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Modernização, questão agrária e República

Luiz Werneck Vianna - Janeiro 2012
 

Maria Alice Rezende de Carvalho: Boa tarde a todas e a todos os presentes. É com grande emoção que cumpro, neste momento, a tarefa de apresentar Luiz Werneck Vianna, homenageado nesse 15º Encontro da Sociedade Brasileira de Sociologia com o prêmio Florestan Fernandes, e que, na verdade, dispensa apresentações. Sua trajetória é conhecida de todos: inclui passagem pelas mais prestigiosas universidades do país, bem como a autoria de obra original sobre o Brasil. Pesquisador, ensaísta, observador atilado da conjuntura política, é atualmente professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-Rio, onde coordena o Centro de Estudos Direito e Sociedade – Cedes. Tenho trabalhado com ele ao longo dos últimos 30 anos, e posso dizer que é um privilégio observar, de perto, a criatividade e a generosidade com que se movimenta no espaço acadêmico e no âmbito dos debates públicos.

Ainda ontem, o Prof. Rubem Barboza Filho, da UFJF, durante a Sessão de Abertura desse Encontro, apontou as duas principais linhas de força do pensamento de Luiz Werneck Vianna, ao aludir à sua contribuição para a renovação tanto da sociologia brasileira, quanto das teorias políticas que têm como objeto o Brasil contemporâneo. Essa é, pois, uma agenda que combina a dimensão histórica e a normativa, que associa conhecimento e ação, e que tem sido muito bem sucedida no esforço de atrair novas gerações para a prática das ciências sociais. Ao mencionar o compromisso de Luiz Werneck Vianna com a tradição e, ao mesmo tempo, a inovação da ciência que ajudou a institucionalizar, penso ter apontado uma de suas principais características. E mais não falo, pois estamos ansiosos para ouvi-lo.

Luiz Werneck Vianna: Agradeço à diretoria da Sociedade Brasileira de Sociologia por essa homenagem, que me toca e me emociona, na pessoa da Dra. Celi Scalon, minha ex-aluna em tempos idos e, depois, colega na instituição em que trabalhei por trinta anos, que é, hoje, essa personalidade afirmativa no mundo das Ciências Sociais brasileiras. Agradeço, honrado, a presença dos colegas e dos estudantes, desse público juvenil que tenho diante de mim, público da minha predileção e para quem, confesso, vou falar.

Apesar do que consta na programação, não vou fazer uma conferência, não sei fazer conferência. Depois de muito pensar, julguei, de início, que a forma mais apropriada para me comunicar com meus colegas e estudantes de Ciências Sociais seria a de uma intervenção sobre um tema permanente da minha agenda de estudos, mas acabei por me fixar na ideia de produzir uma instalação, à moda dos artistas plásticos, que expõem suas intenções de forma fragmentada e esperam que o público formule livremente o seu entendimento a respeito dos fragmentos que o autor reuniu para sua contemplação.

Imagino que isso não seja fácil de fazer nas artes plásticas, e, com certeza, como reconheço agora — sem possibilidade de voltar atrás —, é terrivelmente difícil nas Ciências Sociais. Mas foi, tudo pesado, a estratégia que me restou, dado que a única coisa certa para mim é a de que não faria uma conferência. Nessa linha, solto do constrangimento da exposição de um argumento científico, optei por uma abordagem expressivista, mais pessoal, mais conforme à minha identidade, e começo por revelar o tema que me obsedou, desde sempre, como, de resto, a boa parte da minha geração, especialmente da intelligentsia, dos intelectuais, dos artistas. Esse tema ainda me ronda — o papel da questão agrária na modernização capitalista brasileira.

Desnecessário esclarecer que não frequentei a área de pesquisa dos estudos agrários, ao contrário da estimada Maria Nazaré Wanderley, sabiamente homenageada neste Congresso, reputada especialista no assunto que persegue há décadas e de que extraiu sua influente produção acadêmica. Não falo dessa perspectiva, não é esse o meu ponto. Falo da perspectiva da Sociologia Política.

