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Caio Prado, cem anos depois

Bernardo Ricupero - Outubro 2007
 

Confesso que, depois de ter recebido o convite do IEB para participar deste seminário em que se procura recuperar a atualidade do pensamento de Caio Prado Jr., me veio à mente a objeção de Adorno à tentativa de Croce de separar “o que está vivo” do “que está morto em Hegel”. Como se sabe, Adorno ressalta a arrogância de se julgar um autor do passado pelos critérios de uma outra época e propõe o problema inverso: avaliar a época dele pelos critérios de Hegel [1].

Feita a ressalva, não é demais lembrar que nosso autor, na ainda inspiradora apresentação à Formação do Brasil contemporâneo: colônia, como que se desculpa por “ir tão longe” [2] ao início do século XIX , antes de se ocupar do “Brasil de hoje, que é o que realmente interessa” [3]. No entanto, Caio Prado Jr. se justifica, já que seria nos anos estudados que começaria a história do Brasil contemporâneo. O período ofereceria, além do mais, um posto privilegiado para o observador do país, equivalendo a uma espécie de cruzamento histórico, onde o passado da colônia como que encontraria um possível futuro nacional.

Mais importante, nota que um “passado que parece longínquo [...] ainda nos [...] cerca de todos os lados” [4]. Entende-se, assim, a referência feita à observação certa vez ouvida de um professor estrangeiro (que pensei ser Braudel, antes de saber que tantos outros professores estrangeiros, como Lévi-Strauss e Lucien Febvre, também fizeram comentário semelhante), “que invejava os historiadores brasileiros, que podiam assistir pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado” [5]. Mais tarde, Caio Prado Jr. sugerirá mesmo um método bastante original para se estudar o Brasil, infelizmente ainda pouco explorado, em que é “muitas vezes preferível uma viagem pelas nossas diferentes regiões, à compulsa de documentos e textos” [6].

Ainda mais importante, está indicado aí um problema político: na história brasileira não ocorre ruptura com o passado. Isso, inclusive, é que explica por que, para se chegar ao “Brasil de hoje”, se precise “ir tão longe”. Em outras palavras, como observou Carlos Nelson Coutinho, Caio Prado Jr. percebe que o Brasil não segue a chamada “via clássica” de desenvolvimento capitalista [7].

Vêm daí muitas das divergências do militante com seu partido, o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na verdade, quase todos os comunistas, provenientes das mais diferentes partes, foram incapazes, durante a maior parte do século XX, de irem além das teses da III Internacional sobre os “países coloniais, semicoloniais e dependentes”. Ou seja, acreditavam que os países enquadrados nessa nebulosa condição, inclusive o Brasil, deveriam realizar uma revolução burguesa, nos moldes da Francesa, para colocar fim a supostos resíduos feudais. A partir daí, o caminho estaria livre para o desenvolvimento capitalista e, num futuro mais distante, para o socialismo.

Caio Prado Jr. indica, ao contrário, que nossa revolução burguesa está mais próxima do que se pode chamar de uma revolução “pelo alto”. Como na unificação da Alemanha e da Itália, na Revolução Meiji no Japão e em tantos outros casos, a antiga classe dominante não é deslocada do poder, havendo um amálgama entre formas econômicas e sociais típicas do passado com as do presente. No caso brasileiro, isso ocorreria principalmente na estrutura agrária, que manteria muito da organização da colônia, na qual a grande exploração produziria gêneros demandados pelo mercado externo.

Caio Prado Jr. mostra, assim, que a história brasileira, desde que começou a ser registrada, teve uma orientação mercantil, vinculada ao capitalismo então em formação. Somos mesmo, como insiste, o produto da expansão ultramarina européia.

Ao chamar a atenção para o “sentido da colonização” produzir em grandes unidades trabalhadas pelo braço escravo bens demandados pela Europa —, inaugura uma nova maneira de entender o Brasil. Nessa orientação, se afasta das interpretações anteriores sobre o país, ainda muito preocupadas com o predomínio, durante a maior parte da história brasileira, do latifúndio pretensamente auto-suficiente e suas conseqüências, como o patriarcalismo. Não por acaso, depois de Formação do Brasil contemporâneo: colônia, aparecem outras análises, como as de Celso Furtado e as da teoria da dependência, que também ressaltam a relação do Brasil e, em termos mais amplos, da América Latina, com o resto do mundo.

Não é difícil perceber, em tempos da chamada globalização, a atualidade dessa perspectiva. Talvez se possa até sugerir que nosso moderno agrobusiness não é muito diferente da grande exploração. Mesmo uma das principais deficiências da análise de Caio Prado Jr. a incapacidade de perceber como a industrialização muda a orientação da vida brasileira ganha surpreendente atualidade quando nossa indústria passa a correr perigo.

De qualquer maneira, particularmente rico é ver como Formação do Brasil contemporâneo: colônia, a partir do “sentido da colonização”, reconstitui a totalidade do passado brasileiro. Está ai o melhor do materialismo histórico de nosso autor, até porque, assim como Lukács, sabe que “a categoria da totalidade é a essência do método que Marx herdou de Hegel e brilhantemente transformou na fundação de uma ciência completamente nova” [8].

É o ponto de vista da totalidade que explica inclusive a atenção ao “sentido da colonização”. Até porque, sabe que se a história é feita de um “cipoal de incidentes secundários”, que podem mesmo nos confundir, há certo “sentido” que lhe confere inteligibilidade, reflexo de “todos os momentos e aspectos não” serem “senão partes, por si só incompletas, de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador” [9].

