendo um retrospecto dos acontecimentos, enquanto presenciava uma outra cena, bem mais poética e agradável que era o nascer do sol. Lá embaixo, tinha início a rotina de mais um dia: os ônibus começavam a circular, assim como carros e pessoas e ruídos. Era a vida seguindo em frente.

Quatro dias se passaram, e nenhuma notícia nos jornais ou na TV deu conta de algum fato que se ligasse ao que presenciei. Dessa forma, peço desculpa aos leitores que chegaram até aqui para se deparar com um desfecho decepcionante, comparado ao do filme "Janela indiscreta".

Se ao fim de tudo, não receberei como James Stewart, as homenagens de um herói, com direito a manchete nos jornais, pelo menos o que descrevi acima serviu-me para quebrar a rotina dos dias e noites intermináveis, enquanto aguardo ansioso retornar à rotina dos ruídos lá embaixo.

Colunista
Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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