Vereadores discutem a quem devem se destinar as refeições oferecidas no Restaurante. Donos de restaurantes sentem-se ameaçados com a construção no centro da cidade
Ricardo corrêa
Repórter
13/12/2005
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A quem deve se destinar o Restaurante Popular que será construído e
implantado no ano que vem em Juiz de Fora? Essa foi a principal questão que
permeou as discussões da Câmara Municipal, nesta segunda-feira, dia 12. A pedido do
vereador Antônio Jorge (PSDB), os parlamentares se reuniram para
discutir, com a presença de membros do Executivo, o projeto que já foi
apresentado pela Prefeitura e com verbas já comprometidas para repasse por
parte do Governo Federal.
Para comprovar sua tese de que o Restaurante Popular, embora seja necessário, pode prejudicar uma boa parte da sociedade se for implantado como está previsto, o vereador tucano apresentou um vídeo, com entrevista feitas em Belo Horizonte, na região em que foi instalado o restaurante popular daquela cidade. No vídeo, comerciantes e moradores reclamam, dizendo que o lugar ficou inseguro, desvalorizado e que o comércio foi prejudicado. Caso de Evana Andrade, dona de um restaurante que afirmou ter reduzido o número de funcionários de 15 para cinco por conta da crise provocada pela concorrência desleal.
Logo após a exibição do vídeo, o ex-vereador e hoje secretário de Política Social da Prefeitura, Barbosa Júnior, fez a defesa do projeto que será implementado pela Prefeitura. De acordo com ele, o local não foi uma escolha isolada, mas partiu de uma orientação técnica, através do Ministério de Desenvolvimento Social, que repassa os recursos.
"A área central foi uma exigência do Governo Federal. Nós íamos fazer no Espaço Mascarenhas, mas as reformas que precisaríamos fazer deixariam o projeto muito caro", explicou o secretário, em uma resposta às críticas de que, no local onde será construído, na Rua Halfeld, próximo à Praça da Estação, o restaurante não atenderia o público necessário.
Sindicato não concorda
No entanto, o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares, Restaurantes e
Similares de Juiz de Fora, Antônio Jorge Marques, que é pai do
vereador Antônio Jorge, contesta a versão de Barbosa Júnior. Além de
questionar a falta de diálogo, ele reclama que o estabelecimento, onde está
previsto, irá prejudicar os restaurantes menores.
"O poder público de Juiz de fora ou tem vergonha de aceitar sugestões ou
acha que está acima de tudo, e não quer escutar os segmentos da sociedade,
principalmente aquele que será afetado, como os pequenos restaurantes, que
vendem refeições a R$ 3 ou R$ 4. Eles são pagadores de impostos, dão
empregos e precisam ser ouvidos. Eu como presidente da categoria sou
favorável ao restaurante popular, mas faço uma restrição ao local, pois
parece que ele não foi nada discutido com ninguém", reclamou.
Em relação ao local, o vereador Antônio Jorge chegou a levantar outras
possibilidades, como a criação de pontos que iriam atingir as classes mais
carentes.
"Temos que fazer melhor essa distribuição, como em outros lugares. Se o restaurante vai oferecer 3.000 refeições, porque não centralizar apenas 1.000 e oferecer as outras duas mil descentralizadas, nos centros regionais ou mesmo no terminal do Sitt (Sistema Integrado de Transporte Troncalizado)? Aí nós poderíamos oferecer a realmente quem precisa e diminuindo os impactos", explicou, lembrando o exemplo do restaurante popular instalado em Venda Nova, exatamente nos pontos de transbordo de passageiros do transporte coletivo.
O subsecretário de Fomento, Indústria , Comércio e Turismo da Prefeitura,
Júlio Gasparette, lembrou que o local receberá um volume maior de
pessoas com a instalação do Shopping Popular e posterior construção do
Prédio da Câmara e do Fórum próximos à área. Com isso ele avalia que o local
é apropriado para receber o restaurante.
O público-alvo
Mas além da discussão específica do lugar onde será instalado, outra questão
tem tirado o sono dos proprietários de restaurantes e também de
alguns vereadores. É a definição do público-alvo do restaurante. Enquanto
Antônio Jorge defende que haja uma "discriminação positiva", com uma
delimitação de quem realmente precisa ser atendido pelo restaurante popular,
a maioria de seus colegas discorda e dá como exemplo outras iniciativas
públicas e que podem ser usadas por todos.
Antônio Jorge explica que em Belo Horizonte, de 30% a 40% das pessoas que usam o restaurante popular não precisam do serviço e acabam subtraindo direitos de pessoas que realmente precisam do local. Mas há quem discorde dessa visão.
"Sou contra padronizar o público alvo do restaurante. Ou então não vamos poder mais andar de ônibus. Só de táxi, porque temos uma condição financeira melhor. Não vamos poder ir para os espetáculos públicos que são subsidiados com recursos públicos. Não concordo com esse tipo de exclusão. O restaurante deve ser para quem tem fome e R$ 1 no bolso", defendeu o ex-vereador Rogério Ghedin, hoje subsecretário de Promoção e Cidadania da Prefeitura.
A posição foi parecida com a do vereador Pastor Carlos (PTB), que
também considera uma discriminação definir um público-alvo para o
restaurante. Além disso ele rechaçou a idéia de alguns comerciantes de que o
Restaurante Popular fosse levado para um bairro para que atenda apenas a um
público específico.
"Se for assim a UFJF tem que ir lá para Benfica, pois tem muita gente de lá que estuda na UFJF. Todos têm direito, tendo ou não tendo dinheiro para comprar as refeições", disse o vereador, que é do partido do prefeito Alberto Bejani.
Mão-de-obra
Durante a defesa do projeto, o secretário de Política Social da Prefeitura,
Barbosa Júnior, salientou que além da importância principal, o restaurante
ainda irá gerar postos de trabalho. De acordo com ele, as conversas estão
avançando no sentido de uma parceria com a Amac, para que a associação
qualifique pessoas para trabalhar no local. Segundo ele, estima-se que
sejam criadas, inicialmente, 30 vagas com a implantação do restaurante.
Pesquisa
Na audiência pública realizada na Câmara, o vereador Antônio Jorge
apresentou os resultados de uma pesquisa feita em conjunto com o Sindicato
de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora. Na consulta,
feita com 91 donos de estabelecimentos na cidade, 64,83% dos donos de
restaurantes disseram que acham que serão prejudicados pela instalação do
restaurante popular no Centro.
A maioria dos estabelecimentos onde foi realizada a consulta oferece refeições entre R$ 2,50 e R$ 4. É nessa faixa que está a maioria dos proprietários preocupados com a instalação do restaurante popular. Quarenta e dois donos de restaurantes nessa faixa, ou 68,85% dos entrevistados, temem a instalação da unidade.
A pesquisa apresenta ainda os números do setor de restaurantes na cidade. De acordo com a consulta, são oferecidas em média 9.923 refeições/dia em Juiz de Fora, nos restaurantes que empregam 737 funcionários. Desses, 33,82% estão nos restaurantes que fornecem refeições com preço inferior a R$ 4. A pesquisa foi realizada entre os dias 21 de novembro e 9 de dezembro de 2005.
ATENÇÃO: o resultado desta enquete não tem valor
de amostragem científica e se refere apenas a um grupo de
visitantes do Portal ACESSA.com.
