Com o objetivo de preparar a pessoa com deficiência visual para realizar, com desenvoltura, as atividades do dia-a-dia de uma pessoa em seu lar, trabalho, escola e demais ambientes, a Associação de Cegos desenvolve o projeto Prática Educativa da Vida Independente (PELVI's), também conhecido como Atividades de Vida Diária (AVD).
Segundo a gerente de marketing da entidade Gisele Bonsanto, o projeto
surgiu há 20 anos. "Notamos a necessidade dos internos exercerem as tarefas rotineira
e vimos que era possível que eles as realizassem. Capacitamos nossos colaboradores e
eles estão sempre buscando se reciclar para instruir os deficientes visuais"
.
As aulas acontecem em um mini-apartamento, projetado na Associação. Há uma sala, cozinha, quarto e banheiro. Nesses locais são feitos trabalhos relacionados à alimentação, higiene, saúde e segurança e atividades domésticas.
Os assistidos aprendem a escovar os dentes, barbeação, cuidados com a casa, como arrumar a cama, lavar louça, varrer, cozinhar. Aprendem também a pregar botão, bordar, dentre outras tarefas. A existência do espaço é fundamental para que o propósito de inclusão da entidade seja atingido.
A professora Maria da Consolação Soares Albergaria afirma que as aulas possuem
muita seriedade e responsabilidade, porque os assistidos são formados e preparados
para uma vida melhor. "Pretendemos que os alunos, dentro de suas potencialidades,
possam formar hábitos de auto-suficiência que lhe permitam participar ativamente do
ambiente em que vivem"
.
Consolação diz que a reabilitação do indivíduo é um desafio para as pessoas com deficiência visual, familiares e educadores, no sentido do ajustamento à nova condição de vida, e visa minimizar os efeitos psico-sociais causados pela perda visual.
"Se os hábitos à mesa, postura, adequações para se vestir e a higiene pessoal são
comportamentos adaptativos, há a necessidade de um treinamento intensivo, porque o
indivíduo pode apresentar atitudes inadequadas em algumas situações. Os alunos, sem
dúvida, no seu espaço de tempo maior ou menor vão acabar por realizar todas ou algumas
tarefas que as de visão normal, levado-se em conta as diferenças individuais e a
restrita capacidade de imitação de quem vê"
, declara a professora.
Consolação trabalha há três meses com quem possui algum tipo de deficiência visual. Ela atuou durante 23
anos em um escritório. Para poder passar segurança aos assistidos, ela fez um curso
para se especializar. "Esta é uma experiência inédita. Estava acostumada a lidar
com papel e não com gente"
. Para ela, trata-se de um trabalho muito gratificante.
"Você dá carinho e eles retribuem"
.
Rita Ivone de Jesus Neves, 45 anos, possui deficiência visual
e entrou na instituição em 1996 e, desde então, participa do projeto PELVI's. "Já sei
lavar vasilha, varrer, bordar"
. Ritinha, como é conhecida na instituição, ainda
não aprendeu o método braile, mas revela que tem vontade de voltar a estudar.
Regiane Cristina de Aguiar, 24 anos, freqüenta as aulas desde 2000,
quando entrou na Associação. "A gente precisa realizar as atividades diárias.
Tenho sonho de ter um companheiro, uma pessoa para viver ao meu lado e ter uma vida
normal"
.
Ela conta que aprendeu a ralar coco, quando Consolação ensinou a ela e aos demais
alunos a preparar um doce mamão. "Quero saber lavar, passar, cozinhar e
cuidar de criança"
.
Atualmente, o projeto conta com cerca de 20 alunos. As aulas acontecem de segunda à sexta, de 08h às 16h, na Associação do Cegos (Avenida dos Andradas, 455). O telefone para informações é (32) 2101-2469.