Recupero, aqui, como e com que motivações a questão agrária dominou o imaginário e as fabulações da minha geração, a começar pela filmografia. Dela, cito alguns casos exemplares: São Bernardo, de Leon Hirszman; Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, ambos com argumentos extraídos do romancista Graciliano Ramos; Pagador de promessas, de Anselmo Duarte, versão cinematográfica da peça homônima de Dias Gomes; e, sobretudo, aquele que teve uma presença capital nessa geração de intelectuais, Deus e o diabo na terra do Sol, de Glauber Rocha. Penso, ainda, no trabalho de um dos maiores documentaristas brasileiros, Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, filme iniciado no sertão, nas circunstâncias do imediato pré-golpe de 64, com suas filmagens interrompidas com a fuga rocambolesca, em pleno sertão, do seu diretor, com a câmera na mão e o filme inconcluso que ele conseguiu salvar. Cabra marcado para morrer somente será completado quase vinte anos depois.

A minha geração de intelectuais, criados e formados nos centros urbanos, tinha a imaginação fixada no mundo agrário. Mas que motivações, idealmente, nos aproximavam dele, nós que éramos tão distantes e estranhos à sua realidade? Chegamos ao tema agrário em busca de caminhos para a revolução, e tal como ocorreu com a intelligentsia russa de meados do século XIX — aqui, decerto em escala bem menor —, a “ida ao povo” se tornou um projeto geracional, do que foi exemplar a história do Centro Popular de Cultura (CPC), abrigado na União Nacional dos Estudantes (UNE), cuja breve existência — apenas três anos — não permitiu a maturação das muitas experiências que então buscavam caminhos de realização.

A leitura feita por nós de Deus e o diabo na terra do Sol, de eloquência tipicamente barroca e com sua força messiânica, sugeria que a partir da energia do mundo do sertão podia vir a ser desatado um movimento, com raiz nas tradições profundas dos setores subalternos, desde que despertasse a paixão da inteligência e viesse a se encontrar com os operários dos grandes centros urbano-industriais, conduzindo a uma ruptura com a iníqua história republicana do Brasil. Nessa versão, hegemônica na esquerda da época, a revolução democrática brasileira seria conduzida pela articulação do moderno com a tradição, compreendida essa como representada pelos seres retardatários da nossa civilização. No caso, tal posição guardava afinidades com a de Euclides da Cunha, em Os Sertões, quando advertiu que “em vez da guerra contra os sertanejos, do que precisávamos era de uma propaganda tenaz, contínua e permanente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar para a nossa existência aqueles rudes compatriotas retardatários”.

Contudo, ressalte-se, a perspectiva de Glauber não sinalizava para essa direção e, sim, para uma, digamos, antropologia visceral, um levante do sertão contra o que seria uma civilização tomada de empréstimo, sem raízes no Brasil profundo, arredio à política e às intermediações institucionais — “o sertão vai virar mar”—, não expressando, de modo algum, o pensamento da nossa geração, que tinha optado pela via da participação no jogo institucional e na organização político-partidária da esquerda da época com a pretensão de democratizar a república.

Mas, sem dúvida, repor o tema do sertão, em chave positiva, no imaginário da minha geração coube a Glauber Rocha, que, a seu modo, concedeu nova vida ao poderoso diagnóstico fixado no clássico de Euclides da Cunha. Como sabemos, os primeiros anos da República começam sob o signo de uma contraposição agonística entre a civilização e a barbárie, a partir de uma movimentação sertaneja de cunho messiânico no aldeamento de Canudos, logo interpretada nos círculos oficiais como uma sedição antirrepublicana a ser debelada pela força militar em nome de uma cruzada civilizatória. A República não estenderia a cidadania ao sertão, compreendendo-o, na metáfora usada por Euclides, como uma Vendeia a ser destruída.

O massacre de Canudos pelo exército republicano sinalizou o estranhamento que o sistema da ordem mantinha não só em relação ao sertão e ao sertanejo, quanto, de modo ainda mais geral, em relação aos trabalhadores da terra. Manteve o exclusivo agrário e se recusou a abrir oportunidades para o imenso contingente populacional recém-liberto da escravidão e para os brancos livres e pobres do campo, onde viviam do favor de potentados locais ou sujeitos a regimes de trabalho de semisservidão. Foi com essas marcas que a nossa república se apresentou diante da esmagadora maioria da população brasileira que então vivia no mundo agrário, boa parte dela no sertão e nos lugares escondidos do Brasil.

A república, obra de elites modernizadoras, civis e militares, deixa, assim, intacta a estrutura da propriedade fundiária, que nos vinha da Colônia e do Império, com suas dramáticas repercussões sobre a estrutura social do país. Com Canudos, os militares, com seus toscos ideais civilizatórios de matriz positivista, demonstraram não compreender a necessidade de ampliação social da república — com a incorporação do sertão —, assim como deixaram patente sua indiferença em relação à questão agrária, que um Euclides, também ele de origem militar, veio a diagnosticar como a questão de fundo da rebelião sertaneja.

