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Niemeyer, o arquiteto do século XX

Ivan Alves Filho - Dezembro 2017
 

Nascido no Rio de Janeiro em 1907, Oscar Niemeyer projetou obras nos mais diferentes pontos do Brasil, do Estado do Rio de Janeiro a Minas Gerais, de São Paulo a Brasília. Fez mais, ainda: levou sua arquitetura para o mundo todo, realizando obras em Paris, Tel-Aviv, Caracas, Nova Iorque, Accra, Argel, Beirute, Milão, Londres. Nenhum arquiteto trabalhou tanto quanto ele no mundo. E com tamanha criatividade. 

Nascido apenas duas décadas após o fim da escravidão, Oscar Niemeyer cresceu em um país que buscava desesperadamente romper com o seu passado colonial, vendo na industrialização a chave para superar o terrível atraso em que se encontrava.

A nova arquitetura refletirá as mudanças em marcha. Assim, com a urbanização surgem também os novos materiais, inaugurando a era do domínio quase absoluto dos tijolos e do ferro nas construções. O Brasil ingressava na modernidade, tornava-se, de alguma forma, cosmopolita.

Formado em 1934, pela Escola Nacional de Belas-Artes, Niemeyer integraria, juntamente com Lúcio Costa e Le Corbusier (este último importante arquiteto suíço), o grupo de trabalho que foi responsável pela edificação do então Ministério da Educação e Saúde, hoje Palácio da Cultura, localizado no centro do Rio de Janeiro. A grande contribuição de Niemeyer ao projeto consistiu em elevar ainda mais a base de pilotis do prédio, que passou de quatro para dez metros (“altos, monumentais, criando espaços livres”, conforme definiria o próprio arquiteto). Em 1940, projetaria na histórica cidade de Ouro Preto, berço da Conjuração Mineira, um hotel ao mesmo tempo moderno e respeitoso das linhas arquitetônicas tradicionais do barroco.

Mas o seu trabalho principal, por essa época, é, indiscutivelmente, a Pampulha, o novo bairro que projeta nas cercanias de Belo Horizonte. De tudo que conceberia na Pampulha, destaca-se a Igreja de São Francisco, a surpreender a todos: com essa singularíssima obra, Niemeyer rompia com a chamada “ditadura do ângulo reto”, introduzindo a linha curva, para não dizer ondulada, nesse tipo de construção. “Pampulha foi para mim o começo da minha vida de arquiteto”, escreveria mais tarde, revelando a importância do aprazível bairro de Belo Horizonte para os rumos do seu trabalho. Em 1946, soava a hora da consagração internacional e Oscar Niemeyer projetaria nada mais nada menos do que a sede da Organização das Nações Unidas , em Nova Iorque.

Mas o melhor ainda estaria por vir — Brasília. Oscar Niemeyer concebeu os principais projetos da nova capital brasileira, do Palácio Alvorada ao Palácio do Planalto, do Congresso Nacional à esplendorosa Catedral vazada de luz. Tudo em Brasília é leve, como que flutuando no ar. “Procurei especular no concreto armado”, justificou-se mais tarde Niemeyer, “nos apoios, principalmente, terminando-os em ponta, finos, finíssimos, e os palácios como que apenas tocando o chão”.

Brasília mudou o eixo de desenvolvimento do Brasil, um país até então tradicionalmente voltado para o seu litoral. Niemeyer e seus companheiros de trabalho plantaram uma semente em pleno Cerrado, cabendo ao povo brasileiro fazê-la frutificar. Como quis o crítico Otto Maria Carpeaux, Brasília foi acima de tudo “um ato de afirmação de todo um povo, ao qual não pode faltar o sopro da poesia”. Hoje, parcela considerável da população brasileira — isto é, cerca de 30 milhões de pessoas — tem suas vidas diretamente ligadas a Brasília. São mineiros, goianos, paraenses, cearenses, cariocas, baianos, brasileiros de todos os cantos, como que atestando que sem Brasília faixas imensas do território nacional teriam permanecido despovoadas.

A nova capital empolgou o país e encantou o mundo. O célebre escritor francês André Malraux, então Ministro da Cultura de Charles De Gaulle, não hesitaria em dizer que

as únicas colunas comparáveis em beleza às colunas gregas são as do Palácio do Alvorada.
E isso não é pouco. Mas tem mais: André Malraux intercederia junto ao presidente Charles De Gaulle para que ele concedesse uma licença especial de trabalho para Niemeyer na França. E De Gaulle, consciente da importância do arquiteto brasileiro, prontamente aquiesceu.

