Adriano Carias, de 16 anos, já aprendeu a chutar a bola.
"Sei chutar com o peito do pé, com o bico e com as partes interna e externa"
,
diz ele, que está freqüentando as aulas de futebol de cinco semanalmente na Associação dos
Cegos.
São cinco jogadores em cada lado, sendo que o goleiro é o único vidente. Os outros quatro são pessoas com algum tipo de deficiência visual ou jogam com uma venda. Do lado de fora da quadra está o chamador. É ele o responsável por conduzir o jogo, dizendo onde está a bola. Na quadra, marcações em alto relevo delimitam o campo de jogo e a bola com guizo faz o barulho e ajuda os jogadores a se orientarem.
"De resto, é o futebol como todo mundo conhece, com finta e gols em dois tempos de
20 minutos"
, diz a professora
de educação física Adriana Helena Campos Guarino, que dá aula de futebol de cinco
da Associação dos Cegos.
Uma das maiores preocupações está em evitar o choque dos jogadores. Por isso, os treinamentos
e os jogos são realizados em silêncio para que os participantes possam ouvir apenas
as instruções da professora ou do chamador. "Os jogadores usam uma voz de comando,
que pode ser 'deixa'. Assim, o outro não vai disputar a bola, evitando
que eles se machuquem"
, explica ela.
Nos treinos, eles aprendem a usar a audição, tanto para ouvir o guizo da bola,
responsável pelo barulho, quanto para seguir as orientações. Entre as
dificuldades dos atletas estão o domínio da bola, principalmente nos treinos, onde há mais
de uma bola sendo usada. "Eles costumam confundir o barulho da bola que estão usando
com a do colega"
. A professora também conta que eles têm dificuldades de deslocamento e orientação.
"Alguns não conseguem diferenciar esquerda e direita"
.
Entretanto, muitos conseguem driblar as dificuldades e não querem mais deixar de praticar o esporte.
Este é o caso de Maria da Consolação Jardim, que pratica há dois anos.
"Nunca me machuquei. Já levei algumas boladas, mas não tenho medo. Também já dei boladas
nos outros"
, conta.
Sebastião Natal da Silva diz que o esporte melhora a saúde e se sente mais feliz
no dia das aulas. "Acordo mais animado, fico com o corpo mais
leve e bem satisfeito quando tem aula"
, diz.
A professora diz que é muito importante a prática de esportes pelas pessoas com deficiência
visual e diz que os benefícios são notórios. Entre eles, estão a melhoria do equilíbrio
e da postura,
a facilidade em se desviar dos obstáculos e a noção de espaço. "Os deficientes que
praticam exercícios não têm vício de postura. Trabalhamos a organização do corpo no espaço.
Percebemos isso quando um aluno dava chutes tortos e começa a fazer em linha reta"
.
É assim que José Luiz Souza Silva se sente. "O esporte é muito positivo
para mim. Eu aprendi noção de espaço, do que é direita e esquerda e consigo me livrar de obstáculos
mais facilmente pelo som. Sei que tem uma parede na minha frente sem ao menos tocá-la,
porque percebo que ela corta o som"
, diz.
Os alunos de Adriana ainda não participam de campeonatos. A dificuldade está em formar times completos para as competições. Entretanto, a professora apresentou um projeto para a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a esperança é que até o fim do ano, alguns jogos possam acontecer.
Segundo ela, as pessoas têm medo de participar e se machucar. "As mães não incentivam
seus filhos, porque não querem expô-los e também têm medo que se machuquem"
,
diz. Além da falta de incentivo às pessoas participarem, outra dificuldade é
a falta de espaço.
"Treinamos em um local que era um auditório e queremos convidar as pessoas
a experimentar o esporte. Elas podem participar colocando vendas nos olhos"
.