Lições do mestre Stravinsky Música

Desenho enviado pelo colunista ou nem tudo que revoluciona é, por desejo, revolucionário

Igor Stravinsky, foi sem dúvida um dos compositores mais significativos do século XX. Nasceu em junho de 1882 na Rússia. Todavia, logo se universalizou, indo para a Suíça, depois naturalizando-se francês e, posteriormente, adotando a nacionalidade Norte Americana, onde morreu em 6 de abril de 1971, no entanto, teve como túmulo a cidade de Veneza na Itália.

As mais significativas obras de sua produção, principalmente para o Balé, Fogos de Artifício, Pássaro de Fogo, Petrushka, e Sagração da Primavera, foram compostas entre os anos de 1908 até 1919 e concedem a Stravinsky um lugar definitivo na música para Balé no século XX. Todos esses balés foram escritos para a Cia. de Balés Russos de Diaghilev, que tinha como solista ninguém menos que Nijinsky. Foi o momento de reconhecimento de Stravinsky no meio musical.

Aqui já se vê uma grande novidade para a música, que marcará a obra deste mestre e o século XX. Alto uso de dissonâncias, com muitos temas retirados da música folclórica russa, variado uso de percussão e até mesmo de elementos percussivos em todos instrumentos. Tonalmente ele usa praticamente material diatônico, inclusive valendo-se da modalidade e o uso contínuo do ostinato. Explora a virtuosidade de toda a orquestra, não se fixando apenas nas cordas.

Stravinsky refutou durante toda sua vida o rótulo a ele atribuído de revolucionário e sempre apelou para a ordem e a disciplina quando se tratava de poética musical. Sustentava que o dogma(tismo) não é em si um mal, mas que trata-se de um elemento essencial para salvaguardar a integridade da arte e do espírito. Apesar de toda a confusão causada pela sua principal obra, Sagração da Primavera, Stravinsky insiste em que não pretendeu ser revolucionário pois, segundo o mesmo: "A arte é, por essência, construtiva. Revolução implica ruptura de equilíbrio. Falar de revolução é falar de um caos temporário. Ora, a arte é o contrário do caos. Ela nunca se rende ao caos sem ver imediatamente ameaçadas suas obras vivas, sua própria existência" (na p.21 de sua obra Poética Musical).

Assim, para Stravinsky, ser original não significa ser revolucionário, como as vanguardas de sua época sustentavam. Fazer arte para Stravinsky é trabalhar metodologicamente com a obra, seja pelo aprendizado, seja pela inventividade. Os métodos nada mais são que canais eficazes que garantem o sucesso desse trabalho.

Sua concepção de composição musical reafirma a aceitação de uma tradição e coloca a idéia de que inspiração nada mais é que um segundo momento da criação artística, quando já se sabe e já se tem o material a ser trabalhado, uma vez que a ausência de uma delimitação de um material levaria a impossibilidade da criação artística. Em outras palavras, ao contrário do que se pensa, não se cria dentro de uma liberdade total, mas dentro de limites colocados pela tradição e pela disciplina do artista. Diz Stravinsky: "minha liberdade, portanto, consiste em mover-me dentro da estreita moldura que estabeleci para mim mesmo em cada um de meus empreendimentos." (p. 64)

Stravinsky foi sempre veemente na crítica a idéia de que moderno é o que rompe, o que tem a obrigação de ser novo, e mais, a de que os artistas modernos têm a obrigação de causar o estranhamento em seu público. Nas palavras do compositor: "O capricho individual e a anarquia intelectual, que tendem a controlar o mundo em que vivemos, isolam o artista de seus companheiros de ofício e o condenam a aparecer como um monstro aos olhos do público; um monstro de originalidade, inventor de sua própria linguagem, de seu próprio vocabulário, do instrumental de sua arte. O uso de materiais já utilizados e de formas estabelecidas lhe é, em geral, proibido. E assim ele chega ao ponto de falar um idioma sem relação com o mundo que irá ouvi-lo. Sua arte torna-se realmente única, no sentido em que é incomunicável, fechada por todos os lados." (p. 72)

Não sei por que lembrei-me do Stravinsky nestes dias. Talvez tenhamos algo a refletir sobre as revoluções e os revolucionários. Ou, no mínimo, que estas poucas palavras ajudem os leitores a ouvir e entender melhor um dos maiores gênios musicais do século XX, que a despeito de ter dado novos rumos ao fazer musical, fugiu a toda classificação de revolucionário.

Colunista
João Sebastião Ribeiro é músico.
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