Quando Brasília foi inaugurada, Oscar Niemeyer tinha pouco mais de cinquenta anos e já poderia ser considerado um nome internacional. O mundo inteiro o convocava, queria ter uma obra sua. E o arquiteto atende, 'a medida do possível, os novos pedidos, assumindo na prática o papel de embaixador da cultura brasileira. Afinal, nenhum arquiteto traduzia melhor do que ele as necessidades e a própria sensibilidade do homem moderno. Niemeyer expõe em um anexo do Museu do Louvre, em Paris, e é o primeiro arquiteto a fazê-lo. Projeta na África, na Ásia e na Europa.

Com o advento da ditadura militar de 1964, que o persegue por sua condição de membro do Partido Comunista Brasileiro, Oscar Niemeyer busca refúgio no exterior. As portas do mundo se abrem cada vez mais para ele e data dessa época a construção de prédios referenciais, como a sede do Partido Comunista Francês, hoje um ponto turístico de Paris, e a sede da editora Mondadori, em Milão, com seus “arcos assimétricos, suspensos por cabos de aço”, conforme destacou o crítico de artes plásticas e poeta Ferreira Gullar. Com Niemeyer, a própria engenharia brasileira se modernizava e internacionalizava.

Com os novos ventos da democracia, Oscar Niemeyer volta definitivamente ao Brasil. Projeta duas de suas mais importantes obras por essa fase, respectivamente o Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, e o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói. Esse último, criado em 1996, já recebeu a visita de milhões de pessoas e isso em cidade de pouco mais de quinhentos mil habitantes... Depois disso ainda, o arquiteto inauguraria ainda obras como o Novo Museu do Paraná, em Curitiba (2001) e o Hyde Park Pavillion, em Londres (2003). Por essa última obra, foi considerado, pela imprensa especializada londrina, “o Picasso da arquitetura”.

Uma obra de Oscar Niemeyer, dir-se-ia, vem com selo de garantia de fluxo turístico. O arquiteto atrai multidões hoje. Afinal, tratava-se do último modernista então vivo. Picasso, Chagall, Akira Kurosawa, Le Corbusier, Eisenstein, Chaplin, Modigliani, Cartier-Bresson, todos os grandes gênios modernos já tinha falecido. Niemeyer continuava atuando. Ele, o amigo de Jean Paul Sartre e Juscelino Kubitschek, o irmão de lutas de Luiz Carlos Prestes e Agildo Barata. O comunista. O artista. O solidário. Um homem que viveu o seu tempo como nenhum outro talvez.

E tudo por causa da beleza, sempre ela. Ocorre que Oscar Niemeyer contesta pelo Belo, como a demonstrar que o mundo que imagina para o nosso povo tem de ser melhor do que aquele em que esse mesmo povo leva a sua sofrida existência. É o imaginário re-criando o real, opondo-se às suas asperezas. A realidade imaginada é sempre mais bela — e essa é talvez a grande lição da arte de Niemeyer.

Juntamente com os antigos, Oscar Niemeyer poderia dizer que “de todas as coisas o homem é a medida”. Assim, a finalidade da nossa existência é a justificação das nossas necessidades. E nem poderia ser de outra forma: na arquitetura, contrariamente ao que se dá na pintura ou na escultura, o espaço é apropriado pelo homem e não apenas representado ou figurado por ele. Olhamos e admiramos o espaço de uma tela, mas ocupamos o espaço arquitetônico. A arquitetura é a única arte que possibilita ao homem viver dentro dela. E uma arquitetura só é verdadeiramente humana se o homem de fato a domina, não se deixando esmagar por ela. Foi o que Niemeyer compreendeu — daí construir à escala dos homens.

Para Oscar Niemeyer, o espaço da arquitetura pode e deve unir trabalho e lazer, beleza e afazeres cotidiano. Ou seja, o arquiteto percebeu que nas argamassas das construções também pulsam os nossos corações. Mais: que a alma encantadora das ruas é a mais singela das arquiteturas. Com essa ótica, o espaço existe para ser apropriado pelo homem — ou a arquitetura perde a sua razão de ser. E é justamente essa concepção humanista da arquitetura que Oscar Niemeyer — o arquiteto do século no Brasil, escolhido por unanimidade pelos seus pares do Instituto dos Arquitetos do Brasil, em cerimônia realizada em fevereiro de 2001, no Rio de Janeiro — sempre levou para o mundo para o mundo.

Tenho muitas saudades dele. Das conversas em seus escritórios do Rio de Janeiro e em Paris, do período em que morei em sua casa na Argélia. Na última vez que falei com ele, pouco antes de sua morte, ele me perguntou: "Você está feliz?". Era a sua maneira de nos cumprimentar, de dizer bom dia. Com ele, perdi mais do que um amigo e companheiro de lutas partidárias: perdi também um membro da minha família.

Haja argamassa e haja coração.

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Ivan Alves Filho é historiador.



Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

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