Que a criança que possui alguma deficiência deve receber cuidados, carinho, atenção todos os pais já sabem. Mas, a maioria desconhece que o filho mais velho também deve estar preparado para conviver com um "irmão especial". A falta de cuidado pode gerar ciúme do primogênito e ainda lhe causar transtornos e bloqueios emocionais que dificultam a aprendizagem e, até mesmo, alteram sua personalidade.
Isso acontece por causa da possibilidade da criança
não entender a maior atenção que deve ser dada ao irmão que possui a deficiência.
Segundo explica a psicóloga, da
Apae de Juiz de Fora, Eliane Felipe de
Barros Aragão (foto), "a criança pode ficar com ciúmes e sentir que foi
esquecida pelos pais. Podendo até ficar mais agressiva ou mais deprimida,
de acordo com sua personalidade"
.
O ideal é explicar desde cedo ao filho, que o irmão
vai necessitar de cuidados especiais e que ele vai ter dificuldades
para se desenvolver. "É importante ressaltar para o mais velho, que
apesar de possuir uma deficiênca, o irmão que está chegando merece todo
carinho que ele possa dar. Além de evitar o ciúme,
o diálogo pode criar uma boa relação entre as crianças"
, destaca Eliane.
Segundo ela, a aceitação da criança com deficiência tem que começar
pela família. Pai e mãe devem ser os primeiros a compreender
as diferenças que tornam o filho especial. "Hoje, muitas vezes,
nem mesmo isso acontece. Por isso, é comum os pais não falarem para o filho
mais velho, que ele vai ter um irmão especial. Neste sentido, a preocupação
acontece somente no caso de pessoas mais esclarecidas"
, completa.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a professora Eliete
Corrêa Marques Pereira quando sua filha, Rúbia, nasceu com síndrome
de down. Assim que recebeu a notícia ela logo tratou de conversar
com o primogênito Ruano, com dois anos e
8 meses, na época. "Ele tinha que saber que teria uma irmã especial e que ela ia ganhar atenção diferenciada. Enfatizei que apesar dela ter dificuldades, ele teria que tratá-la como uma menina normal. Isto foi fundamental na aceitação de Rúbia em nossa família", conta a mãe com orgulho.
Ele ouviu os conselhos da mãe e, hoje, é um grande amigo da irmã.
"Eu a trato normalmente. Brinco com ela numa boa e nossa relação
sempre foi a melhor possível. Como meus pais conversaram comigo desde
cedo sobre essa diferença, sempre encarei tudo com naturalidade"
,
conta Ruano, hoje com dezoito anos de idade.
A assistente social da Apae, Aparecida Honorato Lucindo, lamenta
que, na maioria das vezes, a família não tenha essa consciência.
"Hoje os pais que têm crianças com deficiência estão mais preocupados
com a sobrevivência financeira da família do que com a estrutura do
lar. Geralmente são pessoas carentes, com pouca cultura e que cobram da
Apae apenas que os filhos aprendam a ler e a escrever, sem se preocupar
com todo o aspecto emocional envolvido"
, explica.
"Depois da campanha da fraternidade da igreja católica que destacou o assunto e da novela da Rede Globo que trouxe à tona a síndrome de down, o número de bebês que chegaram aqui na Apae aumentou", ressalta a assistente social.
Apesar de toda essa divulgação e da melhora, muitas pessoas ainda
desconhecem os cuidados que devem ser tomados com as crianças deficientes.
"Ainda é preciso que a população saiba que o deficiente não é uma
pessoa doente. São necessárias mais campanhas de esclarecimento e nesses últimos
anos apenas os primeiros passos foram dados"
, completa.
*Thiago Weneck é estudante de Jornalismo da UFJF. A
matéria foi realizada
como atividade do processo de seleção para estágio
no Portal ACESSA.com