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Legados do comunismo? Nacionalismo e Estado autoritário

Silvio Pons - Novembro 2017
Tradução: Alberto Aggio
 

“O comunismo não deixou nenhuma herança ideal ou cultural, nem mesmo no Ocidente. Mas na China contemporânea vemos em ação a sua herança principal: a capacidade de dirigir a modernização como obra do Estado”. Com Silvio Pons, presidente da Fundação Instituto Gramsci de Roma e um dos maiores estudiosos europeus do comunismo soviético e ocidental (entre outras obras, é um dos organizadores de uma monumental coleção Cambridge History of Communism, recentemente publicada, em três volumes), discutimos o centenário da revolução bolchevique, completado recentemente (Andrea Romano, Democratica, 2 nov. 2017).

Naquele dia 7 de novembro de 1917, em Petrogrado, verificou-se o nascimento de uma experiência história complexa e dramática. Hoje, o que podemos dizer que foi, para o bem ou para o mal, a herança histórica do comunismo?

Quando caiu o comunismo soviético, entre 1989 e 1991, o senso comum (intelectual, político e histórico) era que aquele colapso não havia deixado nenhuma herança. François Furet, no seu trabalho fundamental O passado de uma ilusão, escreve que, se a Revolução Francesa havia deixado um patrimônio institucional e cultural muito além dos limites franceses, o mesmo não se poderia dizer do comunismo. Hoje, ao contrário, devemos levar em conta que as coisas não são assim. A permanência da China comunista, como quer que a definamos, nos obriga a ver a continuidade desses regimes, mesmo no novo século. É obvio que a China abandonou a organização econômica de tipo socialista e atualmente representa uma economia capitalista integrada à economia mundial, mas a sua concepção de Estado e a capacidade de dirigir a modernização por meio do Estado derivam diretamente do comunismo. Para o bem ou para o mal, é esta a principal herança do comunismo.

Isso se vê também na Rússia de Putin, onde a herança do comunismo soviético é subterrânea, mas não menos forte. Se Putin é o novo czar, como agora é moda dizer, a referência do seu autoritarismo estatal não é Nicolau II, mas diretamente Stalin, ou seja, uma ideia de Estado com uma precisa fisionomia nacionalista, em continuidade com o comunismo soviético. Por outro lado, à capacidade de modernização autoritária dirigida pelo Estado na China e parcialmente na Rússia corresponde a ausência de qualquer legado cultural. Hoje não existe em nenhuma formação da esquerda mundial uma herança ideal específica de derivação comunista: a aspiração à igualdade e à emancipação já era patrimônio do movimento socialista e não se pode definir certamente como produto do comunismo.

Mas se poderia falar de um legado específico do comunismo ocidental?

Tudo o que ocorreu depois do fim da guerra fria demonstra que o comunismo ocidental nunca representou um sujeito significativo, incisivo e identificável como tal. Só vale a pena refletir sobre a Itália, único país onde o comunismo europeu deixou uma marca nacional. Aqui o pós-comunismo constituiu um protagonista da segunda república, com todos os seus limites, e um recurso da democracia italiana, sobretudo se considerarmos a defesa das instituições republicanas e os valores da integração europeia e supranacional. Mas não é casual que esse legado não tenha se traduzido tanto na capacidade de dar vida a verdadeiros sujeitos políticos quanto na obra e no testemunho de algumas personalidades, entre as quais a principal me parece a de Giorgio Napolitano.

Eric Hobsbawm sustentava que, se o comunismo não alcançou os seus objetivos, certamente obrigou o capitalismo a se renovar.

É uma afirmação que tem certamente fundamento, no sentido de que, no curso do século XX, seguiu-se ao medo do comunismo uma competição que criou uma interação entre capitalismo e comunismo. Da mesma forma, é indiscutível que, depois da experiência da Grande Depressão, o capitalismo se reformou inclusive sob influência direta do comunismo. Por outro lado, se considerarmos a segunda metade do século XX e, consequentemente, a fase da mais poderosa e abrangente reforma do capitalismo, veremos que as forças que construíram os sistemas de welfare state eram precisamente aquelas social-democracias que o comunismo havia combatido com grande violência. E aqui emerge todo o limite do comunismo a média e longa distância.

A Revolução de Outubro viu irromper na cena da história massas que antes eram mantidas à margem. A partir disso podemos ainda extrair algumas sugestões para o nosso presente, marcado por uma discussão sobre o papel dos “sujeitos invisíveis” na afirmação dos populismos?

O comunismo do século passado respondeu à urgência de uma política de massas, realizando uma socialização autoritária sob as promessas de progresso social e de emancipação. Hoje, em relação ao século XX, a diferença principal é que a dimensão do individualismo prevalece e tira o espaço das representações coercivas da emancipação coletiva. Nesta nova dimensão da política de massas, em que o único elemento de integração é a sociedade de consumo, não vemos respostas igualmente eficazes quanto à capacidade de integrar pela força massas anônimas e excluídas. Não conseguem fazê-lo nem mesmo na Rússia de Putin ou na China de Xi, concentradas antes na sua modernização do que na socialização.

Vamos tentar, em conclusão, um exercício de história alternativa. Sem o golpe de mão bolchevique de 7 de novembro de 1917, a Rússia poderia ter tido outra evolução econômica e política?

Responderia citando Max Weber que, em abril de 1917 (e, portanto, muito antes de outubro), escreveu que a Rússia parecia orientar-se para alguma forma de autoritarismo tradicional ou socialista. Retrospectivamente, é difícil imaginar um caminho diverso para a Rússia de 1917-1918, porque por certo havia em seu interior áreas muito avançadas do ponto de vista industrial ou cultural, mas a permanência radical de duas sociedades contrapostas pressionava por si só para uma conflagração de resultados autoritários. Por outro lado, a história alternativa poderia ser aplicada também ao período 1989-1991: se o sistema soviético não tivesse desmoronado e se tivessem prevalecido outras opções, por parte de algum componente da elite comunista mais consciente da fragilidade da URSS (penso, por exemplo, em Iuri Andropov), a Rússia comunista talvez pudesse ter seguido o percurso que depois seria seguido pela China. Mas esta é uma outra história.

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Sobre a Revolução Russa

O fechamento da Constituinte na Rússia de 1918
Julius Martov e a Revolução Russa
1917
Revolução Russa – da esperança à tragédia
O desvio autoritário de uma ideia
A Veja e a Revolução Russa de 1917
O plano menchevique e a NEP de Lenin
O comunismo histórico em perspectiva global



Fonte: Democratica & Gramsci e o Brasil.

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