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A poesia de Um dia, o trem

Fábio Lucas - Julho 2009
 

Fernando Fábio Fiorese Furtado. Um dia, o trem. São Paulo: Nankin/Funalfa, 2008.

Com a leitura deste livro, tive, além de um texto surpreendente, as fotos memoráveis de Jesualdo de Almeida Castro.

Difícil acompanhar a mensagem geral submersa em poemas, estrofes, versos, tudo a serviço de reminiscências e valores subjetivos. Mas dá para captar alguns sinais significativos, que acenam para a própria experiência vivencial do leitor. E, na interação autor-leitor, aquilatar-se o peso da expressão literária e a validade da composição poética. Se eu tivesse de exemplificar, me bastaria com o trecho seguinte de “Linhas rivais”: “Mas texto é menos trem que o enguiço / de saber que no verso desembarca / apenas a prosa dessas coisas arcas / com que o menino se salva do olvido” (p. 35). Aí estão, a meu ver, alguns sinais-chaves (talvez os “sintagmas temáticos”) da produção de Um dia, o trem: “trem”, “verso”, “prosa”, “menino” e “olvido”. Numa segunda lista, virão circunstâncias modificadoras: “enguiço”, “coisas arcas”, “se salva”. Aliás, o título da obra já resume a contenda dos termos do grande poema-texto (a bela apresentação de Nonato Gurgel alude à “música” e à “escritura do pretérito”): “Um dia” refere-se a tempo; “o trem”, a movimento. Um pensador grego não dizia que o tempo é o número do movimento? Na filosofia, alvitrou-se a hipótese de o espaço constituir o ser, e o tempo o modo de ser.

Vamos adiante: o texto-poema é essencialmente evocativo, põe em ação as categorias pai, filho e filho transmudado em pai. Mas a emoção vivencial não é bastante. Ela se associa à realização verbal, consoladora, testemunho de um desempenho no campo da comunicação. E remete a outras duas escalas de emoção: a escrita e a memória de leituras.

Deixa claro o poeta que o poema-texto traduz “viagem” (o “número do movimento”) que, Fernando Fiorese, por sua vez, lembra a “estação” (espera, ainda não-viagem) e evoca a “ponte” (ou pontilhão), traço de união de duas margens. Evocam-se, igualmente, as leituras. Uma explícita: a crônica de Paulo Mendes Campos e, de certa forma, o bordão provindo de Heráclito acerca da irreversibilidade do tempo.

Mas resta mencionar o saldo implícito de uma leitura não denunciada. O poema “Brinquedo de outro” (p. 25), um dos melhores, e os seguintes, “Após o lápis” (p. 27) e “O menino em prosa” (p. 29), trazem presente o poeta João Cabral de Melo Neto e sua querela sobre se o poema deva assemelhar-se à prosa, isento de qualquer retórica inebriante, interdita, portanto, de valores musicais: “o duelo do metro com o acidente”, como diz Fernando Fiorese (p. 29).

A construção do poema-texto foi cuidadosa. Tanto que termina com o “Envoi”, ou seja, em francês, a última estrofe de uma balada e, em português, “Envio”. No poema-texto, afinal, quase uma declaração de humildade, uma vez que, durante todo o percurso, se tentou dar espaço à metalinguagem. Ou reconhecimento de uma baldada tentativa de elaborar, ao balanço do trem, uma arte poética.

E ainda: o poeta explora o menino que se fez adulto, como “acidente de percurso” no poema “Corpo discorde”. Citemos a conclusão: “perde-se a bagagem na baldeação / e se resta alguma muda de roupa, / traz na gola a nódoa dos muitos não / com que a madureza nos apouca” (p. 41).

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Fábio Lucas é crítico literário.



Fonte: Poiésis & Gramsci e o Brasil.

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