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Fraternidade – o princípio esquecido de 1789

Mércio P. Gomes - Setembro 2017
 


Maria Rosária Manieri. Fraternidade. Releitura civil de uma ideia que pode mudar o mundo. Brasília/ Rio de Janeiro: Fundação Astrojildo Pereira/ Contraponto, 2017. 143p.

A fraternidade é o terceiro vértice do tríptico iluminista criado na Revolução Francesa. É uma síntese da liberdade e da igualdade em ação. Se você é livre e se é igual ao outro você está em relação fraternal com o outro.

Bem, por ser uma síntese a fraternidade não é um dado em si, é um processo, e portanto é algo mais difícil de conseguir do que os termos primários e independentes entre si. A fraternidade vai depender do bom comportamento da liberdade e da igualdade. Liberdade, ah, liberdade, todos sabem o que é, todos a almejam e nem todos a têm. Porque, no fundo, a liberdade depende do outro.

Igualdade é então o primeiro confronto com o outro, onde cada um tem que exercer sua individualidade e sua sociabilidade de modo equivalente. Se tudo der certo, então teremos o exercício da fraternidade, da visão de que o outro é como se fosse o eu. A sociabilidade humana está em conseguir esse feito ao ponto mínimo dela se autorreproduzir.

Este livro trata de averiguar o porquê da dificuldade de se promover a fraternidade. A autora, Maria Rosaria Manieri, abre um leque bem vistoso de discussões sobre os grandes autores que discutiram o tema da fraternidade, a começar pela visão cristã, que está tão presente no mundo ocidental. O aspecto laico da fraternidade, entretanto, é o que mais chama a atenção da autora e o que mais fascina a quem lê este livro.

O primeiro problema é que a fraternidade não é universal, conforme dizia Rousseau, mas constrita a um grupo social, uma tribo, uma nação. Os outros continuam inimigos. Se a fraternidade se abrir para todos, então perde-se identidade. Já para Kant, a fraternidade se daria com resultado da consciência do indivíduo transcendental, do todo humano se entendendo consigo mesmo. Ela nasceria da virtude, do senso de justiça, da reciprocidade entre pares e, claro, de uma pitada de cristianismo.

Mas, para que remoer esse tema nessa altura da civilização ocidental, quando, depois de Kant, já surgiram Darwin, Freud e o gene egoísta? E sobretudo o neoliberalismo, que, pelo viés filosófico, é chamado de “neoliberismo”? Maria Rosaria Manieri traz então toda a potência filosófica contida nos escritos de Marx, não só a crítica ao capitalismo, mas os momentos essenciais do entendimento sobre o homem como ser histórico.

Aqui a fraternidade surge, primeiro, como uma união entre fraternos de classe, tal como Rousseau falava da nação, depois como reunificação dos contrários pela fraternidade transcendental. A fraternidade é meio e fim ao mesmo tempo. Nesse sentido pode-se dizer que Marx repõe o tríptico iluminista: a liberdade não é a condição original, é o produto final da história da humanidade.

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Mércio P. Gomes é professor da UFRJ e autor, entre outros, de Antropologia hiperdialética (Ed. Contexto).




Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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