É grande o número de crianças em abrigos e a quantidade de casais querendo fazer a adoção, também. Porém, dois fatos contribuem para que o processo se torne demorado: o perfil procurado pelas famílias é quase sempre o mesmo e a maioria delas não têm preferência pelas crianças que estão abrigadas.
Segundo a assistente social judicial do setor técnico da vara da infância e juventude
da comarca de Juiz de Fora, Cláudia Martins Pinheiro, as famílias
procuram mais por crianças recém-nascidas, brancas e do sexo feminino.
"Em 97% dos casos a procura é por bebês e os outros 3% optam pela adoção de
crianças mais velhas"
, diz.
A adoção é considerada tardia a partir dos dois anos de idade. À medida que a criança
cresce, a dificuldade para encontrar uma família também aumenta. Porém, se engana quem pensa que o processo de adoção tardia acontece mais rápido por causa disso. "Não acho que o
processo para adotar uma criança mais
velha seja menos demorado. Se a pessoa já estiver inscrita, talvez seja
mais fácil mesmo, mas nestes casos temos o estado de convivência da criança com
a família, para adaptação, o que também exige tempo"
, acrescenta a assistente social.
Eliane Cristina Osti Pedrão (foto abaixo, à direita) e Cláudio Pedrão
pensavam na adoção
desde a época do namoro. "Nunca imaginei engravidar e quando nos casamos a adoção
se fez cada vez mais desejada. A maior dificuldade é a burocracia, o que faz o
tempo de espera ficar muito longo"
, diz Eliane.
O processo do casal teve início em 2003 e a adoção definitiva de Victória
Osti Pedrão (fotos abaixo)
só saiu dois anos e meio depois. Inicialmente, o cadastro era para um bebê de
até seis meses. "Mudamos de opção depois de passarmos por todo o processo, quando
tomamos conhecimento da adoção tardia. Então, decidimos que queríamos um filho
independente da idade e fomos abrindo o coração para uma criança maiorzinha"
,
explica.
Depois de optarem pela adoção tardia, Eliane e Claúdio não tiveram grandes dificuldades.
O contato com Victória foi muito tranqüilo. "Não tivemos nenhum
problema que o amor não tenha superado. Por já estar abrigada, ela ficou insegura
quanto ao fato de ser abandonada novamente"
, conta.
O psicólogo judicial do setor técnico da vara da infância e juventude
da comarca de Juiz de Fora, Sérgio da Silva Lopes, (foto ao lado) diz que esta
é uma questão muito
importante e bastante trabalhada durante o processo de adoção.
"Junto com a
análise psico-social trabalhamos as questões para diminuir a insegurança. Quando
a criança passa
algum tempo no abrigo, ela tem referências, já conhece uma realidade. O novo
é que assusta. Fazemos a passagem do abrigo para a família e este processo deve
ser gradativo. A criança passa alguns dias com os pais, depois as férias até que os
fantasmas vão caindo"
, explica.
Segundo Cláudia (foto ao lado), as pessoas escolhem um determinado perfil não por preconceito,
mas porque existe a cultura do sangue. "As crianças mais parecidas não provocam
estranhezas. Assim, a família tem a impressão biológica. Quanto aos bebês, eles
são mais escolhidos, por causa do sonho do trocar fralda"
.
O maior medo das pessoas em adotar uma criança mais velha é quanto à dificuldade
de cuidar e se adaptar.
"Existem muitos fantasmas com relação à história de vida e aos traumas daquela
criança. Mas os bebês também dão trabalho. Todo filho dá trabalho"
, explica
a assistente social. E completa. "Muitas pessoas perdem a chance de ver como
é bonita a adoção. O sangue é o que menos importa, pois toda criança deve ser
adotada, acolhida. Existem crianças abandonadas dentro de casa, sem afeição.
A adoção é definitiva"
.
Por isso, o mais importante é perceber se realmente existe desejo pela adoção.
"Antes de iniciar o processo deve-se ter certeza do desejo de se ter um filho.
Não se deve fazer uma adoção com a finalidade de substituir outro"
, diz o psicólogo.
Este também é o conselho que Eliane e Cláudio (foto ao lado) dão. "Um filho não é decisão para
apenas o homem ou a mulher. Os dois devem desejar e concordar com o momento
certo de ir em busca deste sonho. É importante ter consciência de que filho não
resolve crises conjugais e muito menos substitui a perda de algum
outro filho"
, diz ela.
Ela ainda ressalta a questão do preconceito. Ele existe, porque as pessoas fazem diferença
entre as crianças adotadas e as biológicas e também, porque a convivência com
estas crianças adotadas não é constante. "Realmente há uma grande diferença
entre alguns filhos biológicos e os adotivos, pois os
primeiros nem sempre foram planejados e desejados,
mas os adotivos sim, eles foram muito desejados,
aguardados e por fim amados de maneira mais intensa"
.
Depois que Victória passou a fazer parte do dia-a-dia do casal, muita coisa mudou.
"Costumamos
dizer que foi ela quem nos adotou, pois nos trouxe a
realização de sermos pais, amigos e companheiros.
Nos trouxe responsabilidades, aconchego e alegria de
viver. Tudo tem sido uma troca entre
nós onde o amor, o respeito e a confiança tem sido
fator predominante em nosso dia-a-dia, além da alegria
de termos constituído uma família feliz"
, completa Eliane.