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Eles são do contra! Juizforanos torcem por nossos rivais: Alemanha, Itália e Argentina

Ricardo Corrêa
Repórter
junho/2006

A explicação é a mesma e o estranhamento de quem observa Daniel, Rafael e Diogo assistindo às partidas de uma Copa do Mundo também. Baseados na justificativa de que país é país e Seleção é Seleção, eles torcem para os nossos maiores rivais na disputa do maior campeonato de futebol do mundo. Nos oito títulos de Alemanha, Argentina e Itália, residem a paixão que esses três fanáticos ostentam pelo futebol. Eles se preparam para mais um desafio, como o de quatro em quatro anos. Uma derrota, para eles, que estão em 'território inimigo' pode ser ainda pior do que para nós.

Pela força alemã

Enquanto a maioria dos brasileiros ainda aguarda o sonho de ver o time disputando uma Copa em seu teritório, Daniel já poderá sentir isso este ano. Ele é brasileiro, mas torcedor da Alemanha, a dona da casa na disputa deste ano. O juizforano se enche de orgulho ao falar de seu time do coração e tem na ponta da língua os motivos pelo qual decidiu torcer pelos germânicos da camisa branca, e não pela autêntica amarelinha com a qual estamos acostumados.

"A raça e a dedicação dos jogadores alemães, além do estilo de jogo mais competitivo, baseado no físico e sem estrelismos, condizem muito mais com a essência de um esporte coletivo do que o "tico-tico no fubá" brasileiro. Gosto de um futebol-força, sem jogadores com a mão na cintura no meio-de-campo", defende a Alemanha e ataca o Brasil ao mesmo tempo. Mas lembra que, apesar do futebol força, os alemães sempre produziram craques para o futebol. Exemplos não são poucos.

"É importante ressaltar que a Alemanha, apesar de dar ênfase ao coletivo, sempre teve craques, como Fritz Walter (década de 50), Beckenbauer, Overath, Sepp Maier, Breitner, Gerd Muller (década de 70), Lothar Matthaus, Harald Schumacher, Bassler, Effenberg, Völler, Klinsmann (décadas de 80 e 90), Ballack, Kahn, Lehmann e Podolski (atualmente), dentre outros", enumera Daniel.

O fato de torcer por outra Seleção costuma render dor de cabeça para o fanático pela Alemanha. Se a seleção daquele país perde então, aí é que as coisas ficam piores para ele. Como na última disputa, em que a Alemanha foi derrotada pelo Brasil no jogo final.

"A final da Copa de 2002 me rende muita dor de cabeça até hoje. Lembro-me da semifinal da Copa de 2002, entre Coréia e Alemanha. Estava matando aula na cantina da Faculdade, cercado de "asiáticos". Quando saiu o gol da Alemanha, comemorei sozinho, para espanto geral. Resultados ruins da Alemanha fazem minha caixa de e-mails lotar e meu telefone tocar sem parar (como depois do empate com o Japão, terça-feira)", explica Daniel, que costuma ver os jogos sozinho, ou, no máximo, na companhia de seu pai, como foi na Copa de 2002.

Mas ele não se deixa levar pelas chateações dos brasileiros e diz qual a resposta que costuma dar a quem se espanta com a torcida germânica.

"As pessoas ficam querendo explicações. Toda hora alguém pergunta: 'Por que você torce para a Alemanha? Você não nasceu lá'. Eu respondo: 'E daí, você nasceu em Juiz de Fora, torce para o São Paulo e nunca foi ao Morumbi.' Eu conheço todos os jogadores da Alemanha e acompanho a Bundesliga, Enquanto a maioria dos 'torcedores' brasileiros não conhece mais do que cinco jogadores da Seleção", analida Daniel.

Mais do que torcer pela Alemanha nesta Copa do Mundo, Daniel vai torcer para que o Brasil saia logo na primeira fase. Embora não tenha nenhum motivo especial para isso, ele tem esse desejo, mas também não esconde que uma final entre as duas equipes seria interessante.

"Uma revanche de 2002 seria muito legal, mas ver os favoritos voltando cedo para casa não tem preço".

Daniel nem sempre torceu pela Alemanha. Mas deixou se levar pelo bom time que foi campeão do Mundo em 1990 e depois vice-campeão da Euro em 1992. O que já era um fascínio inicial tornou-se ainda maior depois, quando ele começou a perder o encanto pelo futebol do Brasil.

"Quando o Zagallo assumiu a Seleção após a Copa de 1994, comecei a achar que os "Canarinhos" eram selecionados mais por influência de empresários do que pelo futebol mostrado em campo. A falta de raça e a preguiça disfarçada de"genialidade" de mitos como Ronaldinho e Roberto Carlos serviu para me jogar nos braços da raça de Klinsmann, Matthaus e cia".

Paixão "Azzura"

Diogo Britto, guitarrista do Martiataka costuma vibrar em Copa do Mundo quando entra em ação a Squadra Azzura, como é conhecido o time italiano. Mas não é um paixão de tanto tempo. É coisa razoavelmente recente, por isso ele não precisou ouvir gozações de brasileiros depois da final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994.

