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Notas culturais

Ivan Alves Filho - Junho 2017
 

A forma — e não apenas o conteúdo — é portadora de toda uma concepção de mundo. Tanto o surgimento da perspectiva quanto o da profundidade de campo, por exemplo, devem muito às grandes navegações e às chamadas descobertas, que ampliaram significativamente o espaço de visão do homem. A pintura do Renascimento é prova disso. Na arquitetura, verifica-se algo semelhante, com as catedrais góticas apontando suas torres para o céu, cutucando as estrelas, à procura do infinito.

A teoria não é capaz de oferecer, por si mesma, solução para os problemas que ela levanta. Esse seu grande paradoxo: as questões teóricas possuem uma raiz prática. Sistema doutrinário algum substitui a experiência. A realidade é sempre o ponto de partida e ela prima sobre qualquer conceito — ainda que não o dispense. Assim, é preciso partir do real e, uma vez este abstraído, retornar à própria realidade, enriquecendo-a desta feita. Não há outra maneira de fazer com que a teoria se torne um instrumento de fato útil ao conhecimento.

De maneira geral, a atividade cultural tem diversificado seu campo de criação e pesquisa. Mas é preciso cautela diante de uma tendência a uma certa especialização que pode gerar ignorantes de um novo tipo, ou seja, sem cultura geral e a necessária abrangência.

É possível ir além do seu tempo em muitas áreas do conhecimento e da ação. Mas não em todas. É o que explica muitas lideranças políticas progressistas expondo posições atrasadas em relação à atividade cultural. E também muitos criadores talentosos marcarem o passo diante da política.

As massas populares vivem de tal maneira esmagadas que dá para entender por que consideram que a cultura não tenha lá grande utilidade para elas. Já se observou que a cultura não é vista pelas massas como uma ajuda concreta em sua prática diária. No máximo, elas encaram a produção cultural como uma diversão ou uma janela para o respiro na árdua batalha pela sobrevivência. Mas aqui já temos um primeiro passo, talvez, para caminhadas maiores. Afinal, respirar nos mantém vivos — e por isso mesmo esperançosos.

Hoje, alguns setores da cultura e da reflexão revelam maior preocupação em desconstruir do que em construir. Tendem, ainda, a dizer que tudo se transformou em espetáculo e que o sistema tudo absorve. Até o mérito virou demérito, vejam só (e aqui não há como não recordar Alexis de Tocqueville: “A paixão pela igualdade pode gerar tendências ruins”). Sinal dos tempos, provavelmente — e seguramente da falta de rumos aliada a uma impotência por parte de uma parcela da intelectualidade. E aqui é importante frisar, ainda, que está despontando uma nova intelectualidade, formada pelos trabalhadores da ciência, sem dúvida mais antenada com as mudanças em curso no mundo, tanto no tocante à automação na esfera produtiva quanto às transformações na área das telecomunicações.

Entre o comportamento elitista e a visão populista em matéria de cultura — ambos questionáveis, a nosso juízo —, existe um posicionamento democrático, pautado exclusivamente pela busca da qualidade. Isto é, nem desdém nem demagogia. Mas — isso sim — defesa de uma cultura comprometida com aquilo que a sensibilidade e a razão das pessoas têm de melhor. Nem a cultura dita popular é forçosamente revolucionária nem a cultura dita elitista é necessariamente reacionária. O que interessa não é tanto de onde se vem, mas para onde se vai. O ponto de partida se subordina à ideia de processo em matéria de cultura.

Quando há algum ataque à cultura dita elitista, eu me pergunto se o que está em jogo é o termo cultura ou a palavra elitista. Pois se o problema reside no elitismo, então é mais fácil de resolver do que se imagina: vamos lutar para democratizá-lo, propondo uma espécie de elitismo para todos e ponto final. Mas desconfio que o verdadeiro alvo seja a cultura. Ela bate de frente com o obscurantismo, essa antessala da barbárie.

É mais comum do que se pensa, assim na cultura como na política, travar um combate equivocado contra aquilo que já se configura como um equívoco. Rechaçar de forma errada o que errado está só aumenta a dimensão da tragédia.

O idioma alemão acertou na mosca. Li uma vez em um ensaio de Otto Maria Carpeaux, austríaco de nascimento, que o verbo aufheben significa tanto abolir quanto conservar. O espírito dialético é exatamente isso: superamos o passado, nunca o apagamos.

As mudanças provocadas de fora para dentro costumam ser mais rápidas do que aquelas que se processam apenas no âmbito interno. É pelo menos o que a trajetória da cultura parece demonstrar para nós.

Estudos recentes na área das neurociências comprovam que estímulos de fora — de corte ambiental ou social — provocam modificações na rede neural dos indivíduos. E o que é mais interessante: essas “marcas” podem ser transmitidas para outras gerações. Ficaria estabelecida assim a existência de um tipo de DNA da alma. Evidentemente, as descobertas das neurociências abrem perspectivas extraordinárias para as pesquisas históricas e culturais. Agora a interdisciplinaridade integra oficialmente o nosso DNA.