As elites civis, por sua parte, hegemônicas a partir do seu controle da economia da agroexportação, declinam do seu ideário liberal dos tempos em que se opunham à monarquia, para fazer do Estado um instrumento dos seus interesses, tal como consagrado, em 1906, no Convênio de Taubaté, uma política intervencionista destinada a garantir preços mínimos para a exportação do café por meio de recursos públicos. A modernização do capitalismo agrário, então representado pela cafeicultura, deveria encontrar sua escora de sustentação na agência estatal. Datam daí as origens do estilo de modernização conservadora, que vai fazer história entre nós e que se vai consolidar nos anos 1930, quando o Estado se empenha na industrialização do país.

Nesse cenário nada perturba a paz dos latifúndios: os setores já capitalistas da agroexportação e os tradicionais, todos entranhadamente articulados em nome da defesa do exclusivo agrário e da reprodução do sistema político pelo voto de cabresto, com o qual os potentados locais exerciam seu mando sobre a imensa população dos subalternos do campo. Somente para registrar, vale considerar que a revolução agrária mexicana é de 1910. Aqui, afora a tropelia de poucos bandos de jagunços, que exerciam, eventualmente, funções de milícia privada a serviço dos grandes proprietários de terras em suas disputas políticas ou territoriais, nada se mexia. Patrimonialismo e capitalismo agrário, a modernização já é um projeto, mas o moderno não faz parte dele.

A república para nós foi isso, domínio oligárquico de elites agrárias e tradicionais, camuflado por uma vistosa arquitetura institucional de inspiração liberal, um liberalismo de ranço darwinista, que confiava ao mercado a sorte dos novos seres emergentes com a expansão do mundo urbano-industrial, impedindo-lhes a contratação coletiva da venda da sua força de trabalho pelos sindicatos e ignorando suas pretensões por direitos sociais. Essas primeiras décadas republicanas nos deixaram essas marcas, algumas delas notoriamente ainda presentes entre nós.

A propósito, James Harrington, autor de Oceana, um clássico da literatura republicana, escrito em plena Revolução Inglesa, em meados do século XVII, glosando Maquiavel, ao tratar do tema da fundação, anotava que “assim como ninguém me mostrará uma comunidade nascida reta que tenha algum dia se entortado, da mesma forma ninguém me mostrará uma comunidade nascida torta que tenha algum dia se endireitado”. Pretendo que esse pequeno texto de Harrington seja o mote da instalação que ora lhes apresento.

Chamo a atenção, porém, obedecendo, aliás, à própria linha argumentativa de Harrington, que ele próprio buscou remédio para a fatalidade do seu diagnóstico, pois acrescentou que, pela escolha reflexiva, os homens podem endireitar o que nasceu torto — a história não conhece a marcha à ré. Não somos prisioneiros das nossas origens, mas devemos reconhecer o quanto elas pesam, particularmente agora, porque somos testemunhas de um processo, em cenário de plena democracia política, em que velhas estruturas e velhos personagens, com novas roupagens, encontram lugar em posições dirigentes em mais um ciclo de modernização capitalista do país.

Minha geração e a que foi anterior a ela, nas Ciências Sociais e no estrato dos intelectuais em geral, com papel destacado da literatura — ao menos dois nomes são de citação obrigatória, Graciliano Ramos, de Vidas secas, e Guimarães Rosa, de Grande sertão: veredas —, empenharam-se em demonstrar o papel do mundo agrário na configuração quasímoda da nossa formação e nas lutas em favor da sua democratização. Os anos 1950 e os do começo dos 60 são de luta pela organização sindical dos trabalhadores do campo e pela democratização da propriedade da terra, a essa altura já em processo de articulação com o sindicalismo urbano, especialmente com os sindicatos operários.

A questão agrária, a partir daí, passa a ocupar um lugar destacado na agenda dos partidos de esquerda, na produção do ensaísmo e na das ciências sociais. Sob o governo João Goulart, de orientação democrática e popular, ela se converte em tema central do seu programa de reformas estruturais do país, quando, pela primeira vez em nossa história republicana, descortinou-se a possibilidade de desentortar as marcas que trazíamos da nossa fundação.

