Cidade

E agora? Prisão de Bejani provoca dúvidas sobre o cenário político
na cidade em ano de eleição municipal



Priscila Magalhães
Repórter
17/04/2008

"O jogo está menos claro que há algumas semanas". É o que diz o cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Paulo Roberto Figueira Leal (foto abaixo), sobre a prisão do Prefeito Alberto Bejani, na última quarta-feira, 09 de abril.

Para ele, as indefinições, que ainda existiam, se aprofundaram com o acontecimento. Isso porque onde há um prefeito disputando a reeleição, ele passa a ser o elemento mais relevante da cena eleitoral, sendo mais forte ou não. "Todos os outros candidatos passam a se posicionar em função da presença dele", explica Paulo.

Agora, os juizforanos se perguntam o que vai acontecer. Existem duas conseqüências a curto prazo. A primeira seria o fato de Bejani não disputar as eleições municipais neste ano e a outra o de ele tentar a reeleição, porém enfraquecido. "Se o caso for o primeiro, para onde vão os votos que seriam dele? Afinal, ele tem um vínculo com uma parcela do eleitorado", explica, fazendo outro questionamento. "Quem se beneficia mais dessa situação? Quem o criticou até o momento ou quem disputou o segundo turno nas últimas eleições?".

Foto de Paulo Se uma das duas opções acontecer, vai haver mudança no cenário. Paulo explica que vão acontecer outros acordos e rumos de conversa. "Quem não ia se candidatar, pode concorrer agora. O fato é que há poucas certezas quanto ao quadro sucessório. É uma incógnita". Sobre a carreira do Prefeito, ele diz que o acontecimento não mostra que ela acabou. "É prematuro dizer isso", completa, levando em consideração os exemplos de pessoas que voltaram a cena política, como Paulo Maluf e Fernando Collor de Mello. "Há um eleitorado fiel".

Em Juiz de Fora, o eleitor está focado na relação personalista, o que impede a consolidação dos partidos. "Os eleitores votam no candidato, por isso, têm mais vínculos com ele, do que com os partidos", explica (leia matéria sobre pesquisa de eleitores). Além disso, os eleitores juizforanos têm a tendência de votar na esquerda, quando é o caso de eleições para presidente, o que não acontece nas municipais. "Aqui é o contrário, comprovado pelo fato de ter apenas um vereador do PT".

A longo prazo, também há conseqüências para a cidade, como o afastamento dos eleitores da política, já que mais uma vez ela foi associada a crimes e corrupção. "Isso dá a impressão de que ela deve ser evitada, pois são práticas condenáveis". Paulo não avalia esse afastamento como um fato positivo. "É ruim, pois precisa haver mais gente participando".

Protestos

Manifestações da população têm acontecido em Juiz de Fora desde a prisão de Bejani, no dia 09 de abril. Entidades civis organizadas usam faixas, apitos e pedem o afastamento do Prefeito. Para Paulo, essa mobilização popular é salutar, produzida pela indignação. "Ela é bem-vinda e mostra que há forças vivas, que não sejam as partidárias. A cobrança é um ato de democracia", diz.

Foto de Protesto Foto de Protesto

A revolta dos juizforanos é explicada pela quantia em dinheiro, R$ 1 milhão 120 mil, encontrada na casa de Bejani. Segundo Paulo, há precedentes que mostram que a imagem do dinheiro contribui para a queda de popularidade. "Essa imagem tem peso eleitoral mais significativo. Ela causa desconforto em quem luta para conseguir o mínimo".

Os protestos também mostram que não é possível negligenciar o episódio, o que faz Paulo Roberto avaliar que a cidade está abalada. "Temos um prefeito preso, no exercício de seu mandato. A sociedade está interessada em saber mais sobre o caso". Para ele, a Prefeitura, enquanto instituição, também se encontra dessa forma. "O chefe do Executivo está ocupando uma cela. Por causa disso, mesmo que o atendimento diário esteja acontecendo normalmente, os projetos a longo prazo acabam ficando parados", completa.

Foto do Dinheiro Foto de Protesto na Câmara

O palco principal para o movimento é a Câmara Municipal, que tem a responsabilidade de investigar a participação do Prefeito na denúncia de desvios de verba do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e enriquecimento ilícito. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instaurada para apurar os fatos. Paulo Roberto diz que pode haver mudanças de comportamento entre os vereadores.

"A Prefeitura sempre teve maioria na Câmara e agora tudo vai depender do comportamento dos vereadores de situação. Segundo Paulo, os que quiserem salvar a reeleição vão buscar um afastamento com o Prefeito. "Os que permanecerem fiéis ao governo, vão sofrer um desgaste", prevê.