Ailton Alves
13/10/2008
Salvo engano (não vi toda a partida de ontem, entre a seleção brasileira e a
Venezuela) a tarde foi de Kaká. Vejo agora, à noite, no indefectível
"Gols do Fantástico", que ele marcou um belo gol e, segundo amigos nos quais
confio, fez belas jogadas diante dos - diga-se de passagem - inexpressivos
venezuelanos, e finalmente reencontrou o seu belo futebol.
Digo isso e já me arrependo. Só reencontra algo quem perdeu alguma coisa. E não é o caso de Kaká. Essa onda toda, que começou há cerca de seis meses, de que ele estava em má fase não passou disso: uma onda. Ele pode não ter "acabado" com os jogos, como era mais ou menos comum, mas nesse período, sinceramente, não vi Kaká jogar efetivamente mal.
São estranhas, essas ondas, e na maioria das vezes não refletem a realidade das coisas. E são localizadas, não surgem em todos os mares.
Na seleção brasileira, esse tipo de onda ganha aspecto de um tsunami e atinge muitos jogadores medianos e até alguns craques.
Edmundo, o eterno vascaíno, já foi vítima, já foi injustiçado. Não jogou a Copa de 1994 (período em que deu ao Palmeiras o bicampeonato brasileiro) e teve poucas chances em 1998 (após a temporada de ouro de 1997). Os inimigos dizem, com a maior cara de pau, que ele não é jogador de seleção. E citam uma partida perdida no tempo contra a Colômbia, quando o animal não jogou nem metade do que joga normalmente contra qualquer adversário. E escancaram relembrando aquele jogo contra Marrocos, na Copa da França, quando ele, na oportunidade que teve, literalmente tropeçou na bola. Esquecem, é claro, que ele era a única opção possível na decisão, quando Ronaldinho teve aquela coisa inexplicável até hoje.
Os céticos, pelo menos, concedem que Edmundo atuou bem uma única vez vestindo a camisa amarela. Foi em Wembley, quando o Brasil ganhou um daqueles torneios que os ingleses adoram promover.
Se eles, os inimigos e os céticos, conseguirem provar, com o tempo, a tese de que Edmundo nunca foi feliz com a amarelinha, resta o consolo de saber que ele não será o primeiro craque brasileiro a sofrer com isso.
Certa vez, Gérson, o Canhotinha de Ouro, no tempo em que gostava de levar vantagem em tudo, cismou que Zico também não era jogador de seleção. Muita gente boa concordou com ele e o tempo, que é o senhor da razão, acabou por desmenti-lo. Não sei de onde Gérson, uma pessoa que entende muito de futebol, tirou isso, pois o maior craque da história do Flamengo nunca lhe deu chances de pensar dessa maneira.
Enquanto esse revisionismo futuro não chega, pensamos no presente, em Kaká. Talvez a explicação para a onda que atingiu o craque do Milan esteja na raiz de quem "faz a cabeça" da torcida.
Em São Paulo, onde se tem a análise futebolística mais séria do país, decretou-se que Kaká poderia jogar mais do que vinha jogando e todo mundo "embarcou", achando que o ele não era merecedor do título de melhor jogador do mundo.
Mas, não deixa de ser interessante essa onda, o que ela produz e o que poderia provocar se mudasse de praia. Imagine alguns analistas do Rio de Janeiro, aqueles que acham que todo mundo que joga no futebol carioca é craque, se deparando com uma "boa fase" de Kaká. E imagine também alguns paulistas, que foram rigorosos com Kaká, passando uma temporada dando notas para Jorge Henrique, Ronaldo Angelin, Arouca e Leandro Bonfim.
Aí eles iam ver o que é bom para tosse - e ruim para os olhos.
Ailton Alves é jornalista e cronista esportivo
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