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| Uma fórmula para ativar o relógio | Literatura | ![]() |
da antiga sede da Prefeitura
O ideograma chinês para "crise" é também empregado para expressar "criatividade". A mente do leitor o
interpreta de acordo com a frase em que se encontra inserido. Assim, para os chineses, os dois conceitos
são unidos como gêmeos siameses.
Aprendi a lição num seminário sobre jornalismo impresso, em Porto Alegre, no início dos anos 90. Um espanhol, mestre em Comunicação, da Universidade de Navarra (Barcelona), de grande influência no redesenho dos diários na Era das cores, abordava os desafios que as empresas jornalísticas estavam enfrentando diante da diversificação dos meios eletrônicos. A dos jornais diários se refletia no número decrescente de leitores no mundo inteiro. Por aqueles tempos, a Internet apenas engatinhava, mas os futurólogos já a projetavam como uma máquina poderosa que iria obrigar uma reciclagem na edição e industrialização dos jornais.
De volta à redação do jornal O Dia, onde eu exercia a função de editor de Arte, transmiti aos colegas as idéias expostas nas palestras e debates, com ênfase maior ao ideograma chinês. Em última análise, tudo se resumia na identidade entre as duas palavras, que deveriam estimular as células cinzentas de nossos cérebros a serem mais ativas nas descobertas de soluções além das óbvias.
Passei a rabiscá-las assim em meu bloco de notas: crise > criatividade. Quem souber interpretar a equação haverá de ultrapassar os obstáculos que a primeira palavrinha encerra, seguida das mais variadas adjetivações: crise econômica, crise política, crise financeira, crise moral, crise de caráter, crise de identidade, etc.
Longe de mim que esta introdução seja entendida como mais uma lição de auto-ajuda. Desconfio muito desse tipo de literatura e dos ensinamentos de "doutores" que através de frases de efeito e chavões, pretendem orientar os pobres mortais no uso da força interior para derrubar barreiras e tome blá-blá-blá. Está tudo registrado lá no último livro desses "mestres", que pode ser pago com cartões de crédito em três parcelinhas...
O tema crise > criatividade veio à tona durante uma roda de bate-papo na esquina da Halfeld com Rio
Branco, dia desses. Um amigo deteve o olhar no relógio da Prefeitura, os ponteiros indicando 2h50, e
comentou em tom de piada sobre o distanciamento com a hora real - já anoitecia. O fato despertou no
grupo um sentimento de nostalgia dos tempos em que o relógio era, sobretudo, um eficiente prestador de
serviço, num ponto nevrálgico do Centro, além de servir como bela peça de decoração, na torre do prédio
construído para abrigar as "repartições municipaes", em MCMXVII (1917), como está gravado no alto de uma
de suas janelas.
(Num flash-back, projeto a imagem de meu pai, lá pelos anos 50, à espera do bonde, conferindo a hora de seu relógio de bolso extraído do colete, com a assinalada no relógio da Prefeitura - um gesto comum a todos os cidadãos que transitavam pelo Centro).
Há anos, o velho relógio está dispensado de sua função primordial: informar a hora. Deixaram que ele se aposentasse por falta de condições físicas, peças gastas pelo tempo, enferrujadas, assim como a artrose, a artrite, a arteriosclerose impedem os mais idosos de movimentos primários, como caminhar ou sustentar volumes com as mãos.
Nas últimas seis administrações, sob a batuta de Tarcísio, Bejani, Custódio, Tarcísio, Tarcísio, Bejani, ele passou a ser motivo de chacotas como peça inútil, imprestável, por conta do desleixo e da indiferença deles. Todos assistiram impassíveis sua saída de cena. Nenhum deles teve com o velho relógio o cuidado especial, um olhar carinhoso, que merecia e continua merecendo.
Por que o relógio da Estação da Central do Brasil, na Praça João Penido, continua em atividade, pontualmente, e o da Prefeitura, não? - meu amigo piadista deixa a verve humorística de lado e argumenta que eles são muito parecidos, no formato redondo e no desenho do mostrador. O da Central está em atividade desde 1928. É apenas onze anos menos antigo que o da Prefeitura.
Todos da roda concluímos que se continuar o rodízio daqueles mesmos nomes no cargo de prefeito - como tudo indica, infelizmente... - o relógio jamais será ressuscitado. O melhor a fazer, então, será substituí-lo por outro, um digital, mesmo que não seja tão bonito quanto ele, e transferi-lo para o Museu Mariano Procópio. Lá ele estará a salvo das piadinhas, entronizado num espaço à altura de seu passado, repousando ao lado de outras peças históricas da cidade.
A não ser que... (eis a criatividade de meu amigo entrando em ação para solucionar uma crise)... a não ser que a Prefeitura contrate quatro pessoas, de baixa estatura, que se revezarão de seis em seis horas, ininterruptamente, em uma cabine na torre, atrás do mostrador, fazendo o ponteiro avançar a cada minuto.
Os quatros responsáveis pela engrenagem manual seriam selecionados entre os camelôs (ou ambulantes, como queiram classificá-los) que agem no Centro. Outro efeito de boa repercussão, ao tirá-los de circulação, seria o de diminuir o número de bancas e barracas que emperram a circulação dos pedestres nas calçadas.
Não é nada, não é nada, serão menos quatro sujeitos a atravancar o espaço público e a prejudicar o comércio legalmente estabelecido no pedaço.
Dessa forma, o relógio da Prefeitura reassumirá o seu papel de fornecedor da hora certa aos transeuntes no coração da cidade, como o foi durante os últimos 80 e tantos anos, e voltará a posar orgulhoso como um bonito e útil objeto decorativo.
E o Brasil passará a contar com menos quatro desempregados nas contas das preocupações do presidente Lula.
É ou não é criativa a sugestão?
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Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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