"Em Juiz de Fora cego não pede esmola"
. É este o lema
da Associação dos Cegos de Juiz de Fora que desde 1939 busca
a inclusão dos cegos.
As pessoas com algum tipo de deficiência visual aprendem a se locomover nas ruas da cidade, a usar banheiro, sala e
cozinha, a ler e escrever em braile, têm consultas gratuitas com
oftalmologistas, aprendem a fazer artesanatos,
cursar informática
e também ganham apoio para fazer curso superior e ingressar no mercado de trabalho.
A maior conquista dos cegos é a independência. Para o deficiente visual
José Luiz Souza Silva uma oportunidade única na vida. "A associação foi
essencial para mim, porque, graças ao trabalho dela, poderei ter uma profissão"
,
conta. José já faz sua monografia de conclusão do curso de história, em uma Universidade
de Juiz de Fora e deve se formar em dezembro.
A realização do sonho só foi possível graças a um projeto da entidade. As faculdades enviam os livros e textos para associação, que imprime todo material em braile, através de duas impressoras especiais, doadas para instituição, cada uma no valor aproximado de R$ 26 mil. Quando isso não é feito, professores voluntários gravam os livros ou textos em uma fita cassete e os alunos podem acompanhar as aulas através dela.
Atualmente, a Associação dos Cegos está com dez pessoas com deficiência visual
inseridas nesse projeto.
O número só não é maior por dificuldades financeiras, mas, como explica o
presidente
da Instituição,
Lucas Diniz Chaves esse é o foco
da Associação. "Eles são todos pessoas normais e merecem essa oportunidade.
Assim que estivermos com a situação financeira em dia, voltaremos boa parte
dos nossos recursos para essa área. Eles têm que se formar e passar em concurso
público. Essa é a melhor alternativa para se reinserirem no mercado"
,
destaca.
Outra oportunidade aparece através do projeto Visão no Esporte. A instituição oferece treinamentos em atletismo (foto acima), goolball, dança e estimulação para os cegos. Alguns desses atletas já participaram das Corridas Rústicas de Juiz de Fora e já até faturaram suas medalhas.
Para as aulas de Atividades de Vida Diárias (AVD) não há limites de
vagas. Os interessados devem procurar a entidade e se inscrever para
o curso que acontece em um cenário (foto acima) de sala, cozinha e banheiro montado dentro
da instituição. "Esse é o primeiro passo para torná-los independentes. É
nesse momento que eles aprendem a tomar banho sozinho, a fazer algo para comer e
a se virar dentro de casa"
, relata Lucas.
Não há limite de vagas também para as aulas de artesanato. Já para ser alfabetizado
no braile (foto acima, à esquerda) e aprender a se locomover nas ruas da cidade, os interessados devem
colocar o nome na lista. Isso acontece porque, ao contrário do AVD e artesanato,
as aulas são individuais e demandam mais professores. Mesmo assim, o serviço é
gratuito.
Além desses trabalhos oferecidos para toda a comunidade, a Associação tem um um dormitório masculino e um feminino, que abrigam 32 deficientes visuais. Segundo o presidente, se os recursos fossem maiores esse número poderia subir para quase 60. O cegos que vivem na entidade, geralmente são de cidades menores que não oferecem estrutura, ou com alguma doença mental quando a família não tem condições de cuidar.
Para Carlos Alberto Pereira (foto acima), de 32 anos, uma chance de ganhar respeito e
ser feliz. "Para mim a Associação é tudo. Aqui passei a ser respeitado,
conquistei diversos amigos, posso estudar. Lá fora a discriminação é muito
grande"
, destaca. Até uma banda ele montou. É a banda Nova Visão, na qual ele
é vocalista e canta "muita música sertaneja. Já tocamos em festa junina,
na praça Antônio Carlos, fizemos vários shows"
, se alegra Carlos.
Eles têm ainda assistência médica e fonoaudióloga, consultas oftalmológicas e óculos gratuitos com os aparatos da Associação. Na sede da Instituição há uma clínica de olhos que faz 80% dos atendimentos através do SUS, as consultas particulares e por plano de saúde são uma das formas de ter renda. Os que vivem no dormitório têm preferência no atendimento. Mas toda comunidade faz consultas, no papel de prevenção à cegueira também desenvolvido na Instituição (confira vídeo acima).
Há também uma ótica aberta ao público na instituição. Os pacientes que vão a clínica (foto acima, ao centro) através do Sistema Único de Saúde e não têm condições de pagar pelos óculos recebem armação gratuita. O espaço também é utilizado como fonte de renda da entidade.
Poucos sabem, mas seguindo a linha de prevenir, a Associação dos Cegos de Juiz de Fora é Centro de Referência de combate ao glaucoma. A doença que aumenta a pressão nos olhos pode causar a cegueira e não tem cura. A única forma de evitar maiores problemas é utilizar um colírio que dura pouco mais de um mês e chega a custar R$ 120.
Um tratamento caro e que, segundo Lucas, sai de graça através
da Associação. "Sendo centro de referência de glaucoma, recebemos do Ministério
da Saúde, todos os meses, a quantidade de colírio que for necessária para atender
a demanda em Juiz de Fora. Um ganho de extrema importância para a cidade e que
poucas pessoas conhecem"
, completa.
Chegando na Associação você vai encontrar uma entrada pequena, voltada para
um corredor comprido. O que quase ninguém imagina é que nessa sede há seis andares no
prédio principal e outros quatro andares em um segundo pavimento. Além disso, nos
fundos uma piscina já foi construída e uma pequena academia de ginástica também
está sendo implantada.
Todo o espaço já está ocupado pelas atividades da Associação. O objetivo é
transferir a ótica do segundo andar, para o térreo, em uma loja que tem porta
para Avenida dos Andradas. "Assim damos mais visibilidade e podemos ter mais
renda, aumentando a venda de óculos. E ainda ganhamos espaço para ampliar os
trabalhos, quartos e aparelhos da nossa clínica"
, completa Lucas.
*Thiago Werneck é estudante de jornalismo da UFJF