![]() |
Depoimento de Iacyr Anderson de Freitas
|
|
"Na verdade, nascemos a posteriori", disse Murilo. Como poeta, nasci
dezessete anos depois da primeira peça de ficção que foi o meu registro
civil. Em Juiz de Fora. Peça de ficção, meu registro civil? Explico melhor: para homenagear minha
avó materna, vinda ao mundo a 22 de setembro, meu pai declara ao oficial do
cartório que meu nascimento se deu naquela data. Resultado: nasci
oficialmente dois dias antes do meu nascimento. Sou oficialmente mais velho
do que eu mesmo.
Chego enfim a Juiz de Fora. Conheço o inverno e sua chuva miúda. Miúda e interminável. O passo domado do Paraibuna, a Rua Halfeld, o morro do Imperador, o molde grave dos casarões do Bairro Granbery, o tanque de guerra que ainda sitiava, na praça deserta, o cadáver cujo nome recusamos. Cujo nome era nume e número: 1964. Conheço ruas vincadas no asfalto. Até então, para mim, asfalto era coisa estradeira. Como um tapete que indicasse, de soslaio, distâncias superlativas. Não prestava bem para dividir vizinhança. Depois descobri que fazia sentido. Que era de asfalto também o terreno entre uma porta e outra, entre os cômodos de um mesmo apartamento, entre as pessoas que por ele transitavam. Era de asfalto a distância entre palavra e gesto, entre um afeto e sua louca ausência de resposta.
Ingresso numa cidade que também estava de mudança. A terra que perdera seus pianos perdia agora, sem pesar, seu passado. Palacetes, casarões e casebres voltavam ao pó original. Onde outrora recitais domésticos, britadeiras e tratores maceravam, sem cessar, o morro do Imperador, o morro da Gratidão, a encosta de São Bernardo: música demudada.
Usina de marmelos: primeira hidrelétrica da América do Sul. Cortadas as linhas de transmissão, permanece à deriva no oceano de Minas. Um braço do Paraibuna agarra-se ao casco do velho prédio. Toda a construção lembra antes uma casa-comum, um avesso dejetório. Latrina que retirasse das águas um minério de luz e ramagem. Maquinário aposentado, enfim, e a energia do lugar não aquece mais a cidade. Fica por ali, entre as pedras, ao lado do rio que segue desfiladeiro abaixo. Na margem direita do rio que morre. Sozinha, matutando.
Italianos, libaneses, sírios, alemães, portugueses, africanos, chineses, espanhóis, coreanos. Uma cidade feita de cidades que fugiram. Em mosaico. Aluno aqui, meti no embornal, a custo, essa deliciosa didática da diversidade.
Uma parte de qualquer cidade fica sempre submersa. Sempre à margem da história. Olho a Cia. Têxtil Bernardo Mascarenhas, a Cia. Pantaleone Arcuri, os sobrados suntuosos, um ou outro prédio comercial do velho conjunto da Praça da Estação. Nada resta, no entanto, da Vilagem da Colônia Dom Pedro II e das demais vilagens. Nenhum registro físico. Nenhuma lembrança do percurso operário e escravo por estas terras, da "escritura dos escassos", do trabalho infantil que me chega assim queimando na forja viva de velhas fotografias. Implacável, o patrimônio industrial demite da História, por fim - e sem justa causa -, seus empregados.
Estando a serviço no pontal do Triângulo mineiro, aproveito todas as folgas
para voltar a Juiz de Fora. Desfrutando então de uma dessas folgas, começo
a observar, sem compreender direito, o desmonte da cidade que Pedro Nava
me doara. De um ônibus urbano, que cruzava rio acima a Avenida Rio
Branco, vejo alguns operários retirando, com cuidado, as telhas da
capelinha do Stella Matutina. Retorno feliz para o batente lá no
nariz das Gerais: eis que vão reformar o santuário. Quando passo de novo
pelo local, alguns meses depois, não encontro mais a capela. No lugar, sem
se dar conta do ocorrido, o esqueleto de mais um centro empresarial. Reto e
estúpido como todos os demais, ostentando o fraque fascista da nossa
modernidade. Fazia calor naquele dia. Coisa de quarenta graus. Falei
comigo: meu Deus, essa cidade tem febre.
Das poucas coisas de valor que tenho em meu currículo, sublinho particularmente as amizades que Juiz de Fora me concedeu. Fernando Fiorese, Edimilson, Ruffato, Sanglard, Sérgio Kleinsorge, Zé Santos, Polidoro, Mutum, Luizinho Lopes, Breno Chagas, Mary e Eliardo França e muitos outros da irmandade. Não posso me esquecer aqui, é claro, de Ruy Merheb. Certo dia, numa mesa de bar, Eliardo França me confia uma frase lapidar do Ruy: "Juiz de Fora foi para o século XIX o que Ouro Preto foi para o século XVIII". Talvez seja esse o mote da declaração de amor de Manuel Bandeira. Declaração que, infelizmente, a cidade não soube ou não quis compreender.
