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    Quer casar comigo?

    Carolina FelletCarolina Fellet 18/03/2017

    Ainda bem que meu namorado me conheceu no trabalho. Fosse numa balada, vencida a ilusão de ótica e a labirintite provisória causadas pelo jogo de luzes e teor alcoólico desses lugares, o que se sucederia caso ele me visse uma segunda vez fazendo compras no supermercado, à paisana?

    Embora eu não seja esteta, os tempos são de supervitrines com pocket show da Rihanna em holograma, de festas infantis com proporções de show biz, de corpos com silicones, plásticas e recuos que seguem os regulamentos dos loteamentos urbanos, de dentição revestida de porcelanato e de expressão corporal da guarda britânica.

    Há muito a originalidade vem perdendo o protagonismo em todas as frentes, inclusive no amor. As relações acompanham um plano-sequência à la Dona Florinda e Professor Girafales, com ações e diálogos repetitivos e com um cronograma que contempla almoço de domingo na casa da sogra, cuecas fora do cesto capitaneando 10 discórdias por m², esposas entrando no cheque especial, maridos subestimando a magnitude dos efeitos da TPM e lua-de-mel nos resorts superbadalados do Nordeste, quando o momento pede o sigilo de uma prainha sem inscrição em mapa.

    São esses e outros fenômenos conjugais que nunca fizeram de casamento nenhum um case de sucesso. Pelo contrário, matrimônios carregam consigo o assombroso contorno do hábito. Do vocabulário à libido, no confinamento da união, quase tudo se converte no tédio massacrante das salas de espera. Casais que vivem sob os estatutos casamenteiros tradicionais parecem estar em constante busca pela escada de incêndio. Pela saída de emergência. Pelo vale-night. Pela transeunte curvilínea ou pelo vizinho que alcança os graves do Barry White quando proclama bom-dia.

    Bom mesmo é namorar. E existem evidências orgânicas que chancelam a minha afirmativa: ficamos à flor da pele (ou com a pele em flor?), o sorriso torna-se mais longevo, beija-se mais – e, por conseguinte, a musculatura facial se remexe feito aquela professora de zumba sempre animada, com disposição de Ivete Sangalo às 5h30 da manhã. No namoro, a cada fim de semana, a caminho da pizzaria ou hamburgueria, diante dos sinais vermelhos, experimenta-se uma modalidade nova de afago (às vezes ele até descamba para um episódio da vida selvagem do National Geographic), e sempre somos interrompidos pela buzina nada aristocrática do carro detrás, que nos devolve o juízo.

    De volta ao reservado, o criado-mudo ganha novas serventias, sendo o tabelião do nosso dialeto secreto, voyeur dos nosso trajes sumários, olfato do nosso hálito de morangos sintéticos ou tutti-frutti, cuja representatividade no mundo real faz-se por uma árvore que dá à luz mais de 40 frutos diferentes. Pelo rádio, Tom Jobim e Lionel Richie permanecem nos decibéis segunda voz, até que a gente atinja os alpes de nós mesmos, fazendo um gato com a eletricidade do outro.

    Enquanto, no recenseamento dos casados, fulgura um racionamento de energia, revelando o comedimento de quem insiste em manter o status quo até no reino tão variado do Amor. Ele que comporta sacerdotes confundindo os nomes dos esposos na eucaristia, mas perpetuando a tradição do “É de livre e espontânea vontade...?”, o poeta Gentileza sendo exumado na música da Marisa Monte, MC Marcinho se voluntariando para falar de amor, e Isabela Freitas codificando o nobre sentimento numa trilogia que virou best-seller e mininovela no Fantástico.

    Mesmo com tanta variável, Leo Jaime segue buscando a fórmula do amor.

    Carolina Fellet é jornalista. Mas, como só gosta de boas notícias, é inclinada à literatura e à música.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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