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Talvez o leitor, pelo título deste texto e pelo mês em que vem a público,
imagine que se trata de algo comentando a música de Carnaval, mas lamento
dispensar este leitor já na segunda linha!
Quero aqui retomar o conceito que a literatura faz deste termo. Foi o teórico Bakhtin quem trouxe este conceito para um sentido mais literátio, principalmente após o estudo da obra de Rabelais, Gargantua e Pantagruel. Bakthin amplia o significado do termo carnaval, não apenas como uma festa popular, mas como um procedimento e ressalta o quanto a literatura se vale deste. Chamam a atenção em especial dois aspectos:
Falo tudo isso para voltar ao que motivou o artigo deste mês. Só pode ter sido uma carnavalização o que publicou um diário da cidade no último dia 26 de janeiro sobre o concerto de encerramento do CINVES 2008 e as palavras do maestro Ernani Aguiar.
Inicia o diário dizendo: "Depois de Villa-Lobos, Ernani Aguiar é um dos compositores eruditos brasileiros de maior prestígio internacional." Ora, depois de Heitor Villa-Lobos, seria no mínimo descortês não citarmos Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Osvaldo Lacerda, Edmundo Vilani-Cortez como compositores eruditos brasileiros de prestígio internacional. Sim, o jornal fala em "um dos compositores...", mas está escrito de tal forma que um leitor que desconheça a história da música brasileira no século XX terá a impressão que depois de Villa-Lobos, só Ernani Aguiar.
Já quero deixar claro que aprecio muito a música deste compositor, ela é de fato bem escrita e agradável. O maestro é muito simpático e divertido. Mas não pode deixar passar afirmações como, citando o jornal, que coloca como suas palavras: "Todos os grandes compositores, Beethoven, Mozart, Bach, Villa-Lobos e Guerra-Peixe, entre outros, utilizaram a música popular na essência do seu trabalho. Foi no início do século XX, com o surgimento dos 'ismos' na música erudita, como o dodecafonismo e o atonalismo, baseados em cálculos matemáticos, que o público passou a se distanciar do gênero".
Isso é um equívoco maestro! O Nacionalismo é apenas mais um "ismo" do século XX, também construído intelectualmente. É só lermos com cuidado os textos de Mario de Andrade ou Renato de Almeida, por exemplo, para vermos o quanto a elaboração do que é uma idéia de "nacional" foi examinada. Mario de Andrade fala de constâncias melódicas e rítmicas para o compositor nacional. E este mesmo Mario de Andrade que em seu "Ensaio sobre a música brasileira" critica Villa-Lobos, chamando sua música de pseudo-música indígena. Diz Andrade: "bastou que fizesse uma obra extravagante pra conseguir o aplauso (p. 14)". É preciso cuidado para não incorrermos nesta mesma facilidade, a extravagância, dizendo que se trata de música popular.
Não foi a música que mudou no início do século XX, maestro, foi o mundo. E este mesmo mundo que "matematizou" a música, também a nacionalizou (não vou entrar aqui no debate sobre o quanto a música é matemática por natureza!!!). E agora temos que cuidar para não cair na Carnavalização, literariamente entendida. Não mascararmos o que é a realidade, para criar uma falseada idéia do que é popular. Nem podemos relativizar o fato de que o discurso musical se apartou do popular não para que o público se apartasse dela, mas que isso foi apenas o caminho natural da evolução do discurso musical. Que tal ensinarmos a nosso público a ouvir o atonalismo e o dodecafonismo, para talvez assim sermos mais realmente democráticos musicalmente?
Boas novidades!
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