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Corrente pra frente Ruas começam a ser enfeitadas, faltando poucos dias para a estréia do Brasil na Copa da Alemanha. História começou em 1970, a época do tricampeonato

Ricardo Corrêa
Repórter
maio/2006

"De repente é aquela corrente pra frente". Faltando quinze dias para a Copa do Mundo, as primeiras ruas da cidade começam a entrar no clima da principal competição do futebol mundial. Ainda tímidas, menos enfeitadas do que nas últimas disputas, o certo é que alguns moradores já buscam formas de transformar pedacinhos de rua, espaços menores, em algo parecido com o que costuma-se ver de quatro em quatro anos no país do futebol. Uma história que começou em 1970, nos tempos daquela corrente para frente.

"Parece que todo o Brasil deu a mão". Mesmo que por alguns minutos, para cortar plásticos, amarrar bandeirinhas ou pintar ruas. É época de fazer amizades, interagir com vizinhos e sonhar com a possibilidade de conquistar o mundo, nem que seja assistindo a onze jogadores correndo em um campo de futebol.

"Todos ligados na mesma emoção". É assim que as ruas começam a se enfeitar. No Bairro Grajaú, duas delas já estão embandeiradas. Na Roque Picorelli e em vários pontos da Belizário de Castro, moradores, do próprio bolso, ou com a ajuda da comunidade, começam a transformar a rua em um espaço mais alegre e, acima de tudo, verde e amarelo.

Júlio César Dias Villela é técnico em contabilidade, mas, acima disso, é um apaixonado pelo Brasil. Desde a última Copa do Mundo, em 2002, ele resolveu enfeitar a rua. E pagou do próprio bolso este ano. Foi ele quem comprou as bandeirinhas e já começou, com a ajuda dos vizinhos, a colocá-las em sua rua. O trabalho ainda não acabou. Muitas bandeirinhas ainda precisam ser colocadas. Mas ele não quer parar por aí.

"Estou com a idéia de pintar o chão também. Vou olhar preço da tinta, para ver se está razoável. Se estiver legal vou comprar também, para pintar pois fica bem mais bonito", explica ele, que não se arrepende de gastar dinheiro com uma coisa que após a Copa do Mundo será retirada.

"O pessoal da outra vez juntou todo mundo e fez. Esse ano, como estava todo mundo meio desanimado, sem mobilizar, eu comprei e fui fazendo. Acho que ajuda, pois une mais os vizinhos, o pessoal fica mais otimista e confiante, acreditando que vamos ganhar. O país fica mais animado, mais bonito", explica o técnico em contabilidade.

Uma das primeiras da cidade

Na mesma rua, em outro trecho, é de Pedro Ricardo Borelli Ragazzi a missão de animar a turma. Ele começou a arrecadar dinheiro com vizinhos, recebeu a doação de retalhos de uma malharia e vai completando com dinheiro que as crianças e jovens arrecadam com o famoso "pedágio", em que os motoristas que passaram pela rua são parados e convidados a contribuir.

"Eu acho que fica tão bonito, a cidade fica mais colorida e o brasileiro gosta. As crianças estão ajudando a cortar bandeirinhas e isso cria neles um sentimento de brasileirismo", explica Ricardo, crendo que isso ajuda a levantar a auto-estima da população.

"Temos muita propaganda do exterior. Ouvimos o que é bom lá fora e o que é ruim aqui dentro. Lógico que temos problemas e estamos vivendo situações sérias, como a corrupção, o aumento da criminalidade, a fome, a miséria, mas temos também que tentar enxergar o lado positivo e a Copa do Mundo está no coração do brasileiro. Queremos transmitir essa alegria para todo o Brasil", explica Pedro Ricardo.

Mesmo com poucos recursos, ele também quer continuar a enfeitar as ruas. Acredita que isso mantém "um clima gostoso de alegria".

"É legal porque um ajuda o outro, os vizinhos ficam próximos. Esse ano as pessoas parecem estar com poucos recursos e deram o que podiam, mas ainda queremos ver se conseguimos pintar e enfeitar mais. Ganhamos uns retalhos da malharia e colocamos nas casas", diz, mostrando os panos verdes e amarelos em algumas residências, incluindo a sua.

Ricardo Ragazzi acredita que a rua foi a primeira a ser enfeitada esse ano. Na Copa anterior, isso também aconteceu. Dessa vez ele começou no final do mês de abril e contou com a ajuda de cinco ou seis pessoas no máximo. Entre elas, Jéssica Rodrigues Barbosa, de 12 anos, que no momento exato em que a matéria estava sendo feita, chegava com plástico que havia acabado de comprar com o dinheiro do pedágio.

"É a primeira vez. Eu acho legal enfeitar. Fica bonito", diz a menina, sem explicar muito. É Pedro Ricardo quem resume."A rua fica mais alegre e o dia fica mais alegre", encerra.

E lá na Alemanha, ou aqui, nas ruas do Brasil, o país do futebol, respira futebol, como dizia mais um trecho da música imortalizada lá em 1970, quando as ruas começaram a ser enfeitadas, "tudo é um só coração".


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