O judô não é uma luta de agressão, mas de defesa, e tem o objetivo de fortalecer o corpo e a mente de forma integrada. Seus adeptos preferem definir esse esporte como uma ciência que estuda os poderes potenciais do corpo e da mente, assim como o modo mais efetivo de aplicá-los às atividades de combate.
Nascido no Japão em 1882, o judô tornou-se esporte olímpico em 1964 e é um dos esportes com maior número de praticantes em todo o mundo, além de ser uma das modalidades que mais conquistou medalhas olímpicas para o Brasil.
Coordenador da Zona da Mata na Federação Mineira de Judô,
Justin Macedo Vianna, 35 anos de profissão, explica
que o esporte é uma arte milenar na qual o aprimoramento do homem é o objetivo maior. "São
75 técnicas, sendo 48 técnicas básicas utilizadas, subdivididas entre koshi-waza (quadril),
ashi-waza (pernas e pés), te-waza (mãos e braços) e sutemi-waza (sacrificiais)"
, explica.
No princípio, os nomes podem parecer complicados, mas Justin garante que são muito fáceis e
diz que alguns de seus alunos empolgam-se e passam a estudar a fundo a língua japonesa. Ju
significa princípio da suavidade e da gentileza e do quer dizer via, caminho. Por
isso judô é a via de suavidade.
O judô ensina a utilizar ao máximo, e com a maior eficácia, a energia mental e física, concentrando as duas em um mesmo objetivo. Esta é uma lição não só para o esporte, mas para toda a vida.
Segundo Justin, o treinamento de judô é árduo como as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia, sendo compensador por estimular sempre a progredir. Um grande diferencial neste esporte-arte-filosofia é que o fraco pode vencer o mais forte.
Sensei (professor) que se preze sempre tem uma história recheada de metáforas para contar. As aulas costumam ser repletas de lições e analogias que remontam ao Japão milenar. Justin explica que isso acontece porque o fundador do judô, Jigoro Kano, era um filósofo das artes marciais.
Kano estudou outras artes marciais e criou as técnicas e regras que são utilizadas até hoje no judô. Uma de suas inspirações foi o jutsu, uma espécie de briga de rua, que foi proibida no Japão. Unindo outros conhecimentos, ele retirou o que havia de bom e concreto na prática para criar as técnicas que viriam a ser ensinadas na Universidade de Tokio e no treinamento das forças armadas da capital japonesa.
Justin conta que Jigoro Kano era franzino e tinha apenas 1,50 metro de altura. Até por sua fragilidade, a preocupação maior dele era com o equilíbrio mental e corporal do ser humano, daí vem o princípio da não resistência.
"De que adianta bater de frente com o muro, se é mais fácil deixar o muro ceder,
desvencilhar-me dele? A força do adversário pode ser usada em meu favor"
, repete Justin.
Ao contrário de outras artes marciais, o judô se mantém muito tradicional e fiel às regras. O jiu-jitsu, por exemplo, tem uma vertente técnica e competitiva e outra que se desvirtuou com os bad-boys. O karate apresenta variações de acordo com o clã ao qual o mestre pertence.
Justin acredita que isso não acontece com o judô devido à constante avaliação e aperfeiçoamento a que são submetidos os professores, sempre obedientes às normas pela própria disciplina da prática. Segundo ele, há um sentido único passado para o aluno de qualquer parte do mundo, apesar de hoje o judô estar mais aberto, comunicativo e didático que em outros tempos.
A hierarquia é muito importante no judô, sendo expressa pelas cores das faixas que os
praticantes usam na cintura, para amarrar o kimono. A idéia de
que a faixa preta é o grau mais alto, entretanto, é um mito. Justin diz que isso aconteceu
porque, até pouco tempo, no Brasil, quase todos os professores chegavam apenas a este posto.
"O judô era preso às colônias, que tinham seus clãs. Ninguém conhecia aqueles grandes
mestres que só agora estão fazendo parte das associações e federações."
Segundo Justin, após a faixa preta há graduações, chamadas dan, que constituem a elite do
judô. "É um grupo que está acima do professor, do sensei, porque já são mestres ou
doutores"
, diz, explicando que a faixa coral corresponde ao mestre shiran.
O Brasil hoje adota dez faixas, tendo incluído, na última década, as cores cinza e azul entre a branca (iniciante) e a amarela. De acordo om Justin, a medida serviu para incentivar os jovens praticantes, pois o ingresso de crianças a partir de três anos aumentou muito, sendo impraticável ascender muito rapidamente a outras faixas.
Adultos podem trocar de faixa até mesmo de três em três meses, mas isso depende do desenvolvimento de cada um. Para as crianças, é recomendado o mínimo de seis meses para subir na hierarquia.
Além da cor das faixas, há pequenos riscos que são feitos sobre elas para indicar uma distinção por grau. O praticante pode ter até seis riscos, que ganha por merecimento, melhor nota na escola e outros critérios adotados pelo sensei. Até mesmo a disposição no tatame é regida por esses indícios. De acordo com Justin, isso nunca é visto como uma competição pejorativa, mas como estímulo.
A paixão pelo esporte, Justin passou para a filha, Thaísa Vianna, primeira
mulher em Juiz de Fora a obter a faixa preta em judô, distinção alcançada há dois anos.
Ela começou no esporte junto ao irmão, aos nove anos.
Naquela época, o pai não a
estimulava muito. "Ele queria que eu estudasse"
, recorda. E Thaísa estudou sim:
fez faculdade de Educação Física, sonhando em ser professora de judô.
Thaísa diz que há preconceito quanto à prática do judô por mulheres, mas que o custo também
é outro fator que desestimula muitas garotas a progredir no esporte.
"É um investimento caro. É preciso fazer um curso em Belo Horizonte que, com os exames,
custa R$ 5 mil, fora os gastos com a viagem, uma vez por mês durante um ano."
Segundo Thaísa, a maioria dos desportistas que avançam na hierarquia são da capital e região,
justamente devido aos custos.
Miss Juiz de Fora 2008, Lorraine
Silveira Andrade, tem 19 anos e pratica
judô desde os seis. "Desde pequena me sinto em família no judô, me divirto com responsabilidade e também
ajuda a cuidar do corpo"
, diz a estudante, que é faixa marrom e tem aulas desta arte
marcial três vezes por semana.
"Comecei no colégio onde estudava. Eu me sentia bem e nem quis saber de
outras modalidades de esporte"
, recorda.