Sociedade Beneficente Sopa dos Pobres Refeições para carentes e moradores de rua distribuídas há quase cem anos em Juiz de Fora
Repórter
04/01/2006
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"Dona Terezinha abre a cozinha!"
É com essa brincadeira que a funcionária
mais antiga da Sociedade Sopa dos Pobres, Tereza de Lima Ribeiro,
sabe quando já é hora de abrir as portas para
servir o almoço. A senhora, que trabalha na instituição desde 1989, diz que,
muitas vezes, ocupada com seus afazeres no interior da sede da sociedade,
não vê que já são 11h da manhã - hora que começa a ser servida a sopa.
Despertador pra não perder a hora? Que nada! Do lado de fora, a fila de mais
de cem pessoas que começa a se formar, solta o "grito de guerra" para
lembrar que já é hora de "matar a fome".
A distribuição da sopa acontece de segunda a sexta-feira, de 11h até o meio dia. O cardápio, variado, é supervisionado por uma nutricionista e depende do que há na "dispensa". Junto com a sopa, que pode ser repetida quantas vezes o beneficiado quiser, são servidos pães que também são oferecidos à quem queira levar para casa para outra refeição.
Todos os dias, mais de 150 pessoas almoçam na instituição, mas de acordo com
os funcionários, esse número chega a 250 em determinadas épocas do ano. Os
quatro dias de carnaval são exemplo do aumento no número de refeições
servidas. "Nessa época aumenta muito o número de andarilhos na cidade. E
estamos aqui para recebê-los"
, exemplifica Dona Terezinha.
Para provar das sopas, basta entrar, pegar seu prato e se sentar. Não há
nenhum tipo de cadastro de beneficiados, o que, de acordo com a presidente
da sociedade Vanda Fonseca Coelho foi determinado para que nunca
ninguém com fome fosse barrado na porta. "Para muitos, a sopa servida pela
instituição no horário do almoço é a única refeição do dia"
, destaca.
De geração para geração
Tereza Marcelina da Silva (foto) almoça diariamente há mais de 20
anos na Sopa dos Pobres. Ela que vinha com a mãe para fazer a refeição
diária agora traz a filha Ana Paula, de oito anos, para matar a fome do
meio do dia.
"Fui criada com essa sopa, porque minha mãe não tinha muitas
condições. Agora a minha filha está crescendo por causa dessa ajuda, porque
continuamos com muitas dificuldades"
, afirma.
As duas adoram a refeição ou "o tempero da Tia Terezinha" como diz Ana Paula, que se sente em casa dentro da cozinha onde é servida a sopa. Ela brinca, senta em várias mesas diferentes, cumprimenta todos e tem acesso até à cozinha das "tias".
Ana Paula almoça na instituição desde os seis meses de idade, quando a sopa tomou o lugar do leite materno da mãe. Almoço com arroz e feijão, cardápio diferente do que a sociedade oferece, ela diz que foram poucas vezes na vida.
Roupas e sapatos
A Sopa dos Pobres também oferece ajuda na forma de distribuição de roupas e sapatos para os mais carentes. À medida que esse tipo de doação é recebida pela instituição, a distribuição é feita.
Na cozinha onde são servidas as refeições é montado um mini standing onde as peças de roupas, sapatos ou objetos recolhidos são colocados à disposição de quem freqüenta a Sopa dos Pobres. Quem precisa vai até o local e pega, como afirma a presidente da instituição "sem ter que se constranger com os funcionários, repartindo com eles quais são as suas necessidades".
O começo de tudo
A Sociedade Sopa dos Pobres foi fundada em 1910 pelo casal Ludgero e Alcides Guimarães Moreira. A idéia de implantar uma instituição de caridade surgiu nas comemorações do aniversário de sua filha Dulce Guimarães, única mulher entre os filhos do casal. Todos os anos, para comemorar o aniversário de Dulce, Ludgero e Alcides faziam a distribuição de cachorros quentes a crianças de rua da cidade.
Felizes com o resultado que obtinham dessa comemorações, resolveram fundar uma instituição, que, aos sábados, pudésse oferecer comida de qualidade para moradores de rua de Juiz de Fora.
Todos os sábados, o casal e mais três colegas saíam na parte da manhã pelas ruas, em busca de comerciantes que pudéssem contribuir com os alimentos para a realização do almoço. A idéia começou a tomar forma, e em menos de dois anos, eles ofereceriam mais de 60 refeições aos pobres e moradores de rua da cidade.
A distribuição aos sábados continuou até 1931, quando a instituição foi
registrada e passou a funcionar durante toda a semana. Um amigo da casal, o
juizforano Jésus de Oliveira, doou uma de suas propriedades que foi
transformada em sede, lugar onde até hoje funciona a distribuição das
refeições.
Em 1931 também aconteceu a mudança do que era oferecido no almoço dos beneficiados. A sopa, um tipo de refeição menos dispendiosa e que, por esse motivo, possibilitava que mais pessoas pudessem ser atendidas, entrou no cardápio no lugar do arroz e do feijão.
Como ajudar
A
Sociedade Beneficente Sopa dos Pobres é mantida com contribuições de
juizforanos. A população local e os empresários da cidade são os únicos
responsáveis pela manutenção da Sopa dos Pobres desde a sua fundação.
Em dezembro de 2005, a sede da instituição passou pela primeira reforma, que foi viabilizada através de uma parceria realizada com o comércio local. Nesse mês de reforma, a Sopa dos Pobres foi transferida para a rua Silva Jardim, para não interromper a distribuição da comida.
De acordo com a presidente da instituição, Vanda Fonseca, toda ajuda é muito válida para a manutenção da distribuição da sopa. Alimentos, dinheiro, roupas, sapatos ou ajuda humana. Tudo vai ser aproveitado.
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