Em discurso pronunciado no Palácio dos Esportes de Berlim, em 1935, o chefe nazista Adolfo Hitler declarou que “qualquer atividade humana e social está justificada se contribuir para preparar a guerra”. Que isso sirva para lembrar que nem sempre a Civilização se apresenta com a solidez que atribuímos a ela. Creio que foi o que Karl Marx quis dizer ao nos alertar para o fato de que tudo que era sólido desmanchava no ar. Zigmund Bauman aprofundou essa questão em seus estudos sobre a modernidade líquida. Pelo visto, líquido e sólido também são estados de Civilização.

A cultura humanística, sozinha, não dá conta da luta contra a barbárie. É preciso que as instituições democráticas venham em seu socorro. Quando essas instituições naufragam, é que se dá o predomínio da barbárie. O caso da Alemanha na primeira metade do século XX é dolorosamente exemplar. Muitos se indagam ainda hoje como um país tão culto sucumbiu à boçalidade e à brutalidade hitleristas. Mas talvez devêssemos indagar também como um país igualmente culto como a Inglaterra evitou, à mesma época, cair no canto da sereia do totalitarismo. As instituições democráticas fazem toda a diferença.

A cultura, enquanto estar no mundo, pode nos ajudar a entender melhor a própria democracia, que não se limita a ser apenas uma forma de governo. Vale dizer, a democracia significa, também, uma maneira de viver a vida, tanto no plano das ideias e do comportamento quanto no tocante ao mundo do trabalho e das instituições em geral.

A opção pelo chamado multiculturalismo tem forjado verdadeiras pequenas nações dentro da nação maior. A ausência de uma política de integração tem conduzido à atomização e, por extensão, à própria desintegração social. Surge um moderno tribalismo em algumas áreas do Globo. Penso que cada comunidade deveria se encarregar, internamente, de divulgar e cultivar suas especificidades culturais, sem que para isso renuncie à comunidade maior, de caráter mais universalizante, cosmopolita. Uma espécie de duplo patriotismo cultural poderia se formar então, apresentando-se como uma opção tanto ao assimilacionismo quanto ao isolacionismo. Uma coisa é ser parte de uma luta; outra, muito diferente, é ser uma luta à parte.

A cultura surge da observação da vida em toda a sua plenitude. Por exemplo, se o exame do ambiente histórico ajuda a entender o comportamento religioso, o mesmo pode ser dito em relação ao próprio ambiente natural em que o homem se insere. O povo judeu, como sabemos, foi forjado no deserto, sujeito a frequentes tempestades de areia. Daí talvez o Antigo Testamento destacar que “entre todas as obras de Deus nada é mais desconhecido para qualquer povo do que o rastro do vento”.

Como que para provar que a imaginação dos artistas não tem a realidade por limite, Pablo Picasso desenhou o retrato do seu primeiro filho antes mesmo que ele nascesse. Por essas e por outras é que a Arte é o último reduto das práticas mágicas no mundo contemporâneo.

Pode parecer um paradoxo mas não é: o silêncio é indispensável à construção das palavras. A literatura, como a prece, pede recato e recolhimento. Depois, grita.

Em matéria de literatura, tomar partido nunca é o melhor caminho para alcançar seus objetivos. Quanto menos o autor interfere, mais o texto tem a possibilidade de sobressair. A trama deve falar mais alto. A qualidade artística conscientiza mais do que qualquer panfleto.

Não se pode confundir realismo e descrição sociológica em um texto de ficção. Pois há realismo também na dimensão psicológica das personagens do enredo. Mestre Ariano Suassuna foi direto ao ponto: “Uma das melhores maneiras de trair a realidade é ser-lhe fiel de modo estreito”.

Sobre o peso da literatura: “Eu vou morrer e a puta da Bovary vai continuar a viver”, teria dito Gustave Flaubert, quando sentia a proximidade da morte.

A Teologia é a estética de Deus.

Na cultura — como no pensamento e na vida em geral — se tivermos de escolher entre a ortodoxia e a realidade, é melhor apostar nesta última. Afinal, o método, qualquer método, é apenas um instrumento de aproximação ao real, com maior ou menor grau de sofisticação. E ele está sempre subordinado à realidade objetiva. É por isso que, por ocasião de um debate de ideias, se a força dos argumentos não se demonstrar suficiente para fazer com que um dos debatedores reconheça seus equívocos, é de bom alvitre não insistir muito. A própria realidade se encarregará de desempatar mais tarde a questão. A última palavra é sempre dela. Eis aí algo que um certo marxismo de funcionário público, de corte academicista e pseudorradical, tem dificuldade em aceitar.

Os que condenam a indústria cultural por ser uma indústria deveriam, por uma questão de coerência, estender a sua combatividade — se é que este é o termo exato — a outros setores da atividade fabril, como a produção de armamentos. Ou será que, no fundo, é a cultura que de fato incomoda? Não haverá aí um ranço aristocrático? O fato é que a indústria cultural contribui de forma decisiva para a democratização dos bens culturais, além de promover o encontro entre a esfera erudita e a esfera popular. Na verdade, ela é o ponto de intersecção entre esses dois campos. A impressão que dá é que alguns se sentem perturbados ou ameaçados por essa democratização e querem continuar fazendo da cultura um monopólio seu, dos especialistas. Em vão, naturalmente.

