Em nome de Yhwh Literatura

Fotomontagem de uma bíblia: Laura Martins Ferreira / ACESSA.com Há tempos o tema vem me coçando a língua e assanhando as células cinzentas. Por diversas vezes, eu pensei: é hoje. Ajeitei-me na cadeira, armei-me do bloco de papel rabiscado com anotações, e preparei o Word. Digitei o título Em nome de Yhwh (leia-se Javé) e pus-me a fitá-lo, longamente, enquanto procurava as palavras para a primeira frase que deflagraria a cascata de idéias sobre o delicado assunto.

Yhwh é o nome que identificava o deus dos judeus ou hebreus.

Como todos os deuses da antiguidade, este também tinha um nome, quando as terras de Israel eram um deserto só, e o seu povo errante sobrevivia temendo os trovões e relâmpagos, que eram uma forma divina de transmitir as iras e contrariedades dos seres divinos aos seus povos.

Após os capítulos iniciais do Antigo Testamento, Yhwh adquire o status de Deus, com a inicial maiúscula, e assim passa a ser citado nas epopéias religiosas que se seguem, temido e reverenciado pelos personagens, que desfilarão em suas páginas até o advento de Cristo. Muitos terão acesso direto a Ele (Noé, Abraão e Moisés), conversarão, discutirão, anotarão suas instruções técnicas, como a de construir um transatlântico, denominado Arca de Noé, feito de madeira e de barro, para enfrentar um dilúvio que arrasou com a Terra.

Entretanto, ruminando essas idéias e encarando o vazio da tela branca, pronta para ser preenchida, eu relutava e a coisa se repetia: não, ainda não é hora de mexer nesse vespeiro. "Não tomarás o Seu santo nome em vão!" - eram palavras ameaçadoras que ecoavam na minha cachola, trazendo à tona as primeiras lições de catecismo na Igreja de São Roque.

E, resignadamente, ou fechava o computador ou atacava com outros temas como, por exemplo, a agressão dos maus comerciantes à rua Halfeld ou sobre o relógio estragado da antiga sede da Prefeitura, minhas duas últimas crônicas, como os meus dez ou onze leitores devem se lembrar.

Turma do Chaves. Foto: Divulgação Até que, madrugada dessas, despertado por um pesadelo às quatro horas, bateu a insônia, e liguei a TV, em busca do sonífero que me fizesse retornar ao sono dos justos. Na Globo, para variar, era um telefilme horroroso. Pulei para o SBT e deixei-me ficar por um tempo atraído por Chaves - não o controverso presidente venezuelano (este é Chavez), mas o comediante mexicano e seus companheiros: Quico, Chiquinha, seu Madruga, professor Girafalis, dona Florinda, seu Barriga etc. (Eis um bom exemplo de um besteirol infantil inocente, engraçado, sem apelações, diversão sem efeitos colaterais).

Veio o intervalo, mudei de canal, e dei de cara com um pastor evangélico que realizava milagres por atacado. Sujeito corpulento, engravatado e sem paletó, ele pedia aos fiéis com dores nas costas que pusessem a mão no local dolorido. Um grupo atendeu. O pastor, então, orou e logo todos estavam curados. Em seguida, foi a vez dos que tinham dores de cabeça. Novamente, mãos levantadas, novas orações e, vapt- vupt! as dores sumiram. E assim a coisa se repetiu com todo tipo de incômodos físicos e enfermidades, que desapareciam diante das ordens do pastor.

O show da fé prosseguiu com uma senhora idosa sendo erguida de uma cadeira de rodas por duas pessoas, enquanto o pastor a encorajava: "Vamos, ande. Viu, olh'ai, gente, o que Cristo é capaz!" E a mulher a muito custo, expressão dolorida, meio que empurrada, firmava aqui e ali os pés trêmulos no chão, e o povo exultava: Aleluia! Aleluia! Levada até o palco, novamente a cena se repetiu com as duas pessoas a sustentando para que desse os passos. Depois, desceram-na do palco, e não foi mais focalizada, ao contrário do que aconteceria se ela tivesse saído saltitante corredor afora. Claro que os câmeras não perderiam a cena, que revelaria bem a capacidade do pastor em reverter mais um caso perdido da medicina.

Pelo que conta a Bíblia, Cristo não realizou tantos milagres ao longo dos poucos anos conhecidos dos 33 vividos, quanto aquele pastor num pedaço de tempo, cerca de cinco a dez minutos, dos quais eu fui testemunha, meus irmãos, minhas irmãs. Mais surpreendente do que os milagres era a naturalidade com que o pastor dirigia a sessão. Fazer milagres para ele era tão corriqueiro quanto um dentista estancar a dor de dente de um cliente. Entretanto, justiça seja feita à sua modéstia, ele deixava claro que não era ele quem realizava os milagres. Ele era apenas intermediário de Deus e de seu filho Jesus.

Fotomontagem de crucifixo: Laura Martins Ferreira / ACESSA.com Amém? Amém! - concordavam os fiéis.

Incomodado com tanta ingenuidade da platéia que lotava o templo e impressionado com o carisma do pastor que hipnotizava-a a ponto de extrair delas tudo o que fosse possível, voltei para o Chaves. Mas no intervalo seguinte, não resisti e cliquei novamente no show dos milagres a granel, com um pensamento: esse cara só falta fazer defunto ressuscitar. Pois é aí que entra o mais surpreendente dessa história. O pastor dava vivas ao testemunho de uma fiel na platéia revelando a ressurreição de um parente, graças aos apelos feitos por ela a Cristo naquela igreja. Ali estava ao lado dela, uma pessoa, expressão abatida, sorriso tímido, que fora considerada morta pela Medicina e voltara a respirar e pulara da cama para a vida e alegria dos que a rodeavam. Aleluia! Na platéia, surgiram rostos contorcidos de emoção, beirando o histerismo, alguns derramando lágrimas, as mãos erguidas gritando graças a Deus.

O pastor sorria e urrava - esta é a expressão - urrava ao microfone louvando a sua igreja (dele, pastor) que, a essa altura, deixara todas as outras concorrentes no chinelo, em matéria de produção de milagres! Qual outra ousara façanha maior? Acabar com dor nas costas, espinhela caída, bronquite crônica, frieira, hemorróidas, torcicolo, hepatite, inchaço nos pés, tudo isso passa a ser, de agora em diante, fichinha perto de uma ressurreição.

Meus irmãos, minhas irmãs, eu fui testemunha pela TV do maior fenômeno paranormal da história da Humanidade, desde a ressurreição de Lázaro por Cristo, há dois mil anos e lá vai fumaça. E a coisa ocorreu numa madrugada, na RedeTV, por volta das cinco da matina. A catarse coletiva ainda durou mais um tempo até que surgiu um letreiro lembrando e instruindo os fiéis como depositar o dízimo para a igreja, e o programa se encerrou.

Passei a não duvidar mais do que acontece no interior dos templos das igrejas evangélicas fundadas recentemente - digamos de uns 30 anos para cá. Nada mais me surpreenderá - nem mesmo se o próprio Jesus Cristo surgir em uma delas, vindo do espaço, pousando lentamente sobre o palco, onde o pastor o acolherá com um abraço e o apresentará aos fiéis, pedindo uma salva de palmas.

Tudo isso, naturalmente, sob as bênçãos de Yhwh.

Colunista
Ivanir Yazbeck é jornalista e escritor.
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