O torto, porém, não nos chegou como um resultado aleatório da nossa história, pois foi, desde sempre, fruto de uma ação concertada e preparada para repelir qualquer infração ao pacto das elites, do qual o estatuto do exclusivo agrário era uma das vigas mestras. No começo dos anos 1960, a ação transgressora esteve na iminência de se impor, dado o aumento das pressões em favor de uma reforma agrária. A percepção da época era a de que, no caso de democratização das relações sociais vigentes no mundo agrário, com a destituição social e política das oligarquias tradicionais ali enraizadas, tornava-se real a ameaça de uma perda generalizada, no campo e nas cidades, dos controles que exerciam sobre a vida popular. A intervenção militar de abril de 1964 foi, então, o remédio de que se socorreram as elites modernas e tradicionais.

O regime militar demonstrou, logo em seu inicio, que tinha plena consciência da gravidade da situação no mundo agrário, intervindo sobre ele com ações de alcance estratégico no sentido de imprimir outro curso aos conflitos já manifestos no seu interior. Em termos gerais, a orientação dessa estratégia visava, em uma política de longo prazo, a par do objetivo imediato de pacificar as disputas por terra e por direitos, incorporar o hinterland ao amplo movimento de modernização burguesa — flertando, mais uma vez, com a metáfora de Euclides, “o mar é que viraria sertão”, sujeito à colonização pelo sistema de vida do litoral.

Sob essa inspiração, sucedem-se as iniciativas: o Estatuto Rural, a montagem da Previdência Social Rural, os megaprojetos de colonização com estímulos à migração do campesinato do sul em direção à fronteira agrária do país, a estrada Transamazônica, a manipulação da movimentação demográfica, como em Serra Pelada. O sertão se torna uma empresa política do Estado e a fronteira passa a ser jurisdicionada pelo seu braço armado. Lembrar do major Curió e de suas façanhas na região. Sem que se reforme, no essencial e substantivamente, o estatuto da propriedade da terra, o hinterland, sob a condução do regime militar, é arrastado para a lógica da modernização burguesa.

De fato, tal movimentação ciclópica de homens e de recursos resultou na abertura de novas oportunidades de vida, vindo a favorecer a mutação social que levou a que migrantes camponeses originários do Sul se convertessem em cúlaques modernos, mudando a paisagem política e social do sertão. Apenas em parte esse processo obedeceu ao ritmo natural de um movimento migratório, na medida em que ele foi acompanhado e administrado por políticas indutoras e de financiamento por parte do Estado, decisivamente em chave técnico-científica com a criação da Embrapa, que abriu novos horizontes para a agricultura, em especial para o agronegócio. Decididamente, essa não foi uma fronteira do tipo da americana do século XIX.

De outra parte, o próprio esforço industrial da modernização, que exigia grandes obras de infraestrutura, como estradas, energia — a construção de Itaipu —, as obras do metrô, da ponte Rio-Niterói, levando a uma poderosa mobilização de mão de obra, incidiu sobre a atenuação da pressão que o campesinato exercia sobre a questão da terra. Desde aí, surgiu a fabulação de que o tema da democratização da terra estaria condenado ao anacronismo, com a própria esquerda arriando suas tradicionais bandeiras sobre o assunto, considerado um equívoco a ser corrigido.

O que importa registrar, no caso do regime militar, foi o fato de ele ter se apropriado de boa parte da agenda do movimento democrático, inclusive quanto à questão agrária, realizando-a, em alguns dos seus tópicos, “por cima”, de modo decisionista e autocrático, restaurando o movimento da modernização conservadora e a sua forma específica de articulação entre as modernas elites industriais com as tradicionais do mundo agrário, essas últimas — uma singularidade do regime militar quanto a experiências anteriores — tangidas, por políticas de Estado, a assumirem uma feição propriamente capitalista. A modernização deveria persistir, a passagem para o moderno é que deveria ser interditada.

Assim, apesar da ênfase do discurso político com que se instaura o regime militar, centrado na denúncia do populismo e do nacional-desenvolvimentismo do chamado ciclo Vargas, ele retoma e aprofunda a política dos surtos anteriores de modernização — o do Estado Novo e o de JK —, embora ressalvando-se que, no caso deste último, ela tenha sido conduzida de modo reverente às instituições políticas da Carta de 1946.

