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    Viajar é bom, mas...

    Carolina Fellet Carolina Fellet 24/06/2017

    Woody Allen disse em uma entrevista que não gosta de viajar, pois a vida dele já segue estatuto próprio, com remédios em cima da geladeira, roupões no armário do banheiro e temperatura do quarto ajustada em escala particular. De repente, ter de empacotar tudo isso numa caixa não lhe agrada. Ariano Suassuna também não era simpático a distâncias; se o exterior fosse ao lado de Juazeiro, ele até visitaria.

    Em partes me filio a essa resistência. É claro que meus motivos são mais triviais, assim como eu. Chegar a um aeroporto, depois de três aviões, cinco fusos, dois idiomas e ser recebida por um cão farejador conduzido por um agente cujo semblante está longe de dizer “bem-vinda, miga”? Lamentável se comparado ao sorriso da mãezinha sempre acolhedor, mesmo com um remendo de amálgama no pré-molar esquerdo.

    Sem contar as filas que enfrentamos para fazer a validação de nós mesmos: é digital dos dez dedos, são os braços levantados para a revista policial, é a resposta ao interrogatório à la Sartre: de onde viemos e para onde iremos? Temos de provar que somos idôneos. Não importa se fomos o cliente do mês no restaurante do seu Jair; se recebemos cinco propostas de empréstimo na Caixa e se temos emoldurado o histórico escolar com EXCELENTE no item “comportamento em sala de aula”.

    Mas nem tudo é bad trip. Viajar é descobrir que exprimido de naranja é muito mais gostoso que orange juice. É ver vaquinhas de cachecol resguardando-se do frio na estrada que liga a Filadélfia a Washington DC. É ouvir um músico do Uzbequistão executando Tom Jobim no idioma local. É sair do perímetro de nossas conveniências e ver um comissário grego explicando em grego que máscaras cairão em caso de emergência.

    Viajar é percorrer roteiros de Suassuna e Woody Allen a bordo do nosso próprio corpo – esta multimídia orgânica mais avançada que a mais avançada das tecnologias, como diria Caetano. E regressar semiperito em filosofia, geografia, música, arqueologia, sabedoria popular e com uns mililitros a menos e algumas gargalhadas a mais.


    Carolina Fellet é jornalista. Mas, como só gosta de boas notícias, é inclinada à literatura e à música.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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