Há uma nova época se formando diante de nós, semelhante a um Renascimento. Ela é composta pelo desejo de democracia e de autonomia por parte das pessoas, por sede de justiça, pelo avanço extraordinário das pesquisas científicas, pelo aumento da consciência ecológica, pelas formidáveis transformações que ocorrem no aparato produtivo, apontando para uma automação cada vez maior e criando assim a base material para a sociedade sem classes. Muitas das dificuldades e incertezas atuais são próprias de um período de transição — o que não deve escamotear o que de positivo existe no mundo hoje.

Ideias antes consideradas conservadoras podem contribuir para alavancar as transformações sociais. E ideias antes consideradas progressistas podem perfeitamente bloquear essas mesmas transformações. Como tudo na vida, as ideias — culturais, políticas — vão variar historicamente. Eu me recordo do saudoso dirigente comunista Armênio Guedes dizendo que o conceito de esquerda não era fixo. De fato, o que era esquerda lá atrás pode não ser mais hoje. É preciso muita lucidez e experiência para chegar a uma conclusão como essa. Seja como for, em uma época em que a extrema-direita, os fascistas e a esquerda anacrônica se nivelam sob o manto comum do ultranacionalismo, do populismo e do autoritarismo, convém refletir sobre isso.

As classes dominantes temem a aliança dos intelectuais com as classes subalternas por um motivo: elas mesmas fizeram essa aliança, no quadro das diversas revoluções burguesas. Daí terem pleno conhecimento de que o mundo material — aquele da produção e da circulação das mercadorias — não se mantém de pé sem o mundo espiritual — aquele da elaboração e da aplicação das ideias e das teorias.

“Batuque é um privilégio / Ninguém aprende samba no colégio”. Esses versos de Noel Rosa revelam com a acuidade própria do grande compositor carioca que as vias de acesso à criação e à cultura não são necessariamente as mais tradicionais. Hoje em dia, com o entrelaçamento cada vez maior entre educação, cultura e comunicação, Noel Rosa teria ainda mais razão. Aí estão a internet, os cursos livres, o movimento editorial, as exposições revelando que há todo um conjunto de saberes que vai além do sistema educativo tradicional. Se isso não é democratização do conhecimento, então não sei o que é. Na verdade, o aprendizado por conta própria é uma realidade cada vez mais presente no mundo de hoje. Os caminhos que levam ao conhecimento são mais plurais do que normalmente imaginamos.

Os nômades da Mauritânia se deslocavam pelo deserto carregando no dorso dos dromedários cerca de três mil manuscritos, os quais compunham uma formidável biblioteca itinerante. Qual lição se pode extrair disso? Que o homem sabe muito bem o quanto é necessário acumular e armazenar para poder depois então transmitir.

O que rege as sociedades sem classes, ditas primitivas, segundo o antropólogo Claude Lévi-Strauss, são as estruturas de parentesco e as divisões por idade e sexo. Pois bem, a pergunta é: o fato de algumas dessas questões — e poderíamos citar aquelas que envolvem os gêneros e mesmo os chamados conflitos entre as gerações — se alinharem entre as nossas preocupações mais prementes não estaria revelando também, à sua maneira, um início de ultrapassagem das estruturas de classes em nossas sociedades ditas evoluídas? Ou pelo menos a uma redução do peso dos embates entre as classes no mundo contemporâneo, sob a égide das mudanças que se operam na base material das sociedades? Mais concretamente, o confronto entre o capital e o trabalho não estaria dividindo o espaço no palco com a cultura e as questões de ordem comportamental? Tudo isso não poderia ser um sintoma da desagregação da sociedade de classes? Talvez valha acompanhar de perto esse processo pelo que ele tem de novo e potencialmente inovador.

A trajetória da cultura — e o mesmo pode ser constatado em relação à democracia — atravessa o sistema de classes sociais. Ou seja, não é monopólio de ninguém e muito menos de classe alguma. Pois a cultura se compõe de um conjunto de práticas tão extenso, intrincado e complexo que não pode ser reivindicado ou reduzido a nenhum setor social. Tomemos o caso do Direito romano, elaborado há dois mil anos. Uma de suas grandes conquistas, o habeas corpus, protege o indivíduo do poderio avassalador do Estado. E isso, evidentemente, é muito anterior à formação das classes sociais modernas, como a burguesia e o proletariado fabril. Nesse sentido, tanto a cultura quanto a própria democracia não se apresentam apenas como práticas portadoras de um valor de caráter universal para os tempos atuais. Vale dizer, elas resultam de uma experiência incrustada no próprio núcleo do processo civilizatório erguido pelos homens. Um patrimônio que sai do fundo da História, palmilhando diferentes épocas e lugares, com base nas lutas, anseios e saberes de todos os povos sem exceção. Unidos como os dedos das mãos, cultura e democracia são os símbolos maiores da marcha da Civilização. São valores do Humanismo.

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Ivan Alves Filho é historiador e escritor com mais de uma dezena de obras publicadas.

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Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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