Numa fachada do Poço Rico, num resto de nome que é o Alto dos Passos, nos belos casarões da Rua Espírito Santo, nos locais mais estranhos e inesperados, a velha Juiz de Fora, a Juiz de Fora arquetípica me toma. Em mim então se acende, inteira e nua: esse era o casario que Nava guardou no seu baú de ossos, esse o caminho que levava à casa de Lindolfo Gomes, com esta coluna o menino Murilo deve ter mantido um dedo de prosa. Aqui, exatamente neste lugar, Belmiro Braga colocava o busto de Oscar da Gama a par dos burburinhos da terra. Bilac caçou esmeraldas nesta praça. José Freire e Sílvio Romero cruzaram este pátio de pedra. Sentaram-se ali. Fazia frio então. O sol vazou por aquela janela.
Além dos amigos, Juiz de Fora me deu também, naturalmente, alguns poemas. A imagem de um milico na praça da Escola Normal, pegando em armas contra o sol inútil de uma tarde domingueira, me trouxe "O soldado" :
|
Guarneço os últimos dias nessa praça.
Não há trincheiras,
Desarma as flores
Guarneço a ausência do embate.
seu perfume é minha mortalha
Estou sozinho de mim
As aves me fitam
Um santuário sem grandeza,
A quem protejo
A guerra não veio.
O sol não me defende
Os passantes giram: decerto
Guarneço o monumento
A primavera escapa
O monumento monta guarda
Sozinho
|
O testemunho de uma chuva colossal sobre o dorso do mirante de São Bernardo, sacudindo a cidade qual um lenço, plantou na minha bibliografia "Uma árvore", poema que dediquei a outro amante de Juiz de Fora, o grande amigo e escritor José Afrânio Moreira Duarte:
|
A única imagem pessoal: aquela árvore sob a chuva, impassível e dura.
A cidade à deriva,
Casas com âncoras nos batentes.
Uma densa parede sela a vista.
Mesmo a topografia se curva
Alheia ao desespero,
Impassível em sua metáfora, entregue
estar na chuva, sob o jugo,
|
Outros poemas nasceram do mesmo tronco. Alguns me sondam ainda, de esguelha. Certo dia encontro, num restaurante, uma antiga foto da área central da cidade. Uma foto feliz: lá estava a grandeza de uma manhã extraviada há cem anos. Uma manhã que houve e que, como diria Gullar, não mais nos ouve. Que a custo resiste, acesa ainda, sobre o papel ceifado em sépia: representação corporal do invisível. Amanhecendo. Eternamente amanhecendo. A esse alumbramento devo o parto do "Vigésimo terceiro mirante":
|
Não olhes. Uma tão grande beleza jamais poderia acabar assim. Se mesmo Tróia não teve defesa, como entender, como explicar tal fim? Não olhes nunca esse velho retrato. Nele, do que há de vida te compenses em testemunho, fulgor sem recato da grandeza que esplende os seus pertences. Tudo passou. Resta uma náusea agora. Uma lembrança que estremece as louças, o ar, a própria visão que se evapora. Teu grande assombro não cabe nas bolsas da infância. Na estação, divide a aurora o mesmo grito de outrora. Não o ouças.
|
Sim, é melhor não ouvir, na Praça da Estação, o casario que aflora com seu canto seráfico de mil sereias conjugadas. Canto pleno, de orfandade e desaparição.
Há cidades que não vêm à tona. Ficam em nós, eternamente submersas. Há lugares para a alma somente. Para o soldo e o sonho. Há quintais cujos frutos fendem o fel com sua âncora. Mapas que se movem pelo mobiliário do corpo adentro. São a memória viva do que não vivemos. Cidades sibilantes, submersas.
Como ia dizendo: assalta-me sempre a imagem da antiga cidade. Da que não conheci e que, estrangeira, me habita. Ela passeia em mim seus bondes e ruas. Seus parques e jardins sobrenaturais. Assenta em mim sua geografia. Arreda os outros lugares todos da memória. Talvez tenha sido por isso que, engenheiro do ar, fundei numa página qualquer de A soleira e o século, por entre rios que me espreitavam da infância, "Uma cidade":
|
a cidade que celebro nunca me soube nela me banho nos seus rios sem fonte ou foz nos sobrados que correm sobre trilhos (verticais na carne e no espírito) no cheiro morto do milho do feijão bravo com cravo e couve
celebro em mim
|
Iacyr Anderson Freitas
Leia mais: