Saúde

Chocolate? Bom é pouco!

Sonia Hirsch
30/03/99

O chocolate, como todo mundo de bom gosto sabe, é a coisa mais perfeita já inventada pelo ser humano. Basta dizer que muita gente só compara chocolate a orgasmo, e assim mesmo depende do orgasmo. Como vício solitário é mais prático, já que pode ser saboreado com a maior volúpia em qualquer lugar e a qualquer hora, na frente de todo mundo. E vem com a força da tradição, pois três mil anos atrás o cacau já era cultivado por maias, toltecas e astecas, que tanto usavam as sementes como moeda quanto preparavam com elas uma bebida especialíssima, usada até em rituais religiosos: o xocoatl, que em Nahuatl significa “água amarga”.

Eram sementes de cacau torradas e socadas no pilão com pimenta, chilli, baunilha, urucum, às vezes milho, às vezes mel e flores secas: juntando água virava uma bebida forte, quente ou fria, que enlouqueceu os espanhóis no México em 1519. Tanto que eles levaram a fórmula para a Espanha e a trancafiaram nos mosteiros. Mas ela conseguiu escapar do claustro para entrar na história, e em 1606 o chocolate já começava a circular pela Europa, junto com as pedrinhas de rapadura que vinham das Índias e valiam seu peso em ouro. Maria Tereza, mulher de Luís 14, foi a primeira chocólatra da história. Richelieu, cardeal de Lyon, usava chocolate para aliviar suas crises de mau humor.

No final do século 17 o chocolate já estava ficando popular e perdendo sua pureza: o pó das sementes de cacau começava a ser misturado com leite, vinho e cerveja, além de doces de toda espécie, mas ainda como bebida. Só em 1847 surge o primeiro chocolate em barra. Em 1876, um suíço (quem mais?) inventa a barra de chocolate ao leite e vende a fórmula para a Nestlé.

Mas por que esse sucesso todo?

O grande barato do chocolate é que ele acalma e excita ao mesmo tempo. Só o cheiro já faz bem. O conteúdo é rico em substâncias estimulantes como cafeína e teobromina, e alguns de seus aminoácidos conseguem alterar as propriedades das células nervosas de forma idêntica ao THC da maconha, ou seja, mudando a "onda".

Com o chocolate as pessoas ficam mais eufóricas mas também mais distraídas. Ele acelera os batimentos do coração, aumenta a pressão sanguínea e eleva o nível de glicose no sangue, proporcionando uma sensação de bem-estar físico semelhante somente a um bom pós-coito. Seu poder estimulante vem principalmente da cafeína, que age sobre o sistema nervoso central, coração, circulação sanguínea e rins; combate a depressão respiratória, reduz o cansaço, melhora a coordenação motora, aumenta a atividade sensorial e afasta o sono. Em contrapartida, pode causar irritabilidade, ansiedade, nervosismo, tremores, dor de cabeça e insônia. A teobromina, presente no cacau em maior quantidade que a cafeína, tem um efeito estimulante bem menor e atua mais como diurético.

Esse quase santo remédio, embora seja feito com uma gordura saturada que é a manteiga de cacau, não só não aumenta a taxa de colesterol do sangue como ainda ajuda a evitar que o colesterol se aglomere nas paredes das artérias. Médicos do início do século consideravam o chocolate puro um alimento substancial e salutar, estimulante dos órgãos digestivos, reparador, conveniente aos temperamentos fracos e às pessoas idosas. E muitas fontes juram que ele não faz mal ao fígado, cada um que se entenda com o seu.

Brillat-Savarin, o maior gastrônomo da história (1755-1826), fez assim sua louvação ao chocolate: “É um poderoso restaurador. Deixe qualquer um que tenha trabalhado demais em vez de dormir, qualquer um que se sinta temporariamente fraco das idéias, qualquer um que sinta o ar sufocante, o tempo custando a passar e a atmosfera impossível de suportar, deixe qualquer um que esteja atormentado por uma obsessão que o impeça de pensar com clareza, deixe que todos eles se tratem com meio litro de chocolate... e verão acontecer um milagre.”

Nem tudo é perfeito

Mas isto ele dizia em relação ao puro chocolate. Que, com franqueza, pode ser péssimo devido a misturas plebéias com leite e sementes oleaginosas como amêndoas, avelãs, nozes e castanhas em geral, essas sim muito quentes, numa combinação tão saborosa quanto propensa a dar espinhas, mau hálito e alergias em geral. A bem da verdade, registre-se que o bom chocolate, o mais nobre e cult, é o meio amargo - feito geralmente com 42% de massa de cacau, outro tanto de açúcar, e o restante é a manteiga do próprio cacau, com lecitina de soja para melhorar a liga. Chocolate branco, minha senhora? Um blefe, uma mentira, completa ilusão e mesmo ofensa: não passa de manteiga de cacau com leite e açúcar.

Cuidado com chocolate velho: pode estar mofado, o que afeta demais o fígado; em excesso irrita os intestinos, e o açúcar que o acompanha ajuda fungos, bactérias e protozoários a irem fazendo a vida por ali; o resultado pode ser uma inflamação crônica. Por isso, olho vivo. Quanto mais manteiga de cacau, mais macio, cremoso e opaco o chocolate; quanto menos, mais duro e brilhante ele fica, e quanto mais amargo, mais legítimo o sabor.

Lendas maias e astecas dizem que as sementes de cacau vieram do paraíso para dar sabedoria e poder a quem as come. Portanto, irmãos, comei chocolate! Lembrai-vos, porém, de que muita sabedoria emburrece e muito poder enfraquece, portanto cuidai de poupar o prazer - apenas para que ele seja maior e mais intenso, e que se repita muitas, muitas e muitas vezes, amém.

Sonia Hirsch (shirsch@correcotia.com) é autora de vários livros sobre saúde e alimentação, entre eles Sem Açúcar Com Afeto, Só Para Mulheres, Manual do Herói e Almanaque de Bichos que dão em Gente.

Fonte: http://www.oglobo.com.br/viagem/chocolate.stm

Comentários

Ao postar comentários o internauta concorda com os termos de uso e responsabilidade do site.