É também a atenção à totalidade que permite a Caio Prado Jr., para além de um pretenso economicismo (como bem indicou o professor Fernando Novais quarta-feira), tratar dos diferentes aspectos da vida colonial: povoamento, produção, sociedade, política e cultura. Isso, apesar de notar corretamente que, numa situação dominada pela escravidão, havia “ausência quase completa de superestrutura” [10]. Mesmo assim, não deixa de perceber o aparecimento da família patriarcal no Brasil. Ela, mesmo não diminuindo a brutalidade da escravidão, reforçaria a dominação dos senhores, ao torná-la mais aceita.

A meu ver, apesar da perspectiva da totalidade não ser muito valorizada nos dias que correm, boa parte do interesse da obra de Caio Prado Jr. em relação a outros “intérpretes do Brasil” provém precisamente de sua boa utilização da categoria. Podemos tomar como exemplo seus “companheiros de geração”, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda. Ambos chamam a atenção para aspectos muito relevantes da colônia brasileira; como a formação da família patriarcal e a ação do ethos do aventureiro. Contudo, partindo da família patriarcal ou do ethos do aventureiro não se pode perceber o “sentido da colonização”. Por outro lado, a partir do “sentido da colonização” é possível entender como age o ethos do aventureiro e se forma a família patriarcal no Brasil.

Antes de terminar e ao tratar especificamente de “os impasses da política”, quero chamar a atenção para um aspecto particularmente original da obra de Caio Prado Jr. [11]. Apesar de fornecer um retrato da colônia brasileira e do seu elemento mais importante, a grande exploração, como totalidades, ressalta a desarticulação entre produção, voltada para fora, e o consumo da maior parte da população. Ligado a isso, haveria no Brasil tanto o que chama de um “setor orgânico” como um “setor inorgânico”.

O setor orgânico equivaleria ao que se vincula à grande exploração. Naturalmente, ele corresponderia ao mais importante no país, até porque seria por via da grande exploração que se realizaria o “sentido da colonização”. Consequentemente, o setor orgânico teria reflexos sobre praticamente todos os outros aspectos da vida da colônia. Sua base seria a escravidão, onipresente na época. Caio Prado Jr. significativamente chega a citar, com aprovação, a afirmação de Alberto Torres de que na colônia a única coisa organizada era a escravidão.

O setor inorgânico, em contraste, se encontraria numa situação caótica. Nele estariam presentes tanto atividades voltadas para o mercado interno a pecuária e a produção de mandioca e determinados gêneros agrícolas como a multidão de atividades de difícil classificação ou inclassificáveis. Em termos sociais, corresponderia ao “número que vai avultando com o tempo, dos desclassificados, dos inúteis e inadaptados; indivíduos de ocupações mais ou menos incertas e aleatórias ou sem ocupação alguma” [12].

É interessante como, apesar da desorganização que marcaria o setor inorgânico, é para ele que Caio Prado Jr. volta suas expectativas. Mesmo porque, se a colônia estaria toda ela direcionada para fora, o setor inorgânico, por escolha ou falta dela, estaria voltado para dentro do país. Sugere, portanto, que se deve partir do setor inorgânico para se constituir algo diferente da colônia: uma nação.

Não sei se nosso horizonte ainda é a nação talvez não passe ela hoje de miragem. De qualquer maneira, quando se concentram apostas em algo do tipo do etanol como forma de resolver boa parte dos problemas brasileiros, não deixa de falar em favor de Caio Prado Jr. saber que voltava suas esperanças para aqueles que pareciam não poder ter esperança...

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Bernardo Ricupero é professor do Departamento de Ciência Política da USP e autor de Caio Prado e a nacionalização do marxismo no Brasil (São Paulo: Editora 34, 2000) e O Romantismo e a idéia de nação no Brasil (1830-1870) (São Paulo: Martins Fontes, 2004).

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Notas

[1] Ver: Theodor Adorno. Hegel: Three Studies. Massachusetts: The MIT Press, 1993. Prefiro não pensar nos possíveis resultados de julgar o atual momento do Brasil em confronto com Caio Prado Jr. Também confesso que, há dez anos, quando estudei, na minha dissertação de mestrado o autor em questão, procurei justamente separar, na conclusão, o que estaria “vivo e morto em Caio Prado Jr.”.

[2] Caio Prado Jr. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942, p. 6.

[3] Ib., p. 9.

[4] Ib.

[5] Ib., p. 8.

[6] Prado Jr. Diretrizes para uma política econômica brasileira. São Paulo: Gráfica Urupês, 1954.

[7] Carlos Nelson Coutinho. “Uma via não clássica para o capitalismo”. In: Maria Angela D’Incao (Org.). História e ideal: ensaios sobre Caio Prado Junior. São Paulo: Brasiliense, 1989.

[8] Georg Lukács. History and class consciousness. Massachusetts: The MIT Press, 1972, p. 27.

[9] Prado Jr. Formação do Brasil contemporâneo, op. cit., p. 13.

[10] Ib., p. 341.

[11] E aqui me sirvo principalmente das pistas levantadas por Maria Odila Leite Dias num ensaio intitulado justamente “Os impasses da política”. In: D’Incao (Org.), op. cit.

[12] Prado Jr. Formação do Brasil contemporâneo, op. cit., p. 279.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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