Repórter: Silvia Zoche

Foto: Humberto Nicoline
Rock progressivo, heavy metal, hard rock e muita atitude. Entre metaleiros, punks, roqueiros, hippies e universitários, a moçada dos anos 80 mostrava que queria mesmo era transgredir as regras. "Estávamos contra tudo e contra todos", recorda o baixista da primeira banda punk da cidade, Adriano 66. (Ouça o som da banda!).

O contexto histórico da época contribuía para as manifestações rebeldes, já que a luta era pela abertura política e a redemocratização. A reforma partidária e a anistia política, que permitiu a volta ao país de alguns exilados, como Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e Miguel Arraes, propostas no Governo Figueiredo, eram insuficientes para os anseios da juventude. "Queríamos liberdade de expressão. Por isso, o som agressivo e as letras de protesto", explica o baterista Elias 66.

Foto: Humberto Nicoline

Em se tratando de manifestação, em 1983, aconteceu o primeiro Festival de Rock de Juiz de Fora, no campo do Sport Clube, responsável pela renovação do conceito de música na cidade. Nomes que começavam a despontar no cenário nacional foram convidados pelos estreantes em produção juizforanos, Aécio, Toninho Buda, Virginia Guilhon, Anderson Herédia e Knoor e pelos cariocas Sérgio de Castro, Sandra Lomelino, Cleofas Peixoto e Maria Juça para participar de um evento jamais visto na região.

"Todas as tribos que representavam o rock naquele momento estiveram presentes. Convidamos Raul Seixas, Erasmo Carlos, Barão Vermelho, Olho Seco, Cólera, Rogério Sky-Lab, Sangue da Cidade, Lobão, Cazuza e os Ronaldos, entre outros", relembra o produtor cultural, Marcos Petrillo (leia a entrevista).

E o resultado não podia ser diferente. "O festival marcou a cidade", garante o vocalista do Eminência Parda, Edson Leão. "Era como se eu estivesse submetido a uma alta radiação. Aquela energia da guitarra suja misturada com punks, moicanos e correntes me contaminou". A "pancada" de shows eletrizantes introduziu a juventude juizforana nas novas tendências do rock brasileiro e, segundo o público, causou uma certa efervescência comportamental. De acordo com Petrillo, os moradores das áreas centrais da cidade sentiram o impacto e a força de um evento que espalhou punks e figuras pouco convencionais pelas ruas, causando até algumas confusões e chocando pelo visual agressivo.

Foto: Black Widow/Arquivo Pessoal
A influência foi tanta que se formaram os primeiros grupos da região voltados para a música alternativa, sem preocupação comercial. Vértice (leia o depoimento), Mercúrio Chromo, Uavisiliu, Força Desarmada, Beatles Forever, Inimigos do Ritmo, Portal da Luz, Nostradamus, Psicoritmo, Frúturo Sim, Dois Cruzeiros de Bala, Profecia, Apocalipse, Tucas Band, Comboio, Black Widow (leia o depoimento), Ossiação, entre outras, passaram a integrar os festivais seguintes e a mostrar autenticidade em seus trabalhos.

"As bandas tinham que tocar músicas próprias. Essa era a lei", relembra o vocalista e compositor da banda Ossiação, Henrique Cabral (leia o depoimento!). A dose de sucesso foi repetida em 1985, quando o Festival tomou ares de um mega acontecimento. Passaram por aqui Legião Urbana, Ultraje a Rigor, Celso Blues Boy, Léo Jaime e Robertinho de Recife, que se tornaram personagens do longa-metragem Rock Estrela, realizado durante o evento, através das lentes de Lael Rodrigues.

Entre um festival e outro "rolavam" as concorridas festas na sede do Diretório Central dos Estudantes (DCE), além de apresentações em praças, ginásios e ruas da cidade.

Capital Inicial, Lobão, Ira, Camisa de Vênus e Cazuza, entre outras duas dezenas de roqueiros retornaram a cidade em 86 para a 3ª edição do Festival que teve dois dias de shows no Jockey Clube. "Não havia fragmentação musical. Dentro do Festival se mostravam todas as tendências. Hoje a qualidade das letras deixa o público desinteressado", acredita o integrante da banda Black Widow, Marcão (leia o depoimento!).

Em 89, o evento foi diferente. Realizado no Espaço Mascarenhas, o Festival ganhou um proporção menor, mas a energia continuava a mesma. O aquecimento rolou com uma exposição de rock. Grupos da cidade e região se apresentaram durante a semana e, no sábado, Barão Vermelho, Picassos Falsos, Uns e Outros, Inimigos do Rei, Nabi Clifords entre outros, fizeram a festa.