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(...) de jornalista, roteirista e escritor
Estou às voltas com o meu décimo livro. É um número que merece comemoração
particular, e ao mesmo tempo espantoso, quando me projeto ao passado e verifico
que somente aos 42 anos de idade é que me aventurei na literatura, depois de
ralar como jornalista, por mais de 20 anos.
Minha tarefa pelos jornais por onde passei (Jornal do Brasil, 18 anos, O Globo, cinco anos, O Dia, cinco anos e Extra, dois anos) era relacionada à feitura da edição diária. Eu fazia parte da equipe encarregada de arrumar o material noticioso e ilustrativo nas páginas do jornal de forma adequada à sua importância e atraente aos olhos do leitor. Meu aprendizado teve início como repórter e fotógrafo, ao mesmo tempo.
Depois, fui promovido a copydesk (mais tarde, aportuguesado para copidesque), o redator encarregado de ler e fazer os títulos das notícias e reportagens e legendas das fotos, além das chamadas de primeira página. Estou falando de um período pré-informática, quando os instrumentos de trabalho eram as máquinas de datilografia, as canetas Bic e as laudas, nas quais os textos eram redigidos, obedecendo um rigoroso padrão de número de linhas e de batidas (ou toques). E mais os diagramas, onde se desenhavam as páginas, distribuindo pelos espaços os títulos, textos, fotos, legendas, etc - de forma harmoniosa.
Um dia, descobri a minha verdadeira vocação na mesa da diagramação, a última etapa na redação, antes de o material de redação seguir para a oficina gráfica, a indústria pesada encarregada de fabricar o jornal em máquinas denominadas linotipo, calandra, prelo, e outras mais, até a impressão em gigantescas rotativas.
Assim, como repórter, fotógrafo, redator e diagramador, fui conhecendo todas as etapas na feitura de jornal - da pauta, ao alvorecer, ao fim da noite, no fechamento das últimas páginas, quando o alerta do secretário de redação ecoava, ameaçador, alertando para o rigoroso fluxo industrial: "Olha a hora!" - expressão que, invariavelmente, por várias vezes era, e ainda é, repetida todas as noites, pelas redações dos jornais.
Um dia, dei um chute pro alto na minha carreira como jornalista, 20 anos depois do início. Trabalhava no respeitado JB, que dava início a grandes mudanças, motivadas por uma crise financeira e institucional que iria se agravar até o final dos 90, culminando com a venda da empresa para o grupo que hoje a dirige.
Certo dia, ao chegar para trabalhar, em dezembro de 1982, fui surpreendido por um comentário despropositado, puro exibicionismo do novo secretário de redação, que acabara de assumir no roldão das mudanças. A crítica se relacionava a um corriqueiro jogo de fotos em uma página editada por mim. Com efeito, eu procurava uma motivação para reunir coragem e partir para outros rumos, além da redação. E aquele "pito" fora apenas a gota d'água num tonel de impaciências acumuladas e de planos adiados. Há muito eu ansiava realizar algo diferente, além das páginas rotineiras do Caderno B ou as da editoria de esportes, os dois setores a que mais me dediquei em minha carreira no velho e bom JB.
Minha decisão foi classificada por amigos e parentes como irrefletida, reação de um momento de revolta passageira. É que todos consideravam o JB como parte de minha natureza, do qual jamais me livraria, até o final dos tempos.
Fazer exatamente o quê? Trabalhar onde? - eram perguntas preocupantes cujas respostas adiava para o dia seguinte, após me livrar dos grilhões que me prenderam por décadas ao jornal. Foi um processo demorado: do pedido de demissão até a efetivação, passaram-se dois meses, afastado da redação, durante os quais me mantive irredutível diante dos conselhos dos companheiros do jornal - exceto, é claro, do novo secretário.
Fato consumado, finalmente, caí na real, sem saber exatamente o rumo a seguir. Trabalhar em outro jornal, estava descartado. Fatalmente, me depararia com outro editor, "inventor" do jornalismo moderno, como o novo secretário do JB se considerava.
Passados uns três meses da nova vida, o dia inteiro em casa, vendo televisão, lendo livros e jornais, perdido quanto ao futuro, soube que o dramaturgo Bráulio Pedroso, respeitado autor de peças de teatro e de novelas, iria dar um curso sobre como escrever para TV. Soou o gongo que despertou um sentido em meu inconsciente, que à luz da razão eu desconhecia. Corri a tempo de ser o último inscrito em uma turma de vinte e poucos permitidos. De posse das informações técnicas, adquiridas nas primeiras aulas, arrisquei um exercício, e escrevi uma mini-novela, encaixada no formato de cinco capítulos, cada qual com três partes, para um horário denominado Caso Verdade, da TV Globo, de segunda à sexta-feira. A proposta do programa era dramatizar casos da vida real. Mas, desde que o enredo passasse como verdade, era aprovado pela direção. A minha era uma história natalina, pura ficção, que denominei "Feliz Natal, Papai Noel", que foi ao ar como Caso Verdade Especial, em dezembro de 1983.
Aprovado como roteirista de teledramaturgia, nos dois anos seguintes escrevi mais cinco roteiros - três baseados em fatos reais, e duas ficções. Até que o Caso Verdade saiu do ar, e toda a direção do núcleo foi dispensada por obra de mudanças radicais pelas quais passava a Globo. Como era prestador de serviço, só comparecia à emissora para entregar os roteiros e assinar recibos. Dessa forma, por um retraimento pessoal, pouco contato tive com as patotas, como eram denominados os grupos que disputavam o poder nas áreas da dramaturgia: novelas, casos especiais e minisséries. Procurei, então, saber como e a quem deveria continuar encaminhando idéias e projetos, e cai numa malha burocrática de desanimar.
Desiludido quando ao futuro na Globo, fui para O Globo, aceitando uma proposta feita pessoalmente pelo todo-poderoso Evandro Carlos de Andrade, editor-chefe do jornal, conhecedor de meu passado no JB e dos trabalhos para televisão. Voltei a ser jornalista, mas profundamente frustrado pela interrupção da curta carreira como roteirista, movido pela necessidade de sobrevivência.
Bem, foi aí que nasceu o escritor. Com a experiência de roteirista de TV, decidi arriscar a literatura, narrar histórias com uma linguagem atraente e dinâmica, sobretudo compreensiva e elegante, sem concessões a vulgarismos e vulgaridades. Quem quiser entender como se desenvolvem esses atributos através da escrita, recomendo a leitura de obras dos escritores Graciliano Ramos, J. D. Salinger Fernando Sabino, Fiodor Dostoivesky e Machado de Assis. Cito-os como os meus mestres da técnica de escrever, modelos de perfeição, cada qual em seu estilo. Bebi na fonte de sabedoria de cada um deles as doses necessárias para adquirir coragem, um dia, e começar a construir minha modesta obra - nove livros, cinco romances de ficção e quatro memorialistas, em que as linguagens jornalística e literária se combinam para relatar histórias reais, todas elas tendo Juiz de Fora como cenário.
E aqui retorno, finalmente, ao início desta crônica/memória quando falo de uma comemoração particular sobre o meu décimo livro, em fase de acabamento, revisão e edição.
Título: "A dura vida de colunista".
Sub-título: "A trajetória profissional de Cesar Romero: de adolescente, à frente da Gazeta Jovem, ao mais influente colunista na história da Imprensa de Juiz de Fora ".
O primeiro capítulo começa assim:
"As chuvas de verão que desabaram em janeiro de 1966, foram implacáveis.
Tempestades castigavam a cidade por dias seguidos e as conseqüências se espalhavam
por todos os bairros. Ruas enlameadas, desabamento de casas na periferia, famílias
desabrigadas e tudo o mais recomendavam alerta máximo na Prefeitura Municipal,
sob o comando de Ademar Resende de Andrade e do Corpo de Bombeiros.
"Como
toda a população, o pequeno Cesar Romero Geovanini Corrêa, 10 anos, observava
assustado a movimentação nervosa dentro de casa e entre os vizinhos, causada
por notícias que chegavam pelo rádio em sua casa, na Rua Sady Carnot 92, bairro
Bom Pastor (...)"
E, 210 páginas depois, a narrativa se encerra assim:
"João [de Mattos Neto] lembra os momentos naturalmente aflitos que precederam a última Feijoada: a noite de sexta-feira para sábado não foi bem dormida. Só conseguiu assumir efetivamente o espaço [refere-se ao La Rocca] às seis horas da manhã, com operário ainda fazendo os últimos ajustes.
"Mas, ao fim da festa, a certeza do dever cumprido foi comemorada num abraço emocionado com o anfitrião [Cesar Romero], quando ambos já começaram a pensar na próxima: a Feijoada 2008."
Entre os dois trechos há informações sobre a carreira profissional do colunista da Tribuna de Minas, a história de JF, registrada nos últimos 30 anos, resumidamente, ano a ano, em suas colunas diárias, e cerca de 150 fotografias que as ilustram.
A festa de lançamento do livro será somente no início de março de 2008. Mas hoje a comemoração, que deu origem a esta crônica, é somente minha, com a compreensão dos leitores que chegaram até aqui.
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Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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