É comum encontrar pessoas tropeçando e escorregando nas belas pedras portuguesas,
utilizadas em grande parte do calçamento no centro da cidade. Os buracos parecem
mais crateras. "Quando elas se soltam, o buraco formado é de cerca de cinco centímetros"
,
diz o funcionário de uma loja de material de construção Francisco Ferraz Fernandes.
O arquiteto Carlos Gouvêa explica que a pedra portuguesa é pontuda, por isso a espessura do calçamento é grande, o que leva a buracos enormes quando algumas se soltam.
O arquiteto, historiador e diretor de patrimônio do Instituto de Arquitetura do Brasil seção Juiz de Fora,
Marcos Olender, diz que as pedras portuguesas são de basalto e, para ele,
a manutenção deste tipo de calçamento não é barata. "Elas precisam ser quebradas
e, por isso, se tem todo um trabalho"
. E completa. "Se fosse barato, ela não estaria sendo substituída
pelo cimento em alguns locais"
, diz.
Indo além dessa questão, o arquiteto também aborda o conforto dos pedestres.
É uma pedra muito lisa e não oferece segurança. O cimento colocado entre elas é que
cria essa segurança. Entretanto, com o tempo, ele vai se nivelando com as pedras
e sumindo. "Em locais onde muitas pessoas passam, o piso acaba ficando liso e se soltando"
.
Abordando ainda outro fator, Olender diz que falta agilidade do poder público em
localizar as calçadas de sua responsabilidade com buracos e consertar. "Se elas estão
descolando, tem que ver o motivo e procurar consertar rápido"
. Entretanto, para ele,
discutir somente a conservação das pedras não é o suficiente, pois "elas
não são ideais para o calçamento de Juiz de Fora"
.
Gouvêa concorda com ele. "A pedra não traz segurança para os pedestres em um centro urbano"
.
Olender explica que, assim como outras coisas, o uso das pedras portuguesas foi trazido do
Rio de Janeiro para a cidade. "É uma tradição carioca e, mesmo assim, lá
elas estão sendo substituídas"
. Nas vias que precisam ser repavimentadas, ele é
a favor da substituição desse piso. O único local onde ele é a favor de manter
as pedras é no calçadão, por ser uma tradição. "Ele foi projetado para este piso.
É o único local originalmente feito com elas, no início da década de setenta"
.
Segundo Olender, as pedras portuguesas substituíram um tipo de piso chamado ladrilho hidráulico. Ele pavimentava a cidade no início do século XX e foi difundido no Brasil pelos italianos. Em Juiz de Fora era produzido pela Pantaleone Arcuri & Spinelli. É um piso à base de cimento e produzido artesanalmente através de formas. Ele ainda pode ser visto em alguns estabelecimentos comerciais, escolas e igrejas construídas naquela época (ver abaixo).
Olender diz que o ideal seria resgatar esse piso e colocá-lo nas vias públicas.
"Por que renegar a história da cidade?"
, questiona ele. Gouvêa diz que a implantação
deste piso vai compor melhor o visual da cidade, além de ser mais seguro.
"Como é artesanal, há a possibilidade de ser produzido como quiser, com a opção de
colocar mais áspero, com estampa ou liso"
.
Gouvêa ainda diz que o ladrilho hidráulico não se solta com facilidade e, se acontecer,
a manutenção é mais fácil que a da pedra portuguesa. Na questão segurança,
ele também é colocado à frente. "Não é escorregadio e se soltar, o buraco é menor
que o deixado pelas pedras"
, diz. Entretanto, ele esbarra na produção. "É um produto caro"
.
Olender tem um projeto para retomar a produção das pedras através da implementação de
uma oficina-escola. Os ladrilhos seriam produzidos por pessoas em risco social, o que, além
de resgatar a técnica de pavimentação, iria colaborar para ensinar um ofício e
baratear a produção. O projeto existe há cerca de dez anos e o historiador não
conseguiu o apoio do poder público. "A cidade até poderia exportar o piso para outras.
Em São Paulo, há quem queira que este piso seja usado novamente"
.
A vendedora de outra loja de material de construção Cristiana Rodrigues diz que o ladrilho hidráulico pode ser produzido com estampas e liso, em qualquer cor. A base é de cimento e a coloração é feita através de corantes. O nome hidráulico vem de uma etapa da produção. Após ser prensado, ele é colocado em um tanque de água, onde fica por 48 horas.
Cristiana diz que o problema do conforto poderia ser resolvido com as peças em alto relevo,
mais rústicas e menos escorregadias. Sobre a conservação, ela diz ser necessário usar um impermeabilizante, já
que o produto cimentício é poroso. "Depois que ele puxar a sujeira, não há mais como limpar.
O ideal é evitar, assim ele fica bonito por mais tempo"
.