Ronaldo e as meninas
Ailton Alves
05/05/2008
Beira o mais alto grau de hipocrisia os comentários gerais sobre a nova
aventura extracampo de Ronaldo. A rigor, nada mudou na vida do Fenômeno. A
única diferença é que os travestis pediram pouco e fizeram escândalo; as demais
- moças de família, da "sociedade" - cobraram muito e não puderam armar o
barraco pois, afinal, estavam negociando contrato para um programa de TV, uma
revista masculina ou já de olho em outro jogador de futebol.
Elas, as marias-chuteiras, moças formosas ou nem tanto, existem desde que os salários dos jogadores subiram de forma inversamente proporcional ao futebol que apresentavam em campo. São espertas e farejam, com a destreza só comparável aos cães da Scotland Yard, a boa presa, aqueles que tem potencial para ganhar dinheiro ou que foram esnobados por elas mesmas quando não eram nada na vida.
No tempo do futebol romântico, não havia isso não. Namorar boleiro era coisa para mulher de verdade. Nunca esqueço uma foto que vi certa vez de Dona Guiomar, no portão de casa, recepcionando o marido, o craque Didi do Botafogo, que chegava uniformizado do Maracanã, após uma decisão de campeonato (e não havia ali nenhum sinal de submissão ao "chefe do lar"). E não se esquece nunca o inferno ao qual Elza Soares teve que se submeter para ficar com Garrincha (e não havia ali nenhum centavo envolvido ou qualquer tipo de exploração de prestígio).
Não acredito que Ronaldo tenha pensado em executar uma jogada diferente. Acho mesmo que ele percebeu a bola fora e tirou o time de campo. A questão não é essa e na verdade nem interessa. Com o dinheiro e a fama que tem, o fenômeno poderia, por exemplo, se instalar em um hotel de luxo em Paris e pedir, pelo serviço de quarto, a, digamos, companhia de uma russa, uma etíope, uma australiana ruiva e 25 brasileiras, de capa da Playboy a ... travestis.
Porém, Ronaldo estava no Rio, a sua cidade, com a camisa do Flamengo e recém-saído do Maracanã. Talvez quisesse tão somente reescrever o tempo em que era apenas um jogador do São Cristóvão e, naquela condição, nem as prostitutas lhe davam bola.
Cometeu um grande erro, que será lembrado para todo o sempre. A tragicomédia de Ronaldo Fenômeno, no entanto, é outra: ele não consegue definir se quer ser Heleno de Freitas ou George Best. Heleno saía do Maracanã bem vestido, com cabelo engomado e ia paquerar no Cassino da Urca. Em nenhum momento, nas palavras e no jogo de sedução, usava a sua condição de jogador de futebol. Best, pelo contrário, abusava de sua fama de melhor atacante da Inglaterra. Em sua última entrevista, pouco antes de morrer, ele confessou: "70% do que ganhei com o futebol gastei com cerveja e mulheres. Os outros 30% eu desperdicei".
Além de nação de hipócritas e de sermos cordiais, somos a terra de campeões. O Brasil é o único país do mundo onde se disputa campeonatos estaduais. Lá fora, o máximo de fuga dos torneios nacional é as copas da Liga. Em alguns países, Argentina por exemplo, são promovidos dois turnos da competição nacional, com dois vencedores distintos.
A fórmula brasileira agrada, ativa a rivalidade regional e não raro provoca muitas emoções e incríveis vencedores: o ABC, de Natal (RN), recordista nacional, conquistou este ano seu 50º troféu de campeão potiguar. E há nuances interessantes, que servem de papo no boteco por horas a fio: aqui em Minas, o Cruzeiro levantou sua 34ª taça de dono das Gerais, contra 39 do Atlético. Acontece que os cruzeirenses, cobertos de boa intenção, só querem considerar a Era Mineirão (a partir de 1965). Nesse caso, o placar a favor dos azuis é de 22 a 17. Os atleticanos, com uma grande dose de nostalgia, evocam o passado, quando o atual estádio era apenas uma miragem e ganham: 22 a 12.
Estão, as duas torcidas, certas. Em casas onde sobram troféus todo mundo fala e todos têm razão.
Ailton Alves é jornalista e cronista esportivo
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