Nem tudo está perdido Música

Foto de violinos Dois concertos chamaram minha atenção ultimamente. Um no fim do mês de novembro e o outro no início deste dezembro. Em ambos a sensação é de não saber bem o que dizer definitivamente. Talvez porque ambos abertos e não definitivos, talvez porque ambos esperançosos.

Meu primeiro ímpeto foi de ouvi-los criticamente e poder dizer algo das performances, mas isso limitaria o que foi a experiência de ouvi-los. Isso mesmo, experiência, e não simplesmente audição.

Começo pelo último. No dia 6 deste dezembro houve um pequeno recital de piano no Conservatório Estadual de Juiz de Fora. Recital de alunos premiados em concurso de piano do ano passado. Como acontece sempre neste tipo de concerto, um programa muito variado, sem muito nexo entre uma peça e outra e mesmo sem continuidade dado a variedade de intérpretes também. Mas o que chamou a atenção foi a seriedade dos músicos, o desejo com que se posicionaram frente ao piano. Alguns deles sequer sabiam agradecer as palmas. Mas muito vivos e com musicalidade à vista. Foi bom ouvi-los, experimentar o orgulho de seus professores e o resultado de um trabalho que em geral leva muito tempo para se ter os resultados. Parabéns alunos e professores, parabéns Conservatório.

O outro concerto, de fins de novembro, eu já havia anunciado em textos anteriores. Foi a récita de Brundibár no projeto do Colégio Militar de Juiz de Fora em conjunto com o Pró-Música. Eu estava ansioso para ouvi-lo. De fato foi desigual, com momentos muito críticos e fracos e outros magníficos. Mas não foi só pela música que a ópera comoveu, senão pelo que significou.

A ópera é uma história muito infantil de duas crianças que saem a procura de leite para a mãe doente e não conseguem sucesso pela opressão do Brundibár, um tocador de realejo. Ajudadas por três animais e muitas outras crianças, os dois personagens principais vencem o Brundibár e cantam um bonito hino da vitória no fim da ópera.

Foto de um piano O curioso de tudo isso é que esta ópera era cantada por crianças prisioneiras no Gueto de Theresienstadt, durante o período nazista. As crianças relacionavam diretamente este Brundibár a Hitler e nas mais de 50 vezes que cantaram a obra entre 1941 e 1945, alimentaram-se de esperanças de vitória contra o mal.

Como disse, a apresentação foi bastante desigual, mas muito impressionante pelo que representou. A presença dos brasileiros que lutaram na segunda guerra e de um sobrevivente de campos de concentração residente no Brasil aumentaram a emoção da performance.

Gesto lindo das instituições que promoveram o concerto, lembrando o quanto estamos ainda marcados por um mal que só poderá ser derrotado com uma união de forças, bem representada na performance com a presença do coral Meninos Cantores de Santo Afonso e Angeli Coeli, que uniram suas vozes aos alunos do Colégio Militar e aos músicos da Camerata Jovem do Pró-música.

Dois concertos pequenos, talvez criticáveis se vistos com olhos puramente técnicos, porém dois concertos memoráveis e que nos lembram que nem tudo está perdido nesta cidade.

Que outros venham neste Natal.

Colunista
João Sebastião Ribeiro é músico.
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