Saúde

Combatendo o estresse

Doenças provocadas por excesso de trabalho e tensões são cada vez mais comuns, mas é possível evitá-las

Quando sua empresa estava no melhor período, contabilizando crescimento de quase 400%, Paulo Marcos Batista Oliveira levou um grande susto: com problemas circulatórios, fez uma cirurgia para retirada da safena, teve de parar de fumar e – o mais terrível – foi obrigado a descansar. A fadiga e a dificuldade para respirar que sentia tiveram como diagnóstico síndrome do pânico. "Eu estava no auge profissional mas não tinha a vida que queria, me arrebentei sem perceber", reconhece, hoje, dando-se conta do ciclo vicioso que viveu, mais comum do que se imagina, entre executivos.

Dono da Sol (Serviços On Line), empresa prestadora de serviços de informática, Paulo Marcos conheceu, no final do ano passado, uma imersão perigosa no trabalho. A empresa absorvia cerca de 13 a 14 horas do seu dia, incluindo três finais de semana por mês. Trabalhava de madrugada, comia pizza por falta de tempo para o almoço, fumava muito e vivia tenso, porque tinha de cumprir prazos de entrega, administrar funcionários e o próprio crescimento da empresa, de um setor extremamente dinâmico e mutável. A vida sedentária completava o quadro.

Com todos os problemas de saúde que o acometeram de uma única vez, Paulo Marcos resolveu fazer mudanças no seu dia-a-dia. Reduziu a jornada de trabalho, reserva os finais de semana para o lazer e delegou algumas tarefas, antes sob sua responsabilidade, aos funcionários. Além disso, dedica à mentalização, baseada na ioga, pelo menos trinta minutos diários. "Ando mais devagar e passei a conhecer meus limites", diz.

Como muitos executivos, Paulo Marcos se deu conta de que alguns cuidados e modificações na rotina são preciosos na garantia de uma vida mais confortável e mais longa. E que é perfeitamente possível ser bem sucedido profissionalmente e ao mesmo tempo ter saúde de ferro.

"O importante é descobrir uma forma de não conviver constantemente com a pressão e ansiedade do trabalho", recomenda o médico Henrique Raso. Diretor executivo da Precordis Medicina Preventiva, especializada em saúde no trabalho, ele ensina que não existe fórmula milagrosa para evitar o estresse. É natural que o empresário "viva intensamente" o que faz – conflitos, cobrança, ansiedade –, mas não pode ocupar todo o tempo com isso.

A válvula de escape varia conforme a pessoa. Pode ser um passeio com os filhos, uma atividade completamente diferente da profissão, um esporte, o que dá prazer.

Também não adianta tocar uma empresa porque a herdou da família, se a atividade não dá prazer. "Precisa gostar do trabalho, porque sem satisfação não há saúde", garante a médica Ada Ávila, especialista em medicina do trabalho e ergonomia – a disciplina que busca a adequação do homem ao ambiente de trabalho.

‘Contradições’ do meio ambiente causam doenças

Distúrbios no sono, alterações gástricas e perturbações psíquicas, como a sensação de tédio, são algumas das manifestações do estresse. O quadro pode levar à depressão ou estar associado a ela, segundo a médica Ada Ávila. "Não tem uma receita de bolo, mas a organização do sistema produtivo é essencial", diz, baseando-se nos princípios da ergonomia. Para essa ciência, doenças e manifestações de insatisfação ligadas ao trabalho são resultado de contradições em todo o ambiente, que envolve empregado, patrão e até o prestador de serviços.

Ada Ávila participa de um grupo de trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais que realiza trabalhos em empresas para detectar o que chama de "contradições". Com base nos levantamentos, a equipe, que pertence ao Departamento de Medicina do Trabalho, faz relatórios de recomendações que atingem toda a empresa. A Precordis também oferece aos executivos, por meio de convênios com empresas, uma maneira de conhecer seu estado físico e psicológico, para que possam se prevenir contra as doenças mais comuns.

O que ajuda a evitar o estresse:

  • Gostar do que faz
  • Não levar serviço para casa
  • Desenvolver atividade que dá prazer
  • Fazer exercícios físicos
  • Não assumir compromissos em excesso
  • Não se cobrar mais do que é capaz de fazer
  • Ter alimentação equilibrada
  • Não pensar que é insubstituível
De que sofre o executivo:

  • Estresse - 93%

  • Colesterol alto - 66%

  • Excesso de peso - 50%

  • Vida sedentária - 43%

Fonte: Pesquisa interna Precordis

Limites do corpo devem ser respeitados

Pesquisa feita pela Precordis mostra que dos mais de mil executivos que passaram por exames na empresa, no ano passado, 93% apresentavam estresse. A vida sedentária era característica de 43% dos pacientes e metade deles apresentava excesso de peso. O colesterol elevado também apareceu, em cerca de 66% dos examinados.

As razões desses males são cobrança exagerada e busca de resultados cada vez mais intensos, sem respeitar os limites do corpo. "As mudanças no mundo ocorreram de forma rápida, a globalização e o medo de tornar-se superado nesse novo cenário exigem do profissional um ritmo além do tolerado", diz o médico Henrique Raso.

O autoconhecimento tornou-se uma arma importante para vencer o estresse e perceber as condições que expõem as pessoas à doenças. O conceito da prevenção ganhou fôlego na última década e tem número de adeptos crescente. "Vi que, se eu morrer, a empresa continua", diz o empresário Paulo Marcos Oliveira.

Fonte: Jornal eletrônico Passo a Passo - Agosto de 98 - http://www.sebraenet.com.br/noticias/index4.php