Cidade

Vereadores votam contra suspensão de benefícios Por 14 votos a quatro, Câmara derruba projeto de lei que propunha o fim do pagamento do 14º e 15º salários e da remuneração por sessão extra


Guilherme Arêas
Repórter
20/2/2009

Mesmo após diversas manifestações da sociedade civil favoráveis ao fim dos benefícios recebidos pelos vereadores juizforanos, a Câmara Municipal reprovou o projeto de lei de autoria do vereador Wanderson Castelar (PT), que pedia o fim do pagamento da ajuda de custo e da remuneração por sessão extra recebida pelos parlamentares. Votada em uma sessão pouco prestigiada devido ao Carnaval, a proposta foi derrubada por 14 votos a quatro (veja os detalhes no quadro abaixo), na manhã desta sexta-feira, 20 de fevereiro.

De acordo com o relator, o plenário recebeu o pedido de vistas e de interrupção da votação, mas os artifícios de adiamento também são votados e acabaram negados pelos parlamentares.

"Confesso que eu subestimei a coragem dos vereadores em afrontar a vontade de toda a cidade. Mas realmente eu não tinha esperanças de que o projeto fosse aprovado em uma sessão vazia como a de hoje", refletiu o vereador.

Único a abrir mão do que chamou de "verbas imorais", mesmo com a reprovação do projeto, Castelar afirma que não vai abandonar a ideia de reduzir os pagamentos extras dos vereadores. "É uma vergonha. Nenhum parlamento que se preze pode dar esse tipo de tratamento a uma questão que despertou tanto interesse público. Mas, passado o Carnaval, vamos convocar os movimentos sociais da cidade para discutirmos como esta luta pode ser travada daqui para frente."

Segundo o petista, com a primeira derrota da oposição na atual administração, um movimento municipal nos moldes da ONG Transparência Brasil pode ser implementado em Juiz de Fora para acompanhar o uso do dinheiro público pelos poderes da cidade.

Fim da ajuda de custo e da
remuneração por sessão extra

Contra

A favor
Ana do Padre Frederico (PDT)
Tico-Tico (PP)
Carlos Cesár Bonifácio (PRB)
Chico Evangelista (PP)
Isauro Calais (PMN)
João do Joaninho (DEM)
José Emanuel (PSC)
José Laerte (PSDB)
José Sóter Figueirôa (PMDB)
José Tarcísio Furtado (PTC)
Júlio Gasparette (PMDB)
Dr. Luiz Carlos (PTC)
Noraldino Júnior (PSC)
Rodrigo Mattos (PSDB)
Wanderson Castelar (PT)
Betão (PT)
Flávio Cheker (PT)
Fiorilo (PDT)

Aos 92 anos de idade, o representante do Movimento Popular Pró-Moralização no Poder Legislativo, José Lopes Filho, se mostrou decepcionado com a reprovação do projeto, apesar de já esperar a rejeição dos parlamentares juizforanos.

"Os nomes desses cidadãos devem ficar permanentemente citados até o final deste mandato, dizendo quais foram os que votaram contra. Eles não tiveram nem a hombridade de abrir mão do benefício para ser destinado a uma instituição de caridade", avalia.

Como presidente da Câmara, o vereador Bruno Siqueira não votou no projeto e não quis opinar sobre a proposta. "Nós respeitamos a votação dos vereadores e acreditamos que o assunto sempre deve ser debatido nos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, para que os salários e gastos dos poderes sejam os mais transparentes possíveis."

Entenda a proposta

A proposta de Wanderson Castelar elimina o pagamento da chamada "ajuda de custo", remuneração que beneficia cada vereador com dois salários extras, um no mês de dezembro e outro em janeiro. Atualmente, o subsídio mensal dos vereadores em Juiz de Fora é de R$ 9.288,05.

O projeto também propõe acabar com o pagamento por sessões extras, que podem chegar a quatro por mês. Cada sessão extraordinária coloca R$ 928,75 a mais no bolso dos vereadores. Ao final de um mês, cada um deles pode ter um acréscimo de R$ 3.715.

Em um ano, somando-se os pagamentos do 14º e 15º salários, a remuneração por quatro sessões extras mensais e as despesas reembolsáveis mensais (no valor de R$ 5.382,27), cada parlamentar embolsa a quantia de R$ 248.487,99.

Por que o projeto foi derrubado?

O Portal ACESSA.com tentou entrar em contato com todos os vereadores que votaram contra a proposta, mas boa parte não estava nos gabinetes da Câmara Municipal. Veja a justificativa de alguns parlamentares.

Nós estamos seguindo o que faz a Assembleia e o Congresso. Quando nós chegamos, esses benefícios já existiam. Acho que foi muito precipitado o vereador apresentar um projeto desse no primeiro dia de trabalho. Cada um tem uma posição e eu me posicionei contra o projeto.

Pastor Carlos (PRB)

Eu sou contra essas vantagens do 14º e 15º. Acho que o vereador tem que ganhar o salário real. Mas o que nós recebemos é determinado por lei e tem base no salário que o deputado estadual recebe. Eu não escolhi receber esse salário.

Tico-Tico (PP)

Desde o meu outro mandato eu faço um trabalho social com dois carros - uma Kombi e um Gol - para transportar pacientes que fazem tratamento de saúde. Se eu voto a favor do projeto do Castelar, eu não consigo continuar o meu projeto social.

João do Joaninho (DEM)

Eu não sou contra o projeto. Toda ação que promova a autocrítica do poder Legislativo é válida. Mas acho que há um equívoco no projeto do Castelar. Não estou preocupado com 14º ou 15º, por mais que isso possa incomodar. Os funcionários do Banco do Brasil e os promotores recebem 15º. Isso é imoral? Claro que não. Isso é fruto de luta da categoria.

A questão central é a seguinte: o salário do vereador é justo? Eu considero justo. Sou favorável à equiparação salarial entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Acho que o salário do vereador deve se aproximar do salário de um secretário municipal, que acredito ser de R$ 12 mil ou R$ 13 mil.

Figueirôa (PMDB)

Na minha opinião esse projeto é oportunista. O Castelar está querendo se diferenciar dos demais vereadores, sabendo que essa proposta não teria uma boa repercussão na Câmara e seria muito comentada pela opinião pública. Não acho que os salários dos vereadores sejam abusivos. Muitas empresas pagam mais do que o 13º salário. Essa polêmica toda ascende da baixa remuneração recebida pelos trabalhadores. A responsabilidade dos vereadores é muito grande e eles devem ter uma boa remuneração para se dedicarem somente a este trabalho.

Rodrigo Mattos (PSDB)

Os textos são revisados por Madalena Fernandes