O regime militar, apesar das indecisões do seu início, por ensaio e erro, na medida em que se confronta com as dificuldades de governo, vai conceder, progressivamente, nova vida ao conjunto de práticas e políticas que presidiram a modernização estadonovista. Aliás, algumas lideranças e alguns ideólogos serão os mesmos: Francisco Campos, redator da Carta promulgada de 1937, será o autor do Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, justificando o novo regime em nome de uma revolução que se legitima a si mesma, não sujeita, portanto, a controles externos à manifestação da sua vontade soberana. Filinto Müller, chefe de polícia do Distrito Federal, em 1937, será o presidente da Arena, partido de sustentação política do regime militar.

Quanto aos sindicatos, retoma-se a forte tutela exercida pelo Estado, bane-se a estrutura partidária e, de forma mascarada, retorna-se à política de nomeação dos governadores dos idos de 1937. O estilo político decisionista será também o de 37, assim como a orientação em favor de um capitalismo politicamente orientado para os fins de realização de objetivos nacionais, identificados segundo a livre discrição do grupo a que se confiava a chefia da nação.

As forças políticas e sociais que sustentaram a resistência democrática ao regime militar não ignoraram que o sentido de suas lutas se aplicava a objetivos bem além da sua simples substituição. Venceu, então, o diagnóstico de que a república nascera torta, sendo necessário rever seus fundamentos, e, para esses propósitos, o esforço de reflexão nas Ciências Sociais brasileiras, em particular nos anos 1970, deu não pequena contribuição. Veio delas a demonstração de que o autoritarismo político procedia da modernização conservadora, sempre reiterada entre nós, e que resultou em uma relação assimétrica entre um Estado ativo e uma sociedade dele dependente e, pior, estranha a seus fins.

Ao longo dos anos da resistência democrática ao regime militar, tal diagnóstico não somente se adensou como formatou o seu programa, que veio a expressar os ideais e valores do moderno em contraposição às políticas e práticas da modernização conservadora da tradição republicana. Sua tópica será a do tema da autonomia da sociedade e da vida associativa em geral quanto ao Estado, a da descentralização, com ênfase na valorização do poder local — bordão da época, “as pessoas nascem e vivem nos municípios” —, a da democratização da terra, a da abertura da esfera pública à participação da cidadania.

Esse programa vai à Assembleia Constituinte de 1986 e será legitimado, em suas linhas gerais, na Carta de 1988, respaldado por um amplo sistema de direitos civis e públicos, em escala inédita entre nós. O texto constitucional, ademais, provavelmente em reação às práticas decisionistas do poder executivo em nossa tradição, cria um complexo sistema de contrapesos a fim de conter a discrição da Administração Pública, criando, entre outras importantes inovações institucionais, um Ministério Público dotado do papel de defensor das instituições democráticas e dos direitos da cidadania.

Sem dúvida, tínhamos encontrado os meios e modos para que nossa experiência republicana viesse a desentortar, expectativa que parecia ter se consolidado com as sucessivas presidências de Itamar Franco, de Fernando Henrique e de Lula, estes últimos destacadas personalidades políticas do movimento da resistência democrática contra a ditadura militar. No caso dos dois governos de Lula, com suas origens no sindicalismo operário e com sua história de campanhas políticas contra a tradição republicana brasileira, inclusive, em certos momentos, em matéria sindical, parecia próxima a hora de atravessar o Rubicão.

Não vou me deter na complexa conjuntura do período nem na análise das contingências com que se inicia o governo do PT, um partido de esquerda que conduz à Presidência um quadro egresso do movimento operário, portando um programa de mudanças. Meu ponto, lembrando, mais uma vez, o teorema de Harrington, é o de que, para endireitar “uma comunidade nascida torta”, não basta a um ator estar iluminado pelas melhores intenções, se ele se descuida de impedir que os males da sua má formação continuem a se reproduzir.

O fato fora de disputa é que está aí, diante de nós, uma moderna e consolidada ordem burguesa, com um capitalismo em expansão, com as instituições da democracia operantes, contando, agora, é verdade, com políticas sociais compadecidas quanto à multidão dos excluídos. Contudo, afora esse quadro de boas cores, na política e nas entranhas da nossa estrutura social, o que teria desentortado? Mudamos, de fato, ou mudamos-conservando? Com qual repertório se tem aprofundado a experiência capitalista brasileira, hoje já se projetando além de suas fronteiras, como em países africanos e do nosso subcontinente, como se estivéssemos dotados de um destino manifesto de política grão-burguesa?

