Andar pela imponente casa do Forum da Cultura é mais do que viajar no tempo, é sentir ao pisar degrau por degrau de suas escadas quase centenárias parte da história de Juiz de Fora e porque não dizer da história mundial.
Pois é lá que o Grupo de Teatro Divulgação, que completou 41 anos de fundação no mês de julho, apresenta suas peças teatrais desde 1972. Um patrimônio da cidade, assim como a casa.
Antes de conquistar seu próprio espaço, o grupo encenou em diversos locais. O início, como não poderia ser diferente, foi de aprendizado, mas um aprendizado de quem teve que nascer já sabendo driblar. Foi assim, em plena ditadura militar que o Divulgação começou a mostrar todo o seu serviço.
"Foi uma época de saber jogar xadrez com a censura. A princípio nosso trabalho
foi bastante nômade. Conseguimos esse espaço (Forum da Cultura) depois de ficarmos
cinco anos no nomadismo"
, conta José Luiz Ribeiro, diretor do Grupo,
jornalista e professor universitário.
Tudo começou no dia 7 de julho de 1966, data da primeira peça
apresentada, "Amor em verso e Canção", realizada no salão do Instituto
Cândido Tostes, sendo os versos de Cecília Meireles os primeiros a serem declamados
pelo grupo. "Eu canto porque o instante existe e minha vida está completa /Não sou
alegre nem sou triste/ Sou poeta".
"O grupo chega aos 41 anos comemorando muito pioneirismo, mas principalmente
com aquele pensamento inicial, mede-se a cultura de um povo pelo seu teatro,
foi uma meta a ser cumprida e inegavelmente Juiz de Fora, hoje, é uma cidade que
respira teatro"
, afirma José Luiz.
"Mesmo que eu faça uma
peça grega, eu a faço com um olhar contemporâneo"
. Assim Zé Luiz, como é carinhosamente
conhecido, define uma das principais características do Divulgação que retrata todo e qualquer tipo de
polêmica, seja político, religioso ou social, de uma forma nua e crua. "O teatro penetra"
, filosofa.
A peça "Bodas de Sangue", de Frederico Garcia Lorca, grande inspirador do grupo,
firmou o Divulgação no cenário cultural de Juiz de Fora
e passou a ser modelo para o grupo, que aos poucos conseguiu sua maior
conquista, a popularização do teatro na cidade. "Hoje contamos
com mais de 200 núcleos de teatro. No começo,
não havia negros na platéia", lembra Zé Luis.
Se a década de 1960 foi de aprendizado, a de 1970 foi de alçar vôos mais altos com viagens, participações em festivais e a conquista do espaço do Fórum da Cultura. Em 1980, o grupo já passou a ser referência e tinha início o projeto de popularização do teatro, comunidades carentes e escolas públicas começaram a acompanhar gratuitamente suas peças, com os projetos "O povo vai ao teatro" e "A escola vai ao teatro", hoje integrados como "Escola do Espectador".
A década de 1990 foi o auge de apresentações. "Foi um momento que a gente
enlouqueceu, foram 122 espetáculos num mesmo ano"
.
A primeira década do novo milênio traz todo um trabalho junto à sociedade, com
vários projetos de extensão, como a Escola de espectadores; Centro de Estudos Teatrais -
Cursos e oficinas; Curso para Universitários,
Workshop de interpretação para a 3ª idade e Seminário "Os Caminhos do teatro".
"Nós nos tornamos um
modelo. E o mais importante dessa conquista, deixamos para a comunidade, uma história
de pioneirismo. Eu costumo dizer que o teatro é um elemento divinatório,
é uma forma de estar com Deus"
, diz Zé Luiz, que tem como sonho a criação de um curso
de Artes Cênicas na cidade.
*Guilherme Oliveira é estudante de Comunicação Social da UFJF