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Depois de alguns dias fora da cidade, retorno exatamente na véspera do feriado longo
do dia 12 de outubro já imaginando não ter nada musicalmente interessante na cidade.
Por obrigação de ofício vou verificar o jornal e me deparo com uma matéria surpreendente:
a chamada para a abertura de uma exposição de desenhos produzidos por crianças que
foram prisioneiras de um Campo de Concentração nazista. Desenhos estes que
sobreviveram ao fim do campo e do nazismo. Sorte que não teve a maioria das
crianças que os produziu, em sua maioria, mortos em uma câmara de gás e
posteriormente incinerados nos crematórios.
Bastava isso para me levar à abertura da exposição. Como se produziu arte em meio a morte? Como expor obras de arte resultantes de tamanha barbárie? Como me sentir frente a desenhos infantis que já vislumbram a morte?
Fui ver e minhas surpresas foram muitas e impressionantes.
Na véspera do dia das crianças, quando todos estão comprando presentinhos para os pupilos, pude ver o que pode a força do espírito humano quando o corpo já se sabe condenado à morte. A força de um espírito infantil, inocente, mas não alheio a seu mundo. Vi obras de arte de crianças, mas não por essa razão traços inábeis. Ao contrário, traços que mostram uma força vital que nos diz contra toda forma de violência. Antítese de "tropas de elite", esses desenhos mostram forças humanas e humanizadoras. Vida em meio a morte. Coisa rara de se ver hoje no Brasil paradisíaco.
Mais surpresas. Os que foram puderam assistir a um filme produzido pelos nazistas mostrando a vida no campo de Terezin, na República Tcheca. A ilusão das ilusões. O documentário traz o maldito nome de "o Führer doa uma cidade aos judeus", e tenta criar a ilusão de como era bondoso Hitler ao permitir que os judeus pudessem ter uma cidade deles mesmo, onde viviam felizes, brincando, trabalhando, praticando esportes e cultivando as artes. Cortina de fumaça para que não se visse a fumaça saindo dos fornos de Auschwitz. Nesse ambiente cinematográfico vidas humanas não valiam nada, mas mesmo assim deixaram sua mensagem para o mundo com toda a arte que produziram: desenhos (expostos aqui na cidade de Juiz de Fora!!!), teatro, música.
Sim, música!!! No campo de Terezin houve uma intensa vida musical, graças à
quantidade e qualidade dos músicos que lá foram prisioneiros. Canções,
sinfonias e até óperas foram lá produzidas e encenadas. Outra vez dizendo:
podem matar nosso corpo, mas o espírito segue vivo. Isso é humanidade, em
oposição à barbárie nazista.
E outras surpresas. Na abertura da exposição um quinteto de metais do Exército Brasileiro executando peças de compositores banidos pelo regime nazista. Pequena a apresentação, mas linda e impressionante. Parabéns músicos. Que bonita a versão para quinteto do Blues da ópera Johnny spielt auf de Krenek. Outra vez, parabéns músicos e parabéns Exército por permitir que ainda se cultive coisas assim!!
E mais uma surpresa, o Colégio Militar de Juiz de Fora prepara a montagem de uma ópera infantil chamada Brundibár, que foi encenada nada menos que 52 vezes pelas crianças que eram prisioneiras do campo de Terezin. Sim, aqui em Juiz de Fora, em fins de novembro!
Que o público na ópera seja maior que o da abertura da exposição. Que a humanidade fale mais alto que violência e que seja uma verdadeira "tropa de elite" contra os preconceitos e brutalidades de nosso tempo.
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