Esporte

O passado vive em mim

Ailton Alves Ailton Alves 29/12/2008

Ilustração mostrando um túmulo Meus escassos leitores andam a reclamar de mim. Dizem, abertamente, que, via de regra, não sou muito afeito ao presente e ao futuro (do futebol). Que, invariavelmente, só me interesso pelo passado (do esporte). Em suma: que sou um decadente ranzinza doido para (querer) decretar que o velho morreu e o novo ainda não nasceu. Assumo a decadência, mas não o conceito.

Mas... pensava nisso, no que alguns pensam de mim, por essas mal traçadas crônicas semanais para o Acessa.com, quando ouvi Paulinho da Viola (vascaíno como eu) dizer no belíssimo documentário sobre a sua vida e obra: "Eu não vivo de passado. O passado vive em mim".

Por sina, outras incríveis coincidências foram se acumulando nestes dias angustiantes do período entre o Noite Feliz, Noite de Paz e o Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo:

  • Estreou num grande jornal brasileiro um genial personagem de quadrinhos chamado Stanislau, um velho que vive a invocar e exortar seus fantasmas do passado;
  • Um canal de televisão começou uma série de programas, chamados Jogos para Sempre, sobre as grandes partidas de futebol do passado;
  • Passou, também na tela pequena, o filme Sonhos do Passado, que deu a Jack Lennon um merecido Oscar por sua atuação como alguém que assusta seus contemporâneos com lembranças de coisas que nunca mais voltarão;
  • A Prefeitura de Juiz de Fora inaugurou, nesta segunda-feira, dia 29 de dezembro, no Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, uma mini-galeria de fotos com os esquadrões do passado, de Tupi, Sport e Tupynambás – ocasião na qual Geraldo Magela Tavares, do alto de seus 82 anos, fez um discurso carregado no mais alto grau de nostalgia (só permitido aos grandes homens como ele), citando, inclusive, a escalação do Galo de 1966, o time conhecido como o Fantasma do Mineirão.


E – coincidência das coincidências – não foi outro o assunto na reunião familiar em torno da mesa de Natal que esse: passado e presente (do futebol). Éramos um bando de vascaínos (pai, mãe, duas irmãs, dois sobrinhos, uma sobrinha e este vos fala) num lamento sem fim pela queda do Vasco para a segunda divisão. Para cada relato dramático ("Quando vi Edmundo sair de campo com a cabeça encoberta pela camisa desabei. Chorei três horas seguidas") vinha uma constatação baseada na história ("Nunca vi um craque jogar tanta bola – nem Pelé – como Edmundo no tricampeonato de 1997"). E todo exagero passional ("se meu pai fosse vivo, morreria de desgosto") era contrastado por um absurdo ficcional (quase morri quando Sorato fez aquele gol no Morumbi, contra o poderoso São Paulo, no bicampeonato de 1989).

Cruzeirenses, flamenguistas e torcedores do Internacional (os únicos que disputaram todas as edições da Primeira Divisão), podem acreditar: estávamos felizes com as lembranças. Até que dois irmãos – atleticanos desde sempre, implicantes por natureza e cruéis como nunca –, cansados daquilo tudo, resolveram interferir. "Quem vive de passado é museu", disse um. "Se o Vasco não subir de novo imediatamente, como fizeram Atlético, Palmeiras, Botafogo e Grêmio esses quatro títulos nacionais vão ficar cada vez mais apenas na memória", completou o outro.

Tratamos, nós os vascaínos, rapidinho de mudar de assunto. Afinal, a crise mundial, os novos ataques de Israel aos palestinos e as maldades da Patrícia Pilar na novela das oito são muito mais importantes que futebol.

Ailton Alves é jornalista e cronista esportivo
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