A história de Diogo Britto com a Seleção da Itália começou no ano seguinte, quando ele e uns amigos começaram a organizar e disputar um campeonato de videogame. Ninguém poderia pegar o Brasil e, por isso, Diogo escolheu a Itália.

"Pra saber qual era a melhor escalação e os melhores jogadores, comecei a acompanhar os jogos da seleção e o Calcio (Campeonato Italiano). Daí, foi questão de tempo para que eu criasse um carinho muito grande pela Azurra, e desde a Copa de 98 ela é minha seleção nº 1", conta o agora brasileiro mas torcedor italiano.

Ele garante que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito e logo justifica que não tem nada contra o Brasil e nem contra a nossa Seleção.

"Tem gente que até acha que eu torço por despeito pelo Brasil, mas não tem nada a ver. Sou de Juiz de Fora, mas meu time do coração é o Mengão. Sou brasileiro, mas minha Seleção é a italiana. Na época da Copa, rola aquela rivalidade e brincadeira, mas nunca algo mais sério", explica de Diogo, que também acompanha sempre os jogos da Seleção Brasileira.

"Mudo meus horários de trabalho pra assistir amistosos, até os ridículos (Haiti, Lucerna, etc.). A verdade é que gosto muito de assistir futebol, e a Seleção Brasileira raramente faz partidas feias. Por isso, não torço contra nem a favor, gosto apenas de prestigiar o futebol arte. Mas, se for pra colocar minha Itália contra o Brasil, não tenho dúvidas... Luca Toni pra cima desses brasileiros!", confessa.

Até por essa relação que possui também com a Seleção Brasileira, Diogo não costuma enfrentar os mesmos problemas que Daniel, o fanático pela Alemanha, enfrenta. Ele até sofre pressão, mas leva no bom humor.

"Assisto com quem estiver por perto, xingo o juiz, apoio o time e comemoro gol sem problema algum. Aliás, é isso o que vou fazer quando Itália e Brasil se enfrentarem na final: ir pra um bar lotado de brasileiros, comemorar sozinho o título da minha Azurra e deixar o pouco dinheiro que tenho para minha família depois de ser assassinado por algum torcedor fanático!", brinca o guitarrista de 23 anos.

"Hermano" brasileiro

O assessor de imprensa Rafael Saldanha, 24 anos, consegue desagradar ainda mais os brasileiros. Além de torcer para um de nossos rivais, como os Diogo e Daniel, ele torce exatamente para o maior deles. As cores de Saldanha na Copa do Mundo são o azul e branco. A camisa listrada da Argentina que tanto incomoda os fanáticos pelo Brasil, é a preferida pelo jornalista, que dá o mesmo argumento dos outros torcedores para justificar sua opção.

"Eu torço pela Argentina por vários motivos. O primeiro é que eu acho uma bobagem se atrelar futebol à patriotismo. Ora, os caras estão ali muito bem pagos para jogarem futebol, então eu escolho quem me der na telha. Ampliando esse raciocínio, na teoria eu tinha que ser ferrenho torcedor do glorioso escrete do Campo Grande, já que eu nasci naquele bairro. Além disso, o estilo de jogo dos argentinos me enche mais os olhos. É bonito, aguerrido e objetivo. Nada de firulas fúteis como as dos brasileiros. Nada de tirar o pé em dividida", explica Saldanha, que recebe críticas mas também leva no bom humor.

"Eu costumo brincar que eu tenho um naipe de informações que eu tenho que ir jogando aos pouquinhos. Quando começo a conversar com alguém, depois de um tempo eu aviso que sou vascaíno. Se a pessoa reagir bem, depois de mais algum tempo eu digo que sou tucano. E, se o infeliz voltar para o assunto futebol, eu conto que torço para a Argentina. A maioria das pessoas pilham, mas levam numa boa. O único ruim é que a minha comemoração é sempre solitária", conta Saldanha que ainda espera um título mundial argentino, depois que se converteu. Ele sabe quando foi.

"No momento exato do passe de Maradona para o Caniggia, bem nas oitavas de final da Copa de 90. O impacto daquilo na cabeça de um moleque de nove anos foi brutal. Mas a insatisfação já vinha da foto da Copa, com a mão tampando o patrocínio da Pepsi", explica Saldanha, revoltado com o caráter comercial que a competição adquiriu.

Saldanha, que até fez uma montagem com a camisa da Argentina em seu Orkut, não torce apenas pela Argentina. Ele torce também contra o Brasil e, claro, contra a Inglaterra, um dos maiores rivais que dos hermanos em todos os tempos.

"Se a Argentina for campeã, o vice pode ser até a Costa do Marfim. Não estou nem aí. Agora, é lógico que eu torço pela eliminação do Brasil e da Inglaterra. E esse ano, acho que os dois ficam nas oitavas", seca Saldanha.

Gosto não se discute.


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