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Os bolcheviques de hoje

Adelson Vidal Alves - Março 2017
 


Fevereiro e Outubro de 1917 são etapas distintas de um fato histórico de grande importância no século XX: a revolução russa. Para muitos, o século inicia neste ano e só termina quando o fruto principal deste grande evento desmorona, em 1991, com o fim da União Soviética. Contar a história da chamada revolução bolchevique, na verdade um golpe de Estado que destituiu a fração minoritária dos revolucionários russos do poder, não é nada fácil, ela envolve sentimentos e paixões ideológicas dos quais nem mesmo o historiador está a salvo.

Mas me parece claro que a principal concretização do sonho marxista esteve envolvida em grandes distorções em relação ao que pensavam e desejavam Marx e seus seguidores mais autênticos. Depois da dissolução da Constituinte e da consolidação do golpe liderado por Lenin, os anos que se seguiram contrariaram as previsões do filósofo alemão. A “gloriosa revolução proletária” (o proletariado, na verdade, não chegou ao poder) deu lugar a sanguinárias ditaduras, sobretudo no período stalinista (1926-1953), em que processos foram forjados, oposicionistas perseguidos, camponeses assassinados e as liberdades mais básicas extintas.

Além das possíveis traições da direção revolucionária em relação à utopia comunista, denunciadas por Trotski, por exemplo, a revolução também sofreu interferências das condições objetivas da Rússia, um país agrário e atrasado, sem um operariado desenvolvido. Além disso, ela não veio acompanhada de outras revoluções em países mais desenvolvidos, como na Alemanha, onde os trabalhadores preferiram a social-democracia. O fracasso da “revolução mundial” isolou os revolucionários russos, que só conseguiram sobreviver e se desenvolver com um regime com mão de ferro e uma política desenvolvimentista que custou fome, trabalho forçado e milhões de mortes.

As condições da Rússia pré-revolucionária desafiavam a teoria marxista, que só cogitava uma revolução de sucesso em países onde as forças produtivas estivessem devidamente desenvolvidas. O triunfo do grupo de Lenin levou muitos a refletir sobre o que então era impensável. Foi o caso de Gramsci em seu famoso ensaio “A revolução contra O capital” e, depois, em seu sistemático pensamento no cárcere, segundo o qual a grande questão era: por que a revolução socialista triunfou em um país atrasado e fracassou em uma nação desenvolvida? Daí o comunista italiano vai elaborar sua teoria política revolucionária no qual se destacarão os conceitos de “Ocidente” e “Oriente”, os quais representam realidades econômicas particulares do capitalismo que exigiriam, cada uma delas, um tipo diferente de estratégia revolucionária.

As questões que envolvem a revolução bolchevique, prestes a completar 100 anos, ainda hoje provocam historiadores, cientistas sociais e militantes anticapitalistas de todas as correntes. No centro das discussões, não só as possibilidades históricas oferecidas, ou não, à direção revolucionária bolchevique, mas principalmente um elemento certamente desprezado em sua trajetória histórica, que muitos consideram como fator decisivo na derrota do regime soviético: a questão democrática. Os sucessivos governos da URSS, em proporções diferentes, trataram a democracia como um elemento dispensável, seguindo mais ou menos à risca a distinção leninista entre “democracia burguesa” (parlamentar) e “democracia proletária” (direta).

Nos dias de hoje, um século após Outubro de 2017, qual o papel da democracia na reflexão da esquerda? É possível ainda hoje usar como atual a fórmula bolchevique de revolução?

Mesmo parecendo anacrônicos, ainda há grupos e partidos dispostos a repetir o exemplo bolchevique em pleno século XXI. Para estes, as transformações mundiais pouco importam, segue vivo o dogma de que o socialismo é o substituto natural do capitalismo num percurso inevitável da história. Bastaria esperar o amadurecimento das leis históricas para que ela mesma, quase sozinha, dê cabo ao capitalismo e à sua dinâmica contraditória. A democracia? Bem, ela seguiria sendo uma máscara da ditadura burguesa. Deve ser usada temporariamente, até a ditadura do proletariado e a condução para um mundo sem Estado e sem classes.

Os bolcheviques de hoje desprezam as eleições e ignoram a abertura do Estado para a participação popular. O Estado segue sendo para eles uma fortaleza inatingível da burguesia, o Estado-coisa, no termo feliz utilizado por Nicos Poulantzas.

Dispostos a enfrentar o Estado de fora para dentro, sem alianças consistentes e com desprezo militante contra os partidários do reformismo, os neobolcheviques tratam como traidores aqueles que advogam uma luta gradual por espaços na sociedade e no Estado rumo a um socialismo democrático. Seriam todos revisionistas, pequeno-burgueses, etc. Repetem-se os rótulos, perde força o ideal socialista.

Um mundo que não mais existe ainda permanece no espírito dos bolcheviques de hoje. A revolução tecnológica, a socialização da política, o encolhimento do operariado, a perda de relevância da luta de classes parecem não significar nada para eles, que permanecem aguardando o grande dia em que assaltarão definitivamente o Palácio de Inverno.

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Adelson Vidal Alves é historiador.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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