Equilíbrio, força, velocidade e sorte. Características essenciais para atletas de diversos esportes e que hoje são imprescindíveis para um cadeirante de Juiz de Fora. As ruas estão repletas de rampas inadequadas: muito inclinadas, estreitas demais ou deterioradas.
Essas características inibem a independência dos portadores de necessidades especiais
que se locomovem com cadeiras de rodas. O equilíbrio fica comprometido
por conta de calçadas
inclinadas que podem provocar um tombo a qualquer momento. "Minha esposa não tem coragem
de empurrar minha cadeira na Rio Branco (confira o local de todas as ruas
em nosso
mapa) de tanto que eu tombo em direção ao asfalto.
É um absurdo"
, se indigna o engenheiro e cadeirante, Wellington
Lino Mendes Cavalcanti (foto abaixo).
Segundo Welington, a inclinação lateral de calçadas, mais
baixas do lado do asfalto e altas na parte dos edifícios estão fora dos
parâmetros do Código de Posturas do Município. "A própria prefeitura
não respeita o código e depois quer tirar nossas rampas das lojas. Tem que mudar
tudo aqui, de 1 a 10, minha nota é 2 para as condições de acessibilidade nas ruas
do centro da cidade"
.
A indignação de Wellington aumentou, quando os fiscais de posturas da prefeitura
exigiram a retirada
de rampas de acesso aos portadores de deficiência, de três grandes lojas do
centro da cidade. "Eles alegaram que elas invadiam as calçadas de forma irregular.
Estão certos, mas porque não consertam o asfalto, as rampas de garagem. Só mexem
com a gente"
.
A justificativa dos fiscais é "de que alguém que andasse distraído pelas ruas
poderia tropeçar e sofrer algum acidente"
. Wellington alega que antes de pensar
nisso eles deveriam corrigir outras falhas. "Rampas de garagem eles não tiram!
Elas são três vezes maiores e continuam lá"
.
Sobre o asfalto, o problema é que as novas camadas asfálticas que ficam na
Avenida Getúlio
Vargas são mais altas do que a calçada. "A gente não consegue
pegar ônibus e nem atravessar a rua sozinho, cria-se uma vala entre calçada
e asfalto que prende as rodinhas das cadeiras. Quero ver os fiscais mandarem
arrancar o asfalto"
, diz.
Bem humorado, Wellington desafia algum cadeirante a subir sozinho uma rampa que
fica na Avenida
Brasil. "Dou 500 pratas para quem conseguir. Se pegar velocidade
para subir, ele não consegue parar e cai dentro do Paraibuna"
. O motivo
da indignação é a rampa (foto abaixo a direita) muito inclinada.
"O que pode causar surpresa é saber que uma rampa dentro das normas custa
o mesmo tanto que essas rampas inúteis, que têm por exemplo,
na esquina com Batista e Santa Rita,
São João com Batista Oliveira. São os locais mais movimentados de Juiz de Fora e
sem qualquer acessibilidade. Até mesmo a rua São Sebastião, considerada modelo
nesse quesito, tem falhas"
, alega.
Os casos de ruas inclinadas pelas garagens são muitos, inclusive
em diversos pontos da Avenida Rio Branco (foto abaixo entre Halfeld e
Fernando Lobo). "Para fugir de pontos assim temos que ir para as ruas e muitas
vezes somos insultados por motoristas. Não temos equilíbrio e isso acontece
em vários pontos da cidade"
, fala.
A lentidão de processos da justiça também são apontados como uma das lutas
de Wellington. "Se nos aeroportos tem tribunais especiais para resolver os
problemas da crise aérea, porque não fazem um para os portadores de necessidades
especiais. Ele serviria só para julgar causas que envolvam acessibilidade"
, questiona.
O indagação acontece porque Wellington move uma ação na justiça, porque um
buraco em uma calçada do centro da cidade quebrou sua cadeira de rodas.
"Se meu filho não estivesse comigo, não sei como teria sido. Agora tem
milhares de processos na frente do meu e eu posso nunca ver a justiça sendo feita.
Por isso defendo juizados especiais para essas causas"
.
O engenheiro conta que os números são seu maior aliado. "Tenho dados da Infraero
que mostram que 110 milhões de pessoas passam nos aeroportos por ano no país. E
dados no IBGE mostram que temos no mínimo 15 milhões de deficientes, o que multiplicado
por 365 dias do ano dá mais de 5 bilhões portadores de necessidades especiais.
São 50 vezes mais pessoas"
, alega.
Como há um tribunal especial só para quem tem problemas nos aeroportos,
Wellington já mandou carta para ministério dos direitos humanos e até para o
presidente da república. "Não sei como isso não acontece, para um deficiente
ser respeitado nesse país tem que entrar na justiça comum e não se sabe quando
a causa vai ser julgada"
, observa Wellington.
Uma matéria que saiu em um jornal de TV local e diário deixou Wellington
revoltado. "Falava que a tarifa da passagem aumentou por causa da compra
de ônibus adaptados. Isso é um absurdo e eu provo isso em planilha. Não
sei se quem errou, se foi a reportagem ou a Gettran. Mas não é verdade"
, afirma
com convicção.
Wellington mostra as provas de ofícios, contas, planilhas, respostas as cartas,
tem fotos e tudo guardado para embasar seus argumentos. O medo dele é que
um novos aumentos sejam justificados por causa dos veículos adaptados. "Uma
lei do Governo Federal obriga que em 2014 todos os veículos de transporte
público sejam adaptados. As empresas já deviam comprar apenas ônibus nesse formato.
Quando chegar a data vão falar que não estavam preparados e quem vai pagar a conta
é a população"
, completa.
Nossa equipe procurou a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, mas até o fechamento dessa edição nenhuma resposta foi dada.