A questão agrária, tal como se apresenta na cena atual, se constitui em um sugestivo sintoma de um processo de mudar-conservando, na medida em que, cortados os elos com sua significação de origem, foi capturada pela lógica da acumulação capitalista sob o agronegócio, novo carro-chefe da economia brasileira, sem que se tocasse nos fundamentos da nossa estrutura fundiária, em um processo transformista de modernização do sertão.

A sociedade e a política, nessa mutação, povoam-se de novos personagens influentes, tal como os chamados ruralistas à testa do agronegócio, presentes no Congresso com uma significativa bancada e no próprio governo, onde ocupam posições estratégicas. Na esteira desse movimento, surgem novas fabulações, algumas com origem na própria esquerda, identificando essa nova fração de classe burguesa como representativa dos interesses nacionais, defensora do território diante de uma pretensa ofensiva imperialista, papel antes outorgado, com justas razões, à indústria e ao mundo a ela correlato.

Não estou em cruzada contra o agronegócio, o que sustento é que a magnitude da sua presença na política e na esfera pública em geral imprime nelas um caráter conservador, quando não abertamente recessivo, inclusive porque a história com que se afirmou no capitalismo brasileiro não conta com registro no inventário de lutas da nossa democracia. Sintoma disso está na redução atual da questão agrária a um tópico minimalista, ausente da agenda política do país.

Nesse sentido, o caso do agronegócio serve de ilustração do atual estado de coisas no país, no sentido de fixar o entendimento de que estamos em pleno curso de mais uma onda dos processos de modernização que frequentam de modo recorrente a nossa história, dessa vez, é certo, sutilmente velada e certamente desacompanhada dos recursos repressivos das anteriores, embora, como seja típico de processos sociais desse estilo, sem estimular o moderno e a sua expressividade. Assim, na terra da jabuticaba — um fruto, diz-se, que somente medra aqui —, tem-nos cabido conhecer um processo bizarro de revolução passiva em que é a esquerda, contrariando a experiência clássica, que se empenha na dialética torta do mudar-conservando.

Os indicadores da ressurgência da síndrome característica dos nossos ciclos anteriores de modernização não se fazem esconder, pois estão aí na forma de um capitalismo politicamente orientado, no retorno às políticas e ao feitio da nossa tradição de centralização administrativa — a Federação míngua a olhos vistos —, nas relações entre o Estado e as grandes empresas — agora, chamadas de empresas-líderes —, na fusão entre economia e política, e, principalmente, nas práticas de um decisionismo mal camuflado nas operações do nosso dito presidencialismo de coalizão, que, na verdade, garantem ao executivo, pelo uso indiscriminado de medidas provisórias, capacidade de intervir sobre a sociedade sem que haja prévia deliberação, sem que se aponte para onde se quer ir. A propósito: qual o nexo necessário entre uma política de alcance social, como a erradicação da miséria, por exemplo, com o projeto grão-burguês de expansão do capitalismo brasileiro na economia-mundo?

Recaímos, quase sem sentir, nas malhas da nossa história, e a ironia está em que isso nos ocorre no momento em que tudo indicava que estávamos prontos para nos liberar dela. É verdade que no papel, com a Carta de 88, demos um passo importante nessa direção, mas a dimensão sistêmica, como nós, sociólogos, designamos os processos de reprodução da vida material nas sociedades do moderno capitalismo, tem nos escapado das mãos e segue seu curso autopoieticamente.

Contamos, como sempre, com os recursos da crítica e dos que nos são fornecidos pela disciplina a que nos dedicamos, cuja produção brasileira jamais se conformou em submeter o moderno à modernização. Ainda aqui, nesse rico e concorrido Congresso, estamos empenhados, conforme a sua carta de convocação, nos desafios sociológicos envolvidos nos processos de mudança, que, como sabemos, não são poucos, mas o maior deles é o de não perder a perspectiva de que as mudanças efetivas são as que partem e se escoram na livre deliberação dos principais afetados por elas, e não aquelas que desabam sobre o corpo social em nome de uma razão pretensamente iluminada que detém em si um projeto para a nação.

Uma leitura da agenda deste nosso Congresso é mais eloquente do que qualquer das minhas palavras, pois é do moderno, da democracia, dos direitos da cidadania e das lutas por autonomia da vida popular que se vai tratar aqui. Reporto-me, no mais, a essa agenda.

